Refugiados de Aleppo são barrados na "porta da paz"

Benjamin Barthe

Enviado especial a Kilis (Turquia)

Os sírios a chamam de Bab al-Salamah, a "porta da paz". É um ponto de passagem para a Turquia, ao norte de Aleppo, uma saída do inferno para todos os habitantes dessa região, sujeitos ao fogo ininterrupto dos caças bombardeiros russos. Mas Bab al-Salamah não quer se abrir. Dez dias após o início da ofensiva das forças lealistas na província de Aleppo, e enquanto dezenas de milhares de sírios se amontoam nos acampamentos improvisados dos arredores, o posto fronteiriço permanece fechado.

Apesar das promessas do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, as autoridades locais não parecem estar com pressa em receber uma nova onda de refugiados que se somariam aos 2,5 milhões de sírios já presentes.

"Nosso objetivo por enquanto é manter o quanto possível essa onda de imigrantes para além das fronteiras da Turquia, e de lhes fornecer os serviços necessários nesse local", admitiu na segunda-feira o vice-premiê Numan Kurtulmus.

Então um novo acampamento de tendas, o nono, surgiu durante o fim de semana nos arredores de Bab al-Salamah. Segundo o vice-presidente do Crescente Vermelho turco, Kerem Kinik, 65 mil sírios agora se aglutinam nos arredores do posto fronteiriço, incluindo 15 mil que chegaram desde a intensificação dos bombardeios russos, na segunda-feira.

"Os acampamentos estão saturados", conta Ahmed al-Mohamed, um funcionário da Médicos Sem Fronteiras que acaba de voltar da Síria. "Nos primeiros dias, algumas pessoas dormiam na rua ou nos olivais. Cheguei a ver famílias dormindo dentro do carro, na terra-de-ninguém entre as duas extremidades da fronteira."

Segundo um especialista da ONU, 10 mil outros deslocados pararam em Azaz, a primeira cidade síria, 5 km ao sul do terminal. Em vez de contar com uma possível abertura da fronteira, alguns habitantes da província de Aleppo preferiram se refugiar na parte oeste, por ora poupada pelos ataques russos.

Quase 6 mil pessoas também foram autorizadas pelas forças curdas a se instalarem no distrito de Afrin, ao noroeste de Aleppo, que está sob seu controle. No total, segundo uma contagem preliminar da ONU, o número de deslocados da semana passada chega perto de 45 mil.

"Um vulcão em erupção"

Os únicos sírios autorizados a entrar na Turquia são os feridos. A maior parte é encaminhada para o pequeno hospital de Kilis, a cidade que margeia o terminal. No segundo andar, Mohamed Abu Jamil, um pai de família de 45 anos, acaba de passar por uma operação nas pernas.

Na segunda-feira, ele se encontrava em sua casa, em Tell Rifaat, a cerca de 20 km da fronteira, quando houve uma explosão, estilhaçando as janelas. "Foi como um vulcão em erupção, com fumaça laranja", ele explica, deitado em seu leito. "Começamos a correr. Fui derrubado pelo segundo foguete."

Seu filho Ibrahim, autorizado a acompanhá-lo, conta sobre o calvário sofrido pelo vilarejo desde o fim da semana passada. "Os aviões russos têm atacado de dez a quinze vezes por dia. Às vezes eles soltam foguetes com vários metros de comprimento, que descem de paraquedas e destroem tudo ao redor."

O uso desse tipo de projétil em território russo foi confirmado por vários vídeos, sem que seja possível identificar formalmente sua natureza.

No leito ao lado, um jovem se recupera de um ferimento no pescoço, causado por estilhaços de um morteiro. Ele diz ser um civil que se feriu enquanto estava na frente de sua casa. Mas seu ar constrangido e sua recusa em dizer mais permitem supor que ele tenha sido ferido em combates, assim como muitos outros pacientes do hospital, menos temerosos, que não hesitam em dizer que são membros do Exército Livre da Síria (ELS), o braço moderado da insurreição.

No quarto que se enche de visitantes, a presença de um jornalista ocidental acaba provocando um debate turbulento.

"Os governos ocidentais sabem tudo que está acontecendo na Síria, mas ninguém se mexe", exclama um deles, um médico conhecido pelo apelido de Abou Ahmed, instalado em Kilis há quatro anos.

"Por acaso os sírios são todos terroristas que devem ser massacrados?" "Precisamos de mísseis solo-ar, 100 mísseis solo-ar, entende? Com isso, esses russos covardes cairão fora tão rápido quanto vieram", diz um outro. "Não", contesta um terceiro.

"Não precisamos nem de comida, nem de dinheiro, nem de armas. Só precisamos que decretem uma zona de exclusão aérea ao norte de Aleppo, para que possamos voltar para nossas casas."

Mas é tarde demais. Os Estados Unidos sempre foram contrários a essa ideia, sugerida pela Turquia. E supondo que eles mudem de ideia, o que é improvável, o avanço das forças governamentais, com o apoio da aviação russa, torna uma medida como essa agora impossível de ser colocada em prática. Os pró-Assad agora estão a somente alguns quilômetros de Tell Rifaat, e podem esperar alcançar a fronteira e retomar o controle de Bab al-Salamah nas próximas semanas.

Diante do terminal, do lado turco, um jornalista sírio digita em seu celular. Ele se comunica através do WhatsApp, um aplicativo de mensagens instantâneas, com um residente de Tell Rifaat, encarregado da transferência dos feridos para Kilis.

O homem acaba de enviar uma mensagem de voz: "Acabamos de receber cinco novos mortos. Há aviões em todo lugar por cima de nossas cabeças". E, com uma voz embargada por lágrimas, ele acrescenta: "Não podemos lutar contra o céu."

Tradutor: UOL

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