Um discreto abrigo para sem-teto no elegante 8º distrito de Paris

Isabelle Rey Lefebvre

  • Facebook/Reprodução

    Atividade no L´Archipel com moradores de rua, em Paris

    Atividade no L´Archipel com moradores de rua, em Paris

As injúrias lançadas por moradores do elegante 16º distrito chocaram por sua violência, na reunião de discussão sobre a instalação de um abrigo para sem-teto por parte da prefeitura de Paris, à beira do Bois de Boulogne. Esses manifestantes diziam temer "uma nova Sangatte", "furtos", "estupros", montes irregulares de lixo ou, pior ainda, a desvalorização de seus apartamentos.

No entanto, existem 80 estruturas desse tipo, distribuídas por quase todos os distritos de Paris (os 2º, 6º e 16º não possuem nenhum), totalizando 9.250 vagas, sem que os moradores sequer as percebam.

Na fila de espera da padaria da rua de Saint-Pétersbourg, no bairro Europe, que é burguês sem ser luxuoso, uma cliente que entrevistamos disse com espanto: "Ah, é? Existe um projeto para abrir um centro para moradores de rua nesta rua?"

Ela não sabia, assim como os garçons do café vizinho, que o L'Archipel foi inaugurado em 2013 e abriga 213 pessoas, de cerca de vinte nacionalidades, sobretudo mulheres, e aproximadamente 60 crianças que foram tiradas das ruas ou de hotéis e colocadas ali por assistentes sociais.

As refeições são feitas na antiga cantina do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) e dormitórios foram adaptados naquilo que antes eram escritórios.

Mariam, uma ítalo-marroquina de 19 anos, foi alojada na "Diretoria Internacional", de acordo com a plaquinha que permaneceu na porta de seu quarto, seus vizinhos na "Diretoria de Comunicação" e a administradora no "Departamento de Patentes". Já os desenhos das crianças tomaram conta dos painéis de avisos dos sindicatos...

Instalações vazias

"Nós fizemos uma proposta de instalar provisoriamente um abrigo de emergência em vez de deixar essas preciosas instalações vazias e vigiadas por cães de guarda por 800 euros ao dia", explica François Morillon, diretor de Emergências da associação Aurore. "Então só fizemos um mínimo de obras."

O excepcional conjunto imobiliário, que reúne escritórios dos anos 1930 e o antigo convento das Oblatas logo ao lado da igreja Saint-André-de-l'Europe, na verdade está futuramente destinado a moradias sociais. Foi a mesma associação Aurore, já responsável por mais de 2 mil vagas de abrigos na França, a escolhida para o futuro centro do 16º distrito.

"Talvez não fôssemos desejados, mas tampouco fomos mal-recebidos", conta Morillon. Ainda assim ele se lembra de uma visita do prefeito do 8º distrito, na época François Lebel, que os havia chamado de "invasores".

"Sinceramente, a abertura desse centro no Inpi não mudou nada na vida do bairro," reconhece Christophe, um local que preferiu não dar seu sobrenome. "A obra do RER E Eole [estação de trem] incomoda bem mais".

Philippe Macret, técnico em informática e membro do conselho de bairro, confirma: "Não recebi nenhuma queixa, nenhuma manifestação ou petição de nenhum tipo. De fato no começo algumas pessoas viram com maus olhos a chegada 'dessas famílias carentes' que iam 'dar uma má imagem para o bairro', mas eram uma minoria".

Outros que ficaram decepcionados foram pais de alunos que sonhavam em ver sua escola se expandir para essas belas instalações: "Ficamos surpresos que nosso projeto de uma escola novinha em folha não tenha sido aprovado", lembra Emmanuel Garot, presidente da associação de pais das escolas Florence e Moscou, "mas não há nenhuma hostilidade em relação aos residentes e a administradora. Foi mais uma certa indiferença que se instalou, e a associação Aurore parece preferir se manter distante."

Contudo, no térreo do antigo Inpi sobram ofertas de atividades abertas para os moradores do bairro, embora sejam poucos os que as frequentam: oficina de costura, feira de trocas, ioga, apoio escolar dado por voluntários etc.

Na quinta-feira passada (17), uma brinquedoteca foi instalada e fez a alegria dos residentes: pequenos grupos de crianças abrigadas ali, algumas delas alunas do bairro, brincavam ruidosamente de Uno, de Puissance 4 ou de Mikado, enquanto alguns meninos monopolizavam os joguinhos eletrônicos, que as meninas arrancavam deles com muita dificuldade. O auge da vida em família.

 

Tradutor: UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos