Entre Damasco e Beirute, as famílias sírias são separadas pela guerra

Lucie Soullier

  • Bilal Hussein/AP

    O refugiado sírio Talal al-Bideiwi,que fugiu com os dois filhos e a mulher de Homs, na Síria, espera para ser levado para o aeroporto de Beirute, no Líbano, e então realocado em um país europeu

    O refugiado sírio Talal al-Bideiwi,que fugiu com os dois filhos e a mulher de Homs, na Síria, espera para ser levado para o aeroporto de Beirute, no Líbano, e então realocado em um país europeu

A passagem entre a Síria e o Líbano, que tem um quarto de sua população constituído por refugiados, está cada vez mais complicada

Faten só acreditará quando tiver abraçado seu irmão. Sentada no banco traseiro de um sedã branco, ela espera no posto fronteiriço de Masna, do lado do Líbano, com os olhos cravados na vizinha Síria, de onde fugiu há três anos.

Faten, seu marido e sua filha, Loujein, agora fazem parte do milhão e meio de sírios registrados no Líbano junto ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). E, assim como as outras famílias devastadas pelo conflito sírio, eles são obrigados a lidar com uma fronteira sírio-libanesa mais impermeável do que nunca.

Hoje nada garante que o irmão de Faten consiga passar. Desde janeiro de 2015, essa fronteira também voltou a ser fechada pelos sírios. Agora eles precisam tirar um visto, algo inédito na história entre os dois países. Para abraçar Faten pela primeira vez em três anos, seu irmão teve de juntar US$ 1.000 (R$ 4 mil) para apresentar aos guardas da fronteira e reservar um hotel, como exige o visto de turista.

"Sem essa lei idiota, ele poderia dormir em nossa casa", reclama o marido de Faten, Mohammed, que vê nisso somente um dinheiro gasto inutilmente por um quarto que não é garantia nenhuma de que seu cunhado de fato conseguirá voltar à Síria.

Mohammed não gosta de ir até Masna, esse lugar onde "a guarda fronteiriça pode decidir sozinha sobre quem vai entrar". Por ter ficado dois dias a mais do que o autorizado, sua mãe foi proibida de entrar no Líbano durante um ano. Ele nunca correrá o risco de visitá-la na Síria, pois aos 36 anos de idade, ele poderia ser convocado para o Exército do ditador sírio, Bashar al-Assad, e nada lhe garante que ele poderá voltar para território libanês.

O telefone de Faten não para, e uma enxurrada de mensagens de sua sobrinha a lança para fora do carro, entre risos e lágrimas. "Eles conseguiram! Estão com o carimbo!"

A partir de Beirute, a capital libanesa abrigada na margem do Mediterrâneo, Basma conta os quilômetros que a separam de sua avó, que permaneceu em Aleppo, no norte da Síria. Em linha reta são 300 km, a mesma distância que entre Paris e Rennes.

"É tão frustrante saber que ela está tão perto e não podemos vê-la". A viagem repleta de postos de fronteira seria árdua demais para a velha senhora de 86 anos.

A capital dos reencontros

E desde 2012 tem sido impossível para sua neta de 28 anos se aventurar pela Síria, uma vez que o regime a considera uma inimiga desde que ela prestou assistência aos habitantes de Homs que fugiam dos combates.

Mas Basma se considera sortuda. Sua família tem uma casa na capital libanesa, então seu pai pode ir regularmente para lá a partir de Damasco. Por uma semana no máximo, para não deixar o apartamento damasceno à mercê de saqueadores.

Cada vez que ele vai embora, Basma pensa consigo mesma que o está vendo pela última vez. Ela diz estar quase acostumada com os bombardeios e os atentados, mas não consegue se acostumar com a ideia de que pode ser presa. "Muitos de meus amigos desapareceram. Oficialmente, eles não estão nem mortos, nem na prisão. Puf!", ela diz, fazendo um gesto para o alto.

No saguão do elegante Hotel Commodore de Beirute, no meio de empresários, duas sírias se abraçam. Dos 203 quartos, 20% estão ocupados por sírios.

"Aqueles que ficaram na Síria vêm para reencontrar aqueles que partiram para a Europa ou outro lugar do mundo", observa Sara Massalkhi, diretora de relações com os clientes. 

A capital libanesa se tornou a capital dos reencontros para famílias separadas pela guerra. Pelo menos aquelas que têm recursos, algo cada vez mais raro.

Ahmad veio de Dubai para passar 24 horas com sua mãe, sua irmã e seu irmão mais novo, que ele não via há três anos. Por ter bancado o jornalista amador, ele não pode mais entrar em território sírio.

Faz dias que ele se encontra angustiado com a ideia de que seus parentes não possam mais atravessar a fronteira sírio-libanesa, mas foi ele que se viu preso por duas horas no aeroporto Rafic-Hariri, tendo de responder às perguntas dos agentes alfandegários.

"Ter um passaporte sírio é sempre meio suspeito", ele diz. Com os olhos marejados, ele se recusa a baixar a cabeça, ainda mais por sua mãe ter lhe confiado uma missão antes de ir. Daqui a alguns meses, seu irmão mais novo fará 18 anos, idade de ser convocado para o Exército de Assad. "Preciso tirá-lo de lá."

Tradutor: UOL

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