DiCaprio, uma estatueta e discursos políticos no Oscar 2016

Isabelle Regnier

  • Kevin Winter/Getty Images

    28.fev.2016 - Leonardo DiCaprio discursa após receber o prêmio de melhor ator por "O Regresso" no Oscar 2016

    28.fev.2016 - Leonardo DiCaprio discursa após receber o prêmio de melhor ator por "O Regresso" no Oscar 2016

Então Leonardo DiCaprio, aos 41 anos de idade, ganhou seu primeiro Oscar. Ao final de uma longa noite, o suspense que tomava conta da mídia e das redes sociais há semanas por fim terminou, no domingo (28), no Dolby Theatre de Los Angeles (EUA).

A atuação gigantesca do ator em "O Regresso", um caçador que volta dos mortos depois de ter sido destruído por um urso, atravessando as montanhas nevadas da América do Norte arrasado pela dor, pelo frio e pela fome, inebriado de raiva e de sede de vingança, foi premiada.

Até o fim, DiCaprio cumpriu seu papel de astro da noite, aproveitando a tribuna que lhe foi oferecida para fazer um discurso sobre o aquecimento global e a urgência que há em "parar de procrastinar". "Precisamos apoiar os líderes do mundo que não falam pelos grandes poluidores e pelas grandes multinacionais, mas sim os que falam por toda a humanidade, pelos indígenas, pelos bilhões de desfavorecidos que serão os mais afetados pela mudança climática."

Alguns minutos antes, o diretor do filme, Alejandro González Iñarritu, tinha estado no palco para receber o Oscar de melhor diretor. Ainda que "O Regresso" estivesse entre os favoritos da competição (ele também recebeu, pelo trabalho de Emmanuel Lubezki, o prêmio de melhor fotografia), esse prêmio colocou o diretor mexicano na História. Um ano depois de "Birdman", Iñarritu se tornou o terceiro cineasta, depois de John Ford e Joseph L. Mankiewicz, a receber essa distinção por dois anos seguidos.

Para a grande surpresa, foi necessário esperar até os últimos segundos da cerimônia e pela consagração de "Spotlight", de Tom McCarthy, como melhor filme do ano. Conduzido por um grupo de atores cuja modéstia aparece como o perfeito contraponto à performance excepcional de DiCaprio, esse filme investigativo, cuja sobriedade às vezes esgota a proposta, narra o trabalho dos jornalistas do "Boston Globe", que no início dos anos 2000 levou à revelação de uma série de crimes de pedofilia dentro da Igreja Católica. Além dessa consagração suprema, o filme levou o prêmio de melhor roteiro original.

A outra grande estrela da noite foi, inegavelmente, o comediante negro Chris Rock. Ao mestre de cerimônias dessa 88ª edição do Oscar cabia a delicada tarefa de colocar em cena, sem estragar a festa, a polêmica que agitou o meio do cinema nas últimas semanas sobre o racismo em Hollywood e sua consequência direta, a ausência de artistas e técnicos negros entre os indicados. O comediante se saiu com classe, distribuindo suas alfinetadas e ao mesmo tempo conseguindo sempre levar para o lado do riso.

"Bem, estou aqui no Oscar, também conhecido como premiação da escolha do povo branco". Se essa polêmica não havia surgido antes, segundo ele, é porque "durante muito tempo eles estavam lutando contra coisas mais importantes. Estavam ocupados demais sendo estuprados e linchados para se preocuparem com quem era o melhor diretor de fotografia. Quando sua avó está pendurada em uma árvore, é difícil se interessar pelo melhor documentário de curta-metragem".

Seis prêmios para "Mad Max"

Como manda a tradição, seu discurso de abertura foi repleto de alfinetadas em diferentes personalidades do cinema, a começar por Will Smith ("É verdade, não é justo que Will não tenha sido convidado. Mas tampouco é justo que ele tenha recebido US$ 20 milhões por 'As Loucas Aventuras de James West'.) e sua esposa ("Jada boicotar o Oscar é como eu boicotar a calcinha de Rihanna. Eu não fui convidado"), o que não impediu Chris Rock de mencionar diante da bela plateia --e de ser calorosamente aplaudido por tê-lo feito-- o escândalo dos crimes racistas impunes da polícia norte-americana. "Este ano, no in memoriam, só haverá negros que foram mortos pela polícia enquanto iam ao cinema."

Entre os outros vencedores da noite, não se pode deixar de citar "Mad Max: Estrada da Fúria". Indicado nas categorias de Melhor Filme e Melhor Diretor, o road movie de George Miller teve de se contentar com prêmios técnicos, mas de qualquer forma foi uma bela colheita: nada menos que seis Oscars por melhor montagem, melhor figurino, melhor design de produção, melhor cabelo e maquiagem, melhor edição de som e melhor mixagem de som.

O Oscar de melhor atriz foi para Brie Larson, jovem atriz de 26 anos, por seu papel em "O Quarto de Jack", de Lenny Abrahmson. O que deixa em uma situação difícil Charlotte Rampling, indicada por sua notável atuação em "45 Anos", de Andrew Haigh, e que faz pensar que talvez ela esteja pagando por seu recente comentário sobre o racismo contra brancos.

Já Ennio Morricone, 87, ganhou o primeiro Oscar de sua carreira pela trilha de "Os Oito Odiados", de Quentin Tarantino. "Divertida Mente", de Pete Docter, foi coroado como melhor filme de animação do ano, e "Amy", a biografia de Amy Winehouse, dirigida por Asif Kapadia, foi o melhor documentário.

O prêmio de melhor canção original foi dado a "Writing's on the Wall", de Sam Smith e Jimmy Napes, para o filme "007 contra Spectre", de Sam Mendes, e o de melhor roteiro adaptado para "A Grande Aposta", de Adam McKay, pelo qual todos esperavam um resultado mais glorioso.

Por fim, "O Filho de Saul", do húngaro László Nemes, recebeu o Oscar de melhor filme de língua estrangeira, batendo o filme "Mustang", de Deniz Gamze Ergüven, que concorria pela França.

Tradutor: UOL

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