Estamos diante de um terrorismo que aprendeu com seus fracassos, afirma premiê belga

Jean Pierre Stroobants

  • François Lenoir/Reuters

    O premiê belga Charles Michel

    O premiê belga Charles Michel

O primeiro-ministro belga Charles Michel responde às críticas contra seu país sobre o combate antiterrorista

Dirigentes governamentais, bem como representantes do judiciário e da inteligência da França e da Bélgica se encontraram nesta segunda-feira (1º), em Bruxelas. Às vésperas dessa "cúpula" inédita, o primeiro-ministro belga Charles Michel, um liberal que lidera há 16 meses uma coalizão de quatro partidos, sendo um único francófono, o Movimento Reformista, respondeu às perguntas do "Le Monde".

Le Monde: Paris acusou seu país de estar atrasado no combate antiterrorista.
Charles Michel:
Logo que assumi o cargo, afirmei à presidência da França que nossa cooperação em matéria de segurança era crucial. E independentemente do que possam ter dito, ela até que funciona bem. As trocas são as mais sistemáticas possíveis, há equipes de investigação trabalhando conjuntamente. Contudo, queremos assumir compromissos mais operacionais e mais concretos. Podemos também melhorar nossa luta conjunta contra a radicalização.

Le Monde: No caso dos atentados de novembro de 2015, acabaram deixando passar indivíduos sinalizados como radicais...
Michel:
É preciso coordenar as trocas de informações, tanto no nível bilateral quanto no plano europeu. Pleiteei a criação de uma plataforma europeia mais estruturada em termos de inteligência, não somente para a polícia e o judiciário. Essas trocas continuam sendo em sua maior parte bilaterais, só que elas deveriam envolver todos os membros do Espaço Schengen. Nem todos avaliam da mesma maneira o momento em que uma informação deve ser comunicada para todos os países-membros. Quanto ao PNR europeu, o arquivo dos passageiros aéreos, aprovado após uma absurda demora, ele só funcionará se as trocas entre os países realmente funcionarem.

Le Monde: E para a Bélgica, o que o senhor planeja agora que Molenbeek entrou para o mapa do jihadismo mundial?
Michel:
Quero primeiro desmistificar os exageros, as caricaturas, os clichês, as gafes às quais assistimos. Mas estou ciente: estariam a Bélgica e Bruxelas passando por dificuldades ligadas à ascensão do fanatismo? Sim. Mas não mais do que a periferia francesa ou outros países. Nós afirmamos, antes dos atentados contra o "Charlie Hebdo", que o combate ao radicalismo era uma de nossas maiores prioridades. Nós adotamos uma dezena de medidas estruturais após o desmantelamento de uma célula em Verviers em 2014, e atacamos de frente o problema de Molenbeek, estendemos a duração da custódia, facilitamos as escutas, ampliamos as possibilidades de buscas, mas estamos diante de um terrorismo que aprendeu com seus fracassos anteriores.

Le Monde: Seus antecessores tinham ideia da dimensão do problema?
Michel:
Não julgo o que se fez no passado, mas provavelmente havia correntes políticas menos preocupadas com as questões de segurança e o papel do Estado. Quando meu partido levantava o debate sobre a questão da integração, dos valores fundamentais ou da guetificação de determinados bairros, certos políticos, intelectuais e jornalistas logo o taxavam de racista ou de xenófobo. A única vantagem do que se passou foi que tabus foram rompidos e a opinião pública se conscientizou do que está acontecendo.

Le Monde: O candidato republicano Donald Trump diz que Bruxelas está um "inferno"...
Michel:
É tão ofensivo e excessivo que torna ridículo o autor de uma tamanha generalização.

Le Monde: Um fracasso na integração pode ter contribuído para a expansão do fenômeno jihadista?
Michel:
Mesmo eu não sendo de esquerda, partilho da opinião de Manuel Valls: nada justifica uma ação tão abjeta. As pessoas se enganam ao buscarem causas sociais para algo que não é nada além de uma ideologia fanática que quer impor sua visão obscurantista através da violência extrema. Devemos combatê-la, sem no entanto abrir mão de nossos valores fundamentais.

Le Monde: O nível de alerta 3, em uma escala que vai até 4, está sendo mantido na Bélgica. O senhor teme um atentado próximo?
Michel:
A ameaça na Europa não está descartada, e não existe risco zero. Isso nos obriga a sermos mais ativos no plano da segurança, mas também na resolução dos conflitos que alimentam o terrorismo.

Le Monde: Seu ministro do Interior, Jan Jambon, acredita que Salah Abdeslam, que está foragido, provavelmente tinha apoiadores dentro da comunidade muçulmana. O senhor concorda?
Michel:
Nós sempre procuramos evitar generalizações. O que nos surpreendeu foi que os autores desses atentados nasceram em nosso país e ali foram educados, conheceram nosso modo de vida. Além disso, não se podem negar os fenômenos que surgiram após os atentados como os "Eu não sou Charlie" ou então, no caso de alguns, uma ausência de repúdio ao que aconteceu. Se o ministro do Interior quer enfatizar que não há uma unanimidade completa na condenação aos atentados, ele não está errado.

Le Monde: O senhor também pretende mencionar a questão da "selva" de Calais com seus interlocutores franceses. Por quê?
Michel:
Pela primeira vez na Bélgica estamos enfrentando problemas considerando o agravamento da situação local e não queremos que se instalem em nosso país acampamentos temporários e zonas sem lei. Há alguns dias tomamos as primeiras medidas para evitar isso e queremos ver quais são as intenções do governo francês. Não estou estigmatizando ninguém, mas constato que esse problema já existe há anos. Em Bruxelas, nós impedimos, sem violência, o crescimento de um acampamento de candidatos ao asilo dentro de um parque.

Tradutor: UOL

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