Desemprego leva região da ex-Alemanha Oriental a rejeitar Merkel nas urnas

Cécile Boutelet

  • Wolfgang Rattay/Reuters

    Placa com os dizeres "Basta! Saxony-Anhalt vota no AfD", em Magdeburg

    Placa com os dizeres "Basta! Saxony-Anhalt vota no AfD", em Magdeburg

No arruinado Estado da Saxônia-Anhalt, parte da antiga Alemanha Oriental, os eleitores sentem que são excluídos da prosperidade alemã

Seu nome aparece no porta-luvas de seu táxi, uma Mercedes velha. Heike Peters possui sua própria licença em Magdeburg, na Saxônia-Anhalt. "Eu comecei a trabalhar por conta própria há dois anos porque estava desempregada. Mas as pessoas aqui não têm condições de pagar um táxi. Recebo 800 euros líquidos por mês, não aguento mais", ela conta.

Normalmente ela não costuma votar, mas no último domingo (13) ela foi, e com determinação. Ela votou na Alternative für Deutschland ("Alternativa para a Alemanha", AfD) como seu marido, que também não costuma votar e tem um emprego além de receber auxílio social. "Não é que a gente concorde com tudo o que dizem, mas queríamos dar uma lição nos grandes partidos, para que eles reflitam um pouco no que estão fazendo. Os refugiados foram a gota d'água".

Heike tem 37 anos. Ela usa o cabelo bem curto, com uma mecha loira grudada com gel no alto de sua cabeça, e seus olhos entregam um grande cansaço. Ela está preocupada sobretudo com seu único filho, cujas necessidades ela pena para suprir.

A generosidade de Angela Merkel para com os refugiados desperta nela uma profunda incompreensão. "Eu nasci na Alemanha Oriental em uma família de oito filhos. Hoje digo a meu filho que só ele já é demais. Muitos dizem hoje que pelo menos na Alemanha Oriental havia uma estrutura, perspectivas para as crianças! Uma Alemanha que vai bem, com um índice de desemprego baixo é uma piada!"

Na Saxônia-Anhalt, no domingo (13), cerca de 100 mil abstencionistas saíram de casa para votar na AfD. Foi o grupo que mais contribuiu para o avanço do partido, que chegou em segundo lugar, com 24,4% dos votos, somente 5 pontos atrás da União Democrata-Cristã (CDU) de Angela Merkel.

A região é uma das mais pobres da Alemanha. Apesar de seu grande passado industrial antes da Segunda Guerra Mundial, ela nunca conseguiu reconstituir uma estrutura econômica sólida. O desemprego está em 10,8%, bem acima da média nacional de 4,7%. Já pouco povoada (2,2 milhões de habitantes), ela vem se esvaziando: entre 2010 e 2014, ela perdeu 100 mil habitantes, a maior parte por causa da baixa taxa de natalidade.

 "O único verdadeiro partido de oposição"

Em Magdeburg, a capital do Estado, a urbanização é muito precária. As inúmeras fileiras de Plattenbauen, os conjuntos habitacionais construídos em série típicos da Alemanha Oriental, não bastam para apagar os vestígios de bombardeios da Segunda Guerra Mundial. Buracos gigantescos ainda marcam o cenário urbano, e há muitas construções abandonadas.

O posto de votação 0304 foi instalado no colégio Werner von Siemens, todo reformado, situado em Alte Neustadt, um bairro de classe média baixa. Na conversa na saída das urnas, é difícil escapar do principal tema de preocupação: os refugiados.

Kristin, de 40 e poucos anos, está furiosa com Angela Merkel. "Ela faz muito pouco. Ela não diz nada, não explica nada! Ela não reconhece que as coisas estão difíceis e que isso vai durar por muito tempo". A ideia de que ela possa ser chamada de racista por fazer esse questionamento a deixa fora de si.

Otto votou em quem sempre costuma votar. Mas ele diz ter as mesmas preocupações daqueles que estão votando na AfD para protestar contra a política de acolhimento da chanceler. "Em um dado momento, o barco lota! A população não está satisfeita. Todo mundo está pensando nos custos enormes que teremos de cobrir com nossos impostos. O problema dos partidos dominantes, inclusive o Die Linke, é que eles demonizaram a AfD e quase o compararam a nazistas. Isso irrita profundamente as pessoas. Certamente há nazistas entre eles, mas não a grande maioria", ele diz.

Nenhuma declaração racista saiu dos discursos desses eleitores, mas sim a nítida impressão de que eles não são ouvidos pelos partidos dominantes sobre seu principal tema de preocupação. "A AfD é neste momento o único verdadeiro partido de oposição", acredita Dagmar. "Todos seguem a mesma linha de Merkel!" 

Em outubro de 2015, Lutz Trümper, prefeito de Magdeburg desde 2001, deixou o SPD devido a um conflito a respeito dos refugiados, um episódio que chocou a cidade. "Ele não queria ser proibido de falar! Nós também não!", diz Dagmar. No domingo, os partidos de esquerda registraram um revés amargo. O SPD perdeu 10,9 pontos em relação a 2011, caindo para 10,6%. E o Die Linke, que tem bastante força na região, recuou 7,4 pontos, ficando com 16,3% dos votos. E, mais significativo de tudo, a participação dos eleitores tem aumentado nitidamente, com mais de 61%.

Na sala alugada pela AfD para comemorar sua vitória, longe do centro da cidade, quase metade da assembleia era composta por jornalistas. Toda a grande mídia estava lá. "Os militantes virão ao longo da noite", afirmou Jens, de 33 anos, que elegante em seu paletó e sua camisa impecável, veio da Saxônia, o Estado vizinho, em reforço.

Na verdade, poucos membros ou simpatizantes do partido virão celebrar a vitória histórica do partido em Magdeburg ao longo da noite. Muitos deles estão festejando sua eleição no Parlamento do Estado, como principal força de oposição.

Tradutor: UOL

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