A chegada do Uber e o crepúsculo de um monopólio em Paris

Philippe Escande

  • Thomas Samson/AFP

    26.jan.2016 - Policiais tentam conter manifestantes em Paris (França) durante protesto de taxistas contra aplicativos de compartilhamento de veículos, como o Uber

    26.jan.2016 - Policiais tentam conter manifestantes em Paris (França) durante protesto de taxistas contra aplicativos de compartilhamento de veículos, como o Uber

A ira dos táxis volta a invadir as ruas de Paris, crescendo às vésperas da publicação de novos decretos do governo, que neste caso está tão incomodado quanto o Capitão Haddock com seu esparadrapo [personagem da HQ "As aventuras de Tintim", do quadrinista belga Hergé].

Já era de se esperar, uma vez que desde o século 19 o poder público tem se atrapalhado com a questão do "transporte particular de pessoas a título oneroso". Já em 1959, o relatório Rueff-Armand, encomendado pelo general De Gaulle, constatava que "a limitação regulamentar do número de táxis prejudicava o suprimento da demanda e levava à criação de situações como a transferência paga de alvarás".

Tudo foi dito, mas pouco foi feito. Até que veio o avanço da internet móvel junto com os smartphones, que abriu uma brecha no equilíbrio de um sistema que não satisfaz muita gente, especialmente os clientes.

Um publicitário chegou a inventar o neologismo "uberizar" para definir uma profissão desestabilizada pela chegada de novos atores vindos do digital, como tem sido o caso dos táxis com o desembarque maciça da empresa californiana Uber.

Responsáveis pela segurança nas vias públicas, as autoridades sempre tiveram a preocupação de regulamentar rigidamente essa atividade por meio da concessão gratuita de alvarás. Com pouco mais de 17.600 deles em Paris, hoje há ligeiramente mais do que em 1937 (14 mil), sendo que a população da capital triplicou e a cidade recebe a cada ano mais de 30 milhões de turistas.

Resultado: hoje há de quatro a cinco vezes menos táxis e veículos de transporte com chofer (VTC) por habitante em Paris do que em Londres e Nova York, uma escassez que acaba levando a um grande aumento no preço de revenda dos alvarás, que por serem raros, são caros, chegando a custar mais de 200 mil euros (cerca de R$ 880 mil) cada.

Essa regulamentação levou à dominação esmagadora de uma empresa privada. Criada em 1905 com os primeiros automóveis, mitificada pelo episódio glorioso dos táxis de Marne, a "Companhia Parisiense de Automóveis de Praça", rebatizada de G7, aos poucos foi absorvendo seus concorrentes, inclusive os Táxis Azuis nos anos 1990, tornando-se a detentora de mais da metade do mercado.

Pauperização

Restrito aos hotéis e às empresas, o setor de VTC, em que os motoristas não precisam de licença, mas não têm direito de levar clientes sem reserva, estourou quando smartphones e GPS permitiram reservar um carro com mais facilidade do que com a central da G7.

E o que fazer? A nova concorrência promete a ampliação do mercado, como aconteceu em outros lugares, mas pauperiza mais os choferes de hoje, que ficam endividados ou são engolidos pelas taxas.

Não é fácil contentar a todos. A solução passa por um mecanismo de indenização e uma regulamentação protetora que não restrinja a inovação nem a expansão desse setor.

Na falta de uma medida inteligente, as pessoas continuarão, como hoje, a votar com seus smartphones.

Tradutor: UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos