Na Rússia de Putin, uma "bomba-relógio" chamada Lênin

Isabelle Mandraud

  • Ivan Sekretarev/AP

    21.jan.2016 - Moscovitas comunistas seguram retratos de Lênin e bandeiras vermelhas para lembrar o 92º aniversário da morte do líder da Revolução Russa, em Moscou

    21.jan.2016 - Moscovitas comunistas seguram retratos de Lênin e bandeiras vermelhas para lembrar o 92º aniversário da morte do líder da Revolução Russa, em Moscou

O centenário da revolução de outubro de 1917 se aproxima e a dúvida continua: o que fazer com Lênin? Noventa e dois anos após sua morte, o líder da revolução bolchevique continua presente em cada esquina na Rússia, no metrô de Moscou e, é claro, na Praça Vermelha, onde seu corpo embalsamado repousa em um mausoléu de granito.

Lênin está por toda parte. Em 2011, o Rússia Unida, o partido no poder, bem que tentou reunir os partidários de seu enterro lançando um website chamado Good Bye Lenin. Mas, até o momento, apesar de 620.648 apoiadores, a iniciativa não foi em frente. Nenhum dirigente russo conseguiu derrubar a estatura de Vladimir Ilitch Ulianov, primeiro chefe de Estado soviético.

Pior, o ator norte-americano Leonardo DiCaprio quer representa-lo no cinema. As declarações de Vladimir Putin, presidente da Rússia, também surpreenderam quando, diante do Conselho da Ciência e da Educação, reunido no dia 21 de janeiro no Kremlin, o russo não hesitou em acusar Lênin de ter conduzido a União Soviética a seu "colapso".

"Ele colocou uma bomba atômica sob a Rússia, que em seguida explodiu", ele declarou, provocando a fúria do Partido Comunista, principal força de oposição parlamentar na Rússia. "Criticar Lênin é atentar contra a segurança do Estado", afirmou, na terça-feira (2), Guennadi Ziuganov, primeiro-secretário do PC russo, citado pela agência russa de notícias Interfax.

"Tenho vergonha dos absurdos ditos pelo dirigente de nosso país sobre seu grande antecessor", vituperou Roman Kobizov, representante da região de Amur, no extremo leste do país, em um longo texto postado no site do partido, dizendo ainda: "Aqueles que criticam seu país como fazem os nacionalistas ucranianos do Setor Direito (partido ultranacionalista) são uma reencarnação de Bandera. O sobrenome de Putin é Bandera."

Caramba! O presidente sendo comparado com o nacionalista ucraniano que colaborou com a Alemanha nazista? Coisa séria.

Durante um congresso político em Stavropol, Putin tentou, pouco depois, abrandar sua declaração. "Assim como milhões de cidadãos soviéticos, fui membro do Partido Comunista", ele disse, fazendo digressões sobre seu passado de agente da KGB. "Mas, ao contrário de vários oficiais do Partido, eu não joguei fora minha carteirinha do Partido, não a queimei (...). Ela deve estar por aí ainda."

"Sempre gostei das ideias comunistas e socialistas", disse o chefe do Estado. "Se considerarmos o código dos fundadores do comunismo (...), ele lembra muito a Bíblia. Não é piada. Ele fala de boas coisas, como igualdade, fraternidade, bondade..."

Neste ponto, os comunistas soltaram um suspiro de alívio. Mas o que veio em seguida os desapontou:

"No entanto, a realização concreta desses ideais tem pouco a ver com as utopias socialistas de Saint Simon (filósofo francês do século 19) ou de Owen (Robert Owen, teórico socialista britânico)." E citou como exemplo o assassinato da família do último tsar da Rússia, cometido pelos bolcheviques: "Suponho que eles tivessem algumas razões ideológicas para eliminar seus herdeiros, mas por que matar o doutor Botkin, último médico da família imperial? Por que matar os domésticos, que são proletários? Para acobertar o crime."

Direito de reavaliação

Putin aproveitou para denunciar o papel do partido bolchevique durante a Primeira Guerra Mundial, "nós nos vimos como perdedores diante de uma nação perdedora (...), um caso único na História", antes de ir ao cerne de sua declaração: sim, Lênin de fato plantou "uma bomba-relógio" sob as fundações da Rússia. Por uma razão muito simples, como explicou o chefe do Kremlin: a autonomia que o ex-dirigente havia concedido aos "súditos" da URSS "com base em uma igualdade total, com o direito de cada um de deixar a união", foi um erro.

Putin chamou ainda de "absurda" a decisão de ceder o Donbass (região tomada por separatistas) para a Ucrânia. "As fronteiras foram estabelecidas arbitrariamente, sem muita razão. Por que eles fizeram do Donbass uma parte da Ucrânia?" 

Enquanto prosseguem com dificuldades as discussões sobre a implantação dos acordos de Minsk, que deveriam apaziguar a situação no leste da Ucrânia, onde continua um conflito sangrento entre separatistas pró-Rússia apoiados por Moscou e as forças de Kiev, essa reflexão diz muito sobre a integridade territorial do vizinho visto a partir do Kremlin. Ela não espantará aqueles que se lembram de que Putin havia chamado de "maior catástrofe" do século 20 o fim da URSS.

Mas provavelmente existe mais por trás desse direito de reavaliar Lênin. Obcecado pelas "revoluções", essas verdadeiras bombas-relógio, Putin provavelmente está vendo com maus olhos se aproximar o centenário da obra de um dos maiores revolucionários de todos os tempos.

Tradutor: UOL

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