Refugiados sírios tentam sobreviver na Turquia

Marie Jégo

  • Lefteris Pitarakis/AP

    Crianças brincam em campo de refugiados na cidade turca de Kilis

    Crianças brincam em campo de refugiados na cidade turca de Kilis

Os recém-chegados enfrentam o desemprego e os filhos fora da escola, apesar dos esforços recentes de Ancara

Morando há três anos no bairro popular e conservador de Fatih em Istambul, Mahmut Cuma Maruf, um sírio de origem turcomena (povo turcófono que se dispersou pelo Oriente Médio), vindo de Damasco, acabou se acostumando com sua vida de refugiado.

"Não me queixo. Minha única preocupação é o aluguel, dói quando a data de pagamento se aproxima", diz esse pai de família de 51 anos.

Seus dois filhos mais velhos trabalham "para garantir os custos" (cerca de R$ 1.270 mensais) do pequeno imóvel de dois quartos, modesto e limpo, que é ocupado pela família. Quanto ao resto, três refeições por dia são entregues em casa por uma entidade de caridade.

Mahmut sofre por estar inativo: "Aqui, conseguir um emprego depois dos 40 anos é uma façanha." Ele bem que tentou encontrar um trabalho, mas os empregadores que ele procurou lhe observaram que ele estava na idade de "passar o dia no boteco bebendo chá e jogando cartas."

A decisão recente de conceder permissões de trabalho para os refugiados sírios foi vista como um "alívio" por toda a família. Seus filhos, empacotadores, agora podem receber o mesmo salário que seus colegas turcos e ter direito a um seguro de saúde.

Adiada por muito tempo pelo governo, a concessão de autorizações de trabalho faz parte das medidas adotadas por Ancara após o acordo assinado em novembro de 2015 com Bruxelas para conter a onda migratória rumo à Europa. Até então, uma pequena minoria de sírios (6.800) dispunha da preciosa autorização, reservada aos raros detentores de um passaporte.

Autorização de trabalho

Um decreto publicado no dia 15 de janeiro no diário oficial turco mudou as coisas. Agora os indivíduos "colocados sob proteção temporária", segundo a denominação oficial utilizada para os refugiados, poderão receber uma autorização de trabalho de seis meses, renovável, contanto que tenham sido registrados pelos serviços de imigração.

A Turquia hoje abriga 2,7 milhões de sírios que foram expulsos pela guerra. Somente 280 mil estão abrigados em acampamentos, muito bem mantidos segundo os trabalhadores humanitários, instalados ao longo da fronteira. Os 90% restantes vivem nas grandes cidades do país, sobrevivendo entregues à própria sorte, condenados a bicos mal pagos, moradias vetustas e dificuldade de acesso à saúde.

"A maioria dos refugiados sírios não fala turco, o que limita seu acesso ao mercado de trabalho", explica Eymen Sabanlioglu, que dirige a associação humanitária Sham em Fatih.

A Sham alimenta centenas de famílias, cuida de órfãos, fornece tratamento de saúde, inclusive mental, aos refugiados, e administra várias escolas; uma em Esenyurt, em Istambul, outra em Antakya no sul do país, e cinco na Síria no bairro de Ghouta, em Damasco.

A educação é a palavra-chave desse teólogo do islamismo sunita, que chegou de Damasco há quatro anos. "A população síria refugiada é jovem, entre elas há 650 mil crianças e adolescentes em idade de estudo. Só que somente 400 mil frequentam a escola; 250 mil vivem fora do sistema escolar, algumas delas não sabem nem ler, nem escrever", ele lamenta.

Sua associação fornece aulas de religião que vacinam os jovens "contra as ideias do Estado Islâmico e da Frente Al-Nusra que é a Al-Qaeda na Síria, esses impostores."

Dos 300 mil sírios que trabalham clandestinamente, segundo um relatório de novembro de 2015 da Confederação Turca das Associações de Empregadores (Tisk), muitos são crianças.

Esse estudo, realizado por uma equipe de pesquisadores sob direção do professor Murat Erdogan da Universidade Hacettepe em Ancara, explica que "muitas famílias sírias, de origem rural em sua maioria, hesitam em enviar suas filhas para a escola depois dos 12 ou 13 anos. No caso dos rapazes, seu nível de escolarização é baixo porque muitas vezes eles trabalham."

Ciente do problema, o ministério turco da Educação está aperfeiçoando, juntamente com algumas associações, uma formação para esses excluídos do ensino. "As salas de aula servirão para os alunos turcos de manhã e para os sírios à tarde. O ministério se compromete a remunerar os professores, e a ênfase será colocada no ensino da língua turca", comemora o teólogo.

O acesso à escola pública será ainda maior para as crianças sírias porque o ensino será adaptado às suas necessidades e, mais importante ainda, gratuito. A comunidade síria atualmente conta com 35 escolas em Istambul. As aulas são dadas em árabe, pela quantia mensal de 100 liras turcas (R$ 130), caro demais para uma família numerosa.

Uma jornada incerta

Outro problema são as pessoas que relutam em enviar seus filhos à escola turca porque acham que voltarão em breve ao seu país. Mas à medida que o tempo vai passando, todos entendem que a normalização da Síria não virá tão cedo. O governo turco sabe disso. Desde que foi assinado o plano de ação com a União Europeia, Ancara tem feito o máximo para cuidar dos sírios que são chamados a ficar.

A jornada dos refugiados pela Europa não convence Eymen Sabanlioglu. A respeito do plano de ação, ele pensa que "a situação dos refugiados lá não é muito invejável, a ponto de alguns quererem voltar. Por que eles estariam melhor lá? A situação não é melhor do que na Turquia, pelo contrário, a adaptação lá é mais difícil, a cultura é diferente, o não domínio das línguas é um impeditivo também. Mas aqueles que querem voltar não podem, pois a Turquia agora exige vistos para os sírios que transitaram por um terceiro país."

Por nada no mundo Mahmut gostaria de ir à Europa. Ele não tem palavras duras o suficiente para falar sobre os coiotes, que em sua opinião são culpados por iludir os candidatos, passando-lhes a imagem de um Velho Continente "como um paraíso onde tudo é dado."

Tradutor: UOL

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