Na Eslováquia, a esquerda irá governar com um partido de extrema-direita

Blaise Gauquelin

Depois de terem se recusado a se associar à direita contra o primeiro-ministro Robert Fico, os nacionalistas recebem as pastas da Educação e da Defesa

A extrema-direita eslovaca está em vantagem. No entanto, ela havia chegado somente em terceiro nas legislativas de 5 de março, bem atrás da esquerda SMER-SD do primeiro-ministro populista atual, Robert Fico, e bem atrás do partido liberal do deputado europeu Richard Sulik. Mas com 9% dos votos, é o SNS (Partido Nacional Eslovaco) que decidirá o tom dos novos gabinetes ministeriais.

Ao recusar uma coalizão "anti-Fico" de partidos da direita, ele autorizou a volta deste último, no poder desde 2012, apesar da perda de sua maioria absoluta e de 34 de seus deputados, Após uma campanha contra os refugiados, Fico poderá governar uma terceira vez, sendo que ele já esteve à frente do governo entre 2006 e 2010, mas será com uma pistola nacionalista apontada para a cabeça. E em um assento ejetável, pois sua maioria continuará sendo muito frágil.

Campanha sem deslizes

A Europa deverá contar com mais um país de governo instável que decididamente lhe é hostil, e isso no cerne de suas instituições: a partir de 1º de julho, essa nova aliança danubiana "vermelho-marrom" será levada a assumir a presidência rotativa da União Europeia por seis meses. Robert Fico não pareceu temer a fúria de seus parceiros europeus e conseguiu se entender muito rapidamente com o partido de extrema-direita para dividir o poder.

Entre 2006 e 2010, Robert Fico já havia quebrado um tabu ao se associar com a extrema-direita, mas na época sua audácia lhe valeu uma humilhante expulsão do Partido Socialista Europeu. O novo presidente do SNS, Andrej Danko, é um advogado do establishment, com uma rede de influência respeitada. Ele tomou o cuidado de conduzir sua campanha sem deslizes.

Ele pode se vangloriar sobretudo de não ser herdeiro político de um antecessor incômodo, Jan Slota, que vilipendiava ciganos e húngaros com o mesmo vigor. Ao invocar um patriotismo puro, esse homem de pouco mais de 40 anos e ternos impecáveis recuperou um partido em farrapos, e enxugou sua dívida, estimada em 600 mil euros (R$ 2,43 milhões). Ele se apresenta como um homem novo, e tenta acabar com a demonização um partido cujo legado é difícil de carregar.

No poder por três vezes desde a independência, em 1993, o SNS chamou a atenção pelos motivos errados. O analista político Tomas Nociar lembra que "nos anos 1990 e 2000, ele tinha a simpatia de parte dos neonazistas."

A passividade dos outros membros da coalizão espanta. Apesar da deserção exagerada de alguns deputados, o partido centrista Most-Hid ("a ponte"), que tradicionalmente defende a minoria húngara, bem como o moderado Siet ("a rede"), aceitaram sem relutar a mão estendida. Os dois parceiros mais novos da coalizão se encarregarão da Justiça e do Meio Ambiente.

Os aliados de Fico ficarão encarregados da Economia e das Finanças, provedores dos programas sociais. Já Andrej Danko terá o controle de dois setores-chave: a Educação e a Defesa. Então ele não deverá colocar em prática seu projeto de nacionalização das empresas, nem prejudicar as relações estáveis do Estado com os muitos investidores estrangeiros do esmagador setor automobilístico (44% da riqueza produzida). Mas ele poderá provocar atritos diplomáticos para o novo governo.

Avanço dos neofascistas

Em uma entrevista concedida ao "Le Monde" antes das eleições, ele protestava contra a presença de Exércitos estrangeiros na Eslováquia, que, no entanto, é um país membro da Otan desde 2004. Sobre a questão dos refugiados, ele criticava a chanceler alemã, Angela Merkel, que às vezes se tomava por "presidente da UE". E os Estados Unidos não têm sua estima: "Que eles finalmente deixem de encorajar o multiculturalismo na Europa!", ele disse.

A operação de Danko para reverter a demonização é reforçada pelo avanço dos neofascistas do partido Nossa Eslováquia, de Marian Kotleba, que cultua Jozef Tiso, o padre católico que governou o Estado eslovaco clerical fascista entre 1939 e 1945 com a bênção de Hitler. A Eslováquia agora apresenta a particularidade de ter dois partidos de extrema-direita no Parlamento.

Tradutor: UOL

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