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Ataques em Bruxelas deixam o defensor de Salah Abdeslam sem respostas

Élise Vincent

  • Antony Gevaert/Belga/AFP

    Sven Mary, advogado de Salah Abdeslam

    Sven Mary, advogado de Salah Abdeslam

Ele nos recebe apressado, atormentado. Sven Mary estava aturdido na quarta-feira, 23, um dia após o duplo atentado que cobriu Bruxelas de sangue. O advogado de Salah Abdeslam não está mais defendendo somente um dos responsáveis pelos atentados de Paris e de Saint-Denis, cometidos no dia 13 de novembro de 2015. Agora ele também aconselha um homem suspeito de estar a par dos planos terroristas dos autores dos ataques de 22 de março, e de tê-los deixado acontecer. Em seu espaçoso escritório com janela saliente, o cinza do céu ilumina suavemente contra a luz suas pilhas de arquivos espalhados. Na parede, fotos suas em preto e branco retratam lembranças de seus momentos de glória. Ao tragar seus Marlboros vermelhos na manhã, Sven Mary parece estar mais do que nunca tentando espantar seus pensamentos sombrios. Desde a véspera, na agradável mansão onde está instalado seu escritório, ele vem trabalhando trancado a chave. Por medida de segurança, seus colaboradores estão tendo de filtrar quem entra, uma ideia que não foi sua, mas sim recomendação das autoridades belgas. Como não temer gestos desesperados, quando se defende com veemência um jihadista odiado pelas famílias das 130 vítimas dos atentados de Paris, e cuja sombra paira sobre os 31 mortos nos ataques de Bruxelas? Foi pelo SMS de um colaborador que Mary diz ter descoberto sobre a tragédia ocorrida no dia 22 de março: “Explosão em Zaventem!”. Ele tinha somente um telefone velho, um desses Nokias com teclas de plástico usado pelos que defendem pequenos traficantes ou grandes mafiosos. Sem internet ou 3G, o advogado só foi ver imagens dos atentados na segunda metade do dia. Depois de entender o que havia acontecido, ele mergulhou no trabalho até 2 horas da manhã. Depois voltou para sua casa, em Anvers, sem ver uma única alma viva na estrada, algo que poderia ter entendido como a consequência lógica dos acontecimentos do dia, mas que ele interpretou como algo simbólico: “Era o sinal de que eu estava realmente sozinho!” De rosto fechado, calça e paletó escuros sobre uma camisa clara, Mary tem ciência de sua delicada posição nesse dia pós-atentado. Mas ele reafirma com sua voz calma, marcada por um ligeiro sotaque holandês, sua repulsa pela violência que tomou conta da cidade. “Bruxelas foi atingida em seu coração”, ele diz comovido. Seria a confissão fingida de um oportunista ou um sentimento real? O criminalista tem acima de tudo uma grande dúvida: será que Salah sabia? Início espalhafatoso Na véspera dos atentados, na noite de 21 de março, Mary tinha ido visitar o jovem jihadista de 26 anos em sua prisão em Bruges, uma dessas primeiras visitas onde em geral advogado e cliente quebram o gelo, avaliam a relação de forças e de confiança e baixam a guarda. Só que o criminalista se lembra muito bem de ter mencionado o nome de El Bakraui com Salah Abdeslam, um patronímico sobre o qual a juíza e os policiais já o haviam questionado, um dia após sua detenção. Mas nenhum deles insistiu, pensando provavelmente que agora o tempo estaria a favor deles. El Bakraui? Não, não o conheço, respondeu simplesmente Salah Abdeslam a seu advogado, como ele fez sem piscar durante os dois interrogatórios de 19 de março.

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