Paradoxal, Tsipras atrai os dirigentes social-democratas europeus

Adéa Guillot

  • Ian Langsdon/AP

    O premiê grego, Alexis Tsipras, participa de encontra com líderes social-democratas da União Europeia no Palácio do Eliseu, em Paris

    O premiê grego, Alexis Tsipras, participa de encontra com líderes social-democratas da União Europeia no Palácio do Eliseu, em Paris

Convertido ao pragmatismo, o primeiro-ministro grego é cortejado pela esquerda reformista

O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, esteve presente no grande encontro de dirigentes socialistas organizado por François Hollande no último sábado (12), em Paris. Bem distante de sua família política natural, uma vez que seu partido de esquerda radical, Syriza, pertence, no Parlamento europeu, ao Partido da Esquerda Europeia (PGE) e não à Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas (SD). Mais de um ano após chegar ao poder, estaria Tsipras se tornando o próximo grande líder grego social-democrata?

"Hoje existe uma coincidência de interesses em nível europeu entre a social-democracia e Alexis Tsipras, sobretudo para tentar frear a condição de austeridade imposta há mais de cinco anos pela Alemanha", explica o analista político Elias Nikolakopoulos.

"O primeiro-ministro grego entendeu, após as árduas negociações de 2015 com os credores do país, que ele precisava de aliados. E os social-democratas europeus precisam de uma garantia da esquerda, uma vez que o cursor deles se deslocou para a direita."

Essa reaproximação tática se acentuou ao longo da primeira metade de 2015, quando Alexis Tsipras ainda tentava acabar com a austeridade como ele havia prometido aos gregos antes de sua eleição no dia 25 de janeiro. "Por diversas vezes fizemos a ponte entre os ministérios da França, da Itália e da Grécia", ressalta uma fonte europeia próxima do grupo SD no Parlamento.

O ponto de virada foi no dia 8 de julho de 2015, quando Alexis Tsipras se dirigiu solenemente em assembleia plenária ao Parlamento Europeu. Na época a tendência para o "Grexit" (saída da Grécia da UE) estava em seu auge, somente três dias após o referendo de 5 de julho, no qual os gregos em uma esmagadora maioria reiteraram sua rejeição à austeridade.

Enquanto os liberais e os conservadores, majoritários no Parlamento, acusavam Alexis Tsipras de mentir para seu povo, de resistir às reformas ou de não gostar da União Europeia, Gianni Pitella, presidente da SD, assumiu o microfone e, em um discurso bem breve, declarou que seu grupo não aceitaria nunca um "Grexit": "A Europa sem a Grécia não é a Europa", ele afirmou.

Quando a Grécia voltou a ser alvo de pesadas críticas europeias, dessa vez por sua gestão da crise migratória, Gianni Pittella foi até Atenas no dia 26 de fevereiro.

"A Grécia estava isolada, a ideia era mostrar nosso apoio", explica uma fonte europeia. Pittella, no entanto, ressalta que nos últimos dias "a entrada do Syriza na família dos social-democratas europeus por enquanto não está sendo considerada."

Polarização

É verdade que Tsipras, por sua vez, tem buscado tecer ligações com "todas as forças progressistas europeias", como ele declarou no sábado em Paris, mas afirma não querer deixar sua família política. Além disso, ele repetiu várias vezes, antes de seu encontro com os dirigentes socialistas, que ele estava lá simplesmente como observador.

Ele tomou um cuidado especial de assistir, na véspera da reunião no Palácio do Eliseu, a uma palestra sobre o tema "A Europa precisa mudar", com Pierre Laurent, presidente do PCF (Partido Comunista Francês), e aproveitou para criticar a lei El Khomri sobre o trabalho.

"Tais medidas foram impostas à Grécia, e fomos obrigados a voltar para uma Idade Média em termos de legislação trabalhista", ele declarou.

E ainda que ele quisesse, poderia Alexis Tsipras impor uma transformação social-democrata ao Syriza, sendo que sua maioria é frágil? "Ele gostaria, durante o próximo congresso esperado para o final da primavera, iniciar uma ampliação para os veteranos do Pasok, o partido socialista grego, mas ele caminha devagar nessa direção para preservar a coesão do partido", afirma Nikolalopoulos.

A ala esquerda do partido se cindiu no verão de 2015, quando o governo por fim aceitou, no dia 13 de julho, três novos anos de austeridade em troca de 86 bilhões de euros (R$ 365 bilhões) em empréstimos. Em seguida ele venceu as eleições com essa política de conciliação que o reaproxima dos social-democratas.

"Ainda que ele consiga fazer com que seu partido aceite uma transição social-democrata, Tsipras depois teria dificuldades para unir as forças centristas do país", relativiza o analista político Georges Sefertzis, "pois há uma polarização da vida política na Grécia tão grande que uma união continua sendo difícil."

Ampliar sua base eleitoral sem voltar atrás no que disse, criar a união nacional em uma Grécia polarizada, conquistar aliados na Europa ao mesmo tempo em que se continua sendo o principal porta-voz do campo antiausteridade e aplicando, em casa, uma política econômica liberal: o paradoxo decididamente se tornou a marca registrada de Alexis Tsipras.

Tradutor: UOL

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