Maior país muçulmano no mundo, Indonésia resiste a extremismos

Florence De Changy

  • Juni Kriswanto/AFP

    14.jan.2016 - Grupo de estudantes indonésios protesta com velas em Surabaya, na ilha de Java, contra os ataques a bomba que abalaram Jacarta. O EI assumiu a autoria

    14.jan.2016 - Grupo de estudantes indonésios protesta com velas em Surabaya, na ilha de Java, contra os ataques a bomba que abalaram Jacarta. O EI assumiu a autoria

Frente à ameaça terrorista, o maior país muçulmano do mundo cultiva sua tradição de tolerância

No gabinete do presidente da maior organização muçulmana da Indonésia, a Nahdlatul Ulama (NU) ou Renascimento dos Ulemás, reina um clima amigável e descontraído, assim como o islamismo que ele se esforça para promover: pacífico, tolerante e ancorado na tradição indonésia. Uma reunião é preparada em torno da grande mesa de madeira lustrada enquanto o presidente, Said Aqil Siroj, conversa com meia dúzia de conselheiros e oficiais. O ministro da Educação foi convidado para a ocasião.

Os atentados de 14 de janeiro aconteceram muito perto dali, no coração de Jacarta, em torno do shopping center Sarinah, causando a morte de quatro civis e quatro agressores. O ataque foi reivindicado pela organização Estado Islâmico (EI). O anúncio, feito um mês depois, de que 33 militantes extremistas seriam presos lembrou a ameaça que paira sobre o país. A polícia efetuou novas prisões na sexta-feira (19) em um campo de treinamento descoberto em uma montanha da ilha de Java. Moradores haviam alertado as autoridades depois de ouvirem tiros.

Rejeição ao califado

Desde os atentados de Bali que resultaram em 202 mortos em 2002, a polícia e o esquadrão antiterrorista Densus 88 aumentaram consideravelmente suas capacidades de ação. Mas é sobretudo com seu clima de tolerância e suas instituições religiosas, cuja palavra de ordem é a moderação, que o país conta para resistir aos apelos do EI.

O islamismo indonésio, o chamado "nusantara" ou "do arquipélago", de tradição sunita, rejeita abertamente tanto o califado quanto a aplicação da sharia. "Para nós, tudo aquilo que é radical não é islamismo", afirma Said Aqil Siroj.

Com 90% de seus 255 milhões de habitantes declarados seguidores dessa religião, a Indonésia abriga a maior comunidade muçulmana do mundo. Entre 60 milhões e 80 milhões pertencem à NU, enquanto 30 milhões a 40 milhões se dizem fieis à Muhammadiyah, a outra grande organização muçulmana, mais conservadora, mas que também moderou consideravelmente suas posições. "Por fim, restam entre 80 milhões e 110 milhões de muçulmanos não praticantes ou não fervorosos", explica o professor Ayang Utriza Yakin, da Universidade Islâmica Nacional de Jacarta.

A Indonésia seria, teoricamente, a incubadora mais abundante para recrutar jovens para as fileiras do EI, ainda mais que os indonésios são muito conectados e potencialmente expostos à propaganda online. Mas o presidente da NU, que administra 800 mil mesquitas por toda a Indonésia, não tem medo dos radicais. "Eles sempre existiram, desde os primórdios da nação enfrentamos isso", diz Said Aqil Siroj.

Para fazer frente a eles, a NU emprega sua própria comunicação. No outono de 2015, ela apresentou um vídeo de uma hora e meia intitulado "A Divina Graça do Islamismo do Arquipélago", que desconstrói o discurso radical. Divulgado durante seus congressos, o vídeo mostra militantes do EI apontando suas AK-47 para a cabeça de reféns ajoelhados. Uma voz em off questiona: "Qual é nossa concepção de Deus? Qual é nossa concepção de fraternidade? Qual é nossa concepção de humanidade?"

Mas o quadro está longe de ser perfeito. A lei anti-blasfêmias tem sido cada vez mais utilizada contra as minorias, e os xiitas, que são de 1 milhão a 3 milhões, não têm direito de se declararem muçulmanos. A ascensão da influência do wahabismo saudita também é bem real, e certos observadores chegam a falar em arabização da sociedade indonésia. "Nos anos 1970, vimos a primeira geração de indonésios partirem para o Oriente Médio", lembra o Dr. Said Aqil. "Em seguida, nos anos 1980, foi inaugurada a escola de estudos árabes em Jacarta, que logo se tornou uma academia de estudos islâmicos. Desde então, eles não pararam mais de construir mesquitas e de impor seus imames wahabitas para pregarem ali."

"Respeito a todos"

Ele ressalta que, se um muçulmano é de obediência wahabita, "ele está a um passo de se tornar terrorista". Então, por que não proibir essa prática? A pergunta o faz rir. "Somos uma sociedade muito tolerante. Nossas leis determinam que todos sejam respeitados", ele diz.

O Ministério dos Assuntos Religiosos coopera ativamente com essas organizações que regulamentam a prática do culto e dispõe de um dos maiores orçamentos do governo. Ou seja, o assunto é acompanhado bem de perto. "O fato de que, dentre os mais de 200 milhões de muçulmanos somente 500 a 700 combatentes tenham ido para a Síria prova que o discurso dos extremistas não seduz as pessoas", observa Yenny Wahid, a filha do falecido Abdurrahman Wahid, mais conhecido por seu apelido Gus Dur, que liderou a NU e depois foi presidente do país entre 1999 e 2001.

Em vez de se opor às declarações do Estado Islâmico ou de denegri-los, sua associação, o Instituto Wahid, formula contra-propostas baseadas nas especificidades do islamismo do arquipélago. No entanto, ela lamenta que nada esteja sendo feito para os "Alumni", os veteranos da Síria que voltaram ao país, nem para os jovens condenados por extremismo uma vez saídos da prisão.

Tradutor: UOL

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