Disputa de soluções pode atrasar expansão do bitcoin

Yves Eudes

  • Jim Urquhart/Reuters

Dois campos se enfrentam quanto às soluções a serem aplicadas para expandir a moeda virtual

Vítima de seu sucesso, o bitcoin tem enfrentado uma crise de crescimento, que vem acompanhada de uma crise de governança. Para os profissionais e os militantes da moeda anônima, o aumento contínuo da massa monetária e do número de transações é na verdade uma boa notícia, prova de que a criptomoeda vem se estabelecendo no cenário financeiro mundial. Em março de 2016, os 15,5 milhões de bitcoins em circulação valiam mais de US$ 6 bilhões (R$ 21,9 milhões).

No entanto, em sua configuração atual, a rede do bitcoin em breve ficará saturada, o que pode acabar provocando engarrafamentos e uma piora no serviço.

Para todos os atores, a solução é evidente: é preciso introduzir inovações técnicas que permitam que a rede absorva mais tráfego. Mas como resolver isso? Há divergências quanto ao método a ser adotado. Há alguns meses tem se observado o surgimento de dois campos opostos, que se enfrentam abertamente.

Os partidários de uma solução rápida e fácil querem aumentar o tamanho dos "blocos", que são os arquivos que contêm as transações e se juntam à "blockchain" (cadeia de blocos), o diretório único de todas as transações. Hoje, o tamanho máximo de um bloco é de 1 megabyte, o que pode representar até 3.000 transações. Em teoria, bastaria passar o tamanho dos blocos para 2 MB, para resolver o problema, pelo menos temporariamente.

Recentemente, os partidários desse "método fácil" criaram um grupo informal, batizado de Bitcoin Classic. Ele reúne, entre outros, os primeiros desenvolvedores do bitcoin e cerca de 30 sociedades comerciais: "mineradores", que integram as novas transações à blockchain resolvendo equações matemáticas e ganham bitcoins por cada novo bloco, bem como gestores de carteira, de sites de troca, de fornecedores técnicos.

Importantes questões econômicas

Do outro lado, um outro grupo, composto em grande parte por programadores da equipe original, o Bitcoin Core ("núcleo duro"), preconiza uma abordagem mais gradual e mais "elegante". Segundo eles, em vez de aumentar o tamanho dos blocos, seria mais sábio diminuir o tamanho de cada transação.

Os Core não são contra o princípio de se aumentar o tamanho dos blocos, mas eles querem primeiro efetuar os testes necessários para terem certeza de que essa modificação não provocará distúrbios imprevistos. Eles temem, sobretudo, que ela afete a fluidez do tráfego: nesse caso, os grandes fornecedores que dispõem de conexões de banda larga teriam vantagens sobre seus pequenos concorrentes não tão bem equipados.

Além disso, para aumentar de forma duradoura as capacidades da rede, os Core querem criar "sidechains" ou "cadeias laterais" ligadas à blockchain original, que administrariam as microtransações. Nesse sistema de duas camadas, a blockchain original serviria sobretudo para efetuar as grandes transações e as operações de compensação. Já os Classic preferem manter o sistema da blockchain única. Portanto, a discordância é total.

A briga é dura, pois o debate técnico esconde interesses econômicos.

Eric Larchevêque, diretor da empresa de segurança Ledger e responsável pela Maison du Bitcoin em Paris, partidária dos Core, resume sua visão das coisas: "A razão de ser do bitcoin é fornecer um sistema monetário igualitário e descentralizado, peer-to-peer, o que o torna muito resistente aos ataques e às tentativas de censura por governos autoritários, como a Rússia, neste momento. Os Core se mantiveram fiéis a esse ideal original, o dos ativistas do software livre e dos criptoanarquistas."

Em compensação, segundo ele, os Classic têm outras prioridades: "Existem entre eles empresários que querem transformar o bitcoin em um sistema de pagamento banalizado e centralizado, como se quisessem competir com o Visa."

Já os partidários do Classic afirmam que sua solução vai preservar a livre-concorrência. Um dos primeiros desenvolvedores do bitcoin, Gavin Andresen, explica em seu blog que se deixarem a rede chegar ao ponto de saturação, isso provocará um movimento de concentração: "Veremos surgir acordos muito centralizados entre as casas de câmbio, os mineradores e os vendedores, ou mesmo uma fusão dos mineradores e dos criadores de transações."

Resolver o impasse

Da mesma forma, Brian Armstrong, presidente da empresa de gestão de carteiras Coinbase, que conta com uma centena de funcionários, acusa os Core de serem puristas fora da realidade: "Eles querem soluções 'perfeitas' em vez de soluções 'corretas'. E se não há solução perfeita, eles querem a inação, ainda que isso coloque o bitcoin em risco."

Além disso, segundo ele, a solução que consiste em reduzir o tamanho das transações é muito complexa, e sua aplicação demoraria demais para conseguir impedir a saturação da rede. Muito ofensivo, ele chega a considerar a criação de uma nova equipe de programadores para substituir os Core.

Apesar de várias reuniões de conciliação, os Classic e os Core não conseguiram entrar em um acordo. Eric Larchevêque constata que a comunidade do bitcoin é desprovida de mecanismos eficazes de decisão: "Não temos um sistema de voto majoritário nem processo de resolução de conflitos. A regra do consenso informal é paralisante."

Para resolver o impasse, cada lado decidiu agir de maneira unilateral. Em fevereiro, os Classic publicaram um software que aumenta o tamanho dos blocos para 2 MB. Se ele for adotado por 75% dos participantes, na prática ele será o novo padrão, e a rede mudará drasticamente.

Já os Core publicarão em abril seu próprio programa, que reduzirá o tamanho de cada transação. Além disso, alguns membros do Core trabalham para a empresa canadense Blockstream, líder na tecnologia da sidechain. A Blockstream acaba de conseguir um financiamento de US$ 55 milhões (R$ 201 milhões), que permitiu a entrada do grupo francês Axa em seu capital.

Diante desse conflito inédito, Eric Larchevêque se mostra preocupado: "Talvez um dos dois lados vença rapidamente, mas também é possível imaginar um cenário onde cada sistema será adotado por 50% dos atores. Seria o caos, a quebra da rede em dois subconjuntos, com consequências incontroláveis."

Tradutor: UOL

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