Contra reforma trabalhista, movimento vira dia e noite em praça de Paris

Raphaëlle Besse Desmoulières

  • Thomas Samson/AFP

    Simpatizantes do movimento "Nuit Debout" fazem vigília na praça da República, em Paris; cartaz diz: "crise de um sistema mortífero"

    Simpatizantes do movimento "Nuit Debout" fazem vigília na praça da República, em Paris; cartaz diz: "crise de um sistema mortífero"

Praça da República. São 21h de uma terça-feira, 5 de abril —ou, perdão, "terça 36 de março", como se diz aqui. A noite começou a envolver a pequena multidão do Nuit Debout [noite em claro ou noite em pé, em tradução livre]. A assembleia geral, que teve início três horas antes, ainda acontece. François Ruffin, o diretor de "Merci patron!", o documentário que deu origem ao movimento, deverá falar no âmbito de um debate mas já está aguardando há algum tempo.

O editor-chefe do jornal "Fakir" por fim pega no microfone. Assim como em seu documentário, ele veste uma camiseta escrito "I love Bernard" (Arnault) com uma grande foto do CEO da LVMH. Ele fala somente por alguns minutos, tempo de explicar que o intuito de seu filme é "construir uma linguagem que permita sair da bolha e encontrar outras classes sociais".

"Agora todo o desafio, aqui também, é sair da bolha", ele insiste. Quase ninguém o ouve. Os participantes da assembleia geral querem continuar suas discussões. A maioria ignora que é em grande parte graças àquela pessoa à frente deles que eles estão ocupando a praça da República.

Falar sobre o movimento Nuit Debout é também relatar o sucesso de "Merci, patron!". "Esse filme é um oásis de alegria no deserto de morosidade da esquerda", resume seu diretor, que se define como um "companheiro de estrada da Frente de Esquerda". O documentário logo foi além do tradicional público militante, e o filósofo e economista crítico Frédéric Lordon incentivou a equipe do "Fakir" a aproveitar essa repentina popularidade.

Jovens e não tão jovens

François Ruffin e seus amigos organizaram, para o dia 23 de fevereiro, uma noite na central sindical de Paris. A palavra de ordem era: "Colocar medo neles", no caso, "a oligarquia". A sala lotou. Em preâmbulo, o diretor do "Fakir fez um pequeno discurso.

"Uma das mensagens do filme é que se não houver uma junção entre a pequena burguesia que eu encarno e as classes populares encarnadas pelos Klur no filme, não conseguiremos perturbar Bernard Arnault", explica François Ruffin.

O público decidiu trabalhar na "convergência das lutas" que viria a ser o nome do comitê de organização do Nuit Debout. O contexto era considerado favorável com a mobilização contra a lei El Khomri [de reforma trabalhista], e eles decidiram não voltar para casa após a manifestação de 31 de março, ocupando uma praça. Por razões práticas, foi a praça da República.

Após os debates, cerca de 15 pessoas foram parar no bar ao lado. Jovens e não tão jovens, muitos deles com um engajamento e que aceitam ou não aparecer publicamente.

Charles Platiau/Reuters
Nem chuva impede a vigília

Entre eles estavam Johanna, funcionária do "Fakir"; Loic, um membro intermitente da companhia Jolie Môme; Leila Chaibi, militante da Jeudi Noire e membro do Partido de Esquerda (PG); Karine Monségu, sindicalista da Air France, também do PG; Camille, do coletivo cidadão Les Engraineurs; ou ainda Arthur, estudante da Faculdade de Ciências Políticas. Eles haviam se empenhado em organizar a primeira noite, em 31 de março, mas se recusavam a estabelecer uma plataforma reivindicativa. 

De qualquer forma algumas linhas foram redigidas para condenar "'reformas' cada vez mais retrógradas", uma "negação democrática" e fazer um apelo para construir um "projeto político ambicioso, progressista e emancipador". Foi lançada uma "vaquinha" na internet, pela qual 3 mil euros foram arrecadados.

Presente no dia 23 de fevereiro na central sindical, mas em uma reunião contra o estado de emergência, Jean-Baptiste Eyraud, porta-voz do Direito à Moradia (DAL), se convidou para o encontro do "Fakir". A associação ofereceu sua ajuda em questões jurídicas. A Attac e a união sindical Solidaires também participaram. Com a aproximação do dia D, o pessimismo foi tomando conta. A previsão do tempo era de chuva.

"Eu achava que ia dar tudo errado", lembra Ruffin. "Ser de esquerda é estar acostumado com a derrota." Os manifestantes mostraram que ele estava errado e lotaram a praça da República. Estava lançado o Nuit Debout.

Desde quinta-feira (31), ela continua a ocupar o local.

"Há uma necessidade muito forte de se expressar", observa Karine Monségu, da Air France. "Se nosso objetivo não estivesse atendendo a uma necessidade, teríamos fracassado." 

Todos reconhecem: virou um elefante branco. "Ficou maior do que nós", comemora Arthur, o estudante da Faculdade de Ciências Políticas.

Depois do dia 23 de fevereiro, Ruffin se manteve mais ou menos recuado. Assim como Frédéric Lordon, que de qualquer forma discursou no dia 31 de março, antes de voltar a dar as caras no domingo. Procurado pelo "Le Monde", este último não quis se manifestar.

"Não tenho nenhuma vontade de parecer aquilo que não sou: o líder de um movimento que não tem líder", ele explica por e-mail. Na praça da República, cada um fala por si.

O paralelo com os "Indignados" espanhóis e o Podemos logo foi feito, ainda mais porque os participantes do Nuit Debout adotaram os mesmos códigos.

"A ideia aqui não é um movimento horizontal que acabe se tornando um partido hiper-hierarquizado", critica Camille, do coletivo Les Engraineurs.

O movimento desconfia dos políticos, mas intriga estes últimos, que irrompem na praça mas não ficam. No local, o Partido Socialista não é visto com bons olhos.

"Os socialistas estão mortos, em breve serão enterrados", afirma Karine Monségu. "Hollande, Valls, Macron enojaram todo mundo para sempre".

E 2017? "É justamente porque não esperamos mais nada dessa eleição presidencial que estamos fazendo as coisas nós mesmos", diz Loic, da companhia Jolie Môme.

E qual seria o futuro? Permanecer na praça? Ir embora? Encontrar uma saída política? "É cedo demais para dizer", responde em coro o primeiro grupo.

Todos sabem que estão vivendo um momento crucial. Cidades do interior começaram a se organizar, e a data da próxima manifestação contra a lei El Khomri, no próximo sábado (9), estabelece uma perspectiva.

Já os iniciadores do movimento estão passando o bastão, mas permanecem vigilantes. Tudo continua sendo frágil, e tentativas de infiltração pela extrema direita já aconteceram.

"Pode ser fogo de palha", reconhece Johanna, do "Fakir". "Mas mesmo que fosse o caso, isso prova que há uma tremenda energia disponível". Leila Chabi também se pergunta: "Como não esgotar o movimento e fazê-lo crescer?"

No entanto, uma certeza a jovem tem: "Enfim, estamos erguendo a cabeça!"

Tradutor: UOL

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