Opinião: A revolução do jornalismo colaborativo

Cécile Prieur

  • Arnd Wiegmann/Reuters

"Panama Papers". Assim como em seus ilustres ancestrais, os "Pentagon Papers", essas duas palavras já soam como um divisor de águas no jornalismo investigativo. Em 1971, o "New York Times" publicou documentos secretos do Pentágono sobre a guerra do Vietnã, que demonstravam como os Estados Unidos haviam deliberadamente levado à escalada do conflito.

Quarenta e cinco anos depois, não é mais um único veículo de mídia, mas sim a associação de mais de uma centena deles, ligados pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), que permitiu a divulgação dos "Panama Papers". A análise de milhões de documentos oriundos da firma panamenha Mossack Fonseca, revelando a extensão da evasão e da fraude fiscal, não somente causou comoção internacional, como também confirmou a entrada do jornalismo na globalização e na colaboração transfronteiriça entre redações.

Tudo nos "Panama Papers" é superlativo. O maior vazamento na história do jornalismo (2,6 terabytes de dados, ou seja, mais de 11,5 milhões de documentos reunidos, mil vezes mais que os "telegramas diplomáticos" revelados pelo WikiLeaks em 2010) foi também o furo compartilhado pelo maior número de jornalistas (370 colegas de 109 veículos de mídia, sendo cerca de vinte do "Le Monde"), que trabalharam em segredo durante quase um ano, de junho de 2015 a abril de 2016. Depois do Offshore Leaks em 2013, do ChinaLeaks e do LuxLeaks em 2014, e depois do SwissLeaks em 2015, todos denunciando a evasão fiscal, o ICIJ, sediado em Washington, confirma, com os "Panama Papers", sua força de ataque e sua capacidade de unir repórteres do mundo inteiro.

Em todas as vezes foi o gigantesco volume de dados e seu caráter mundial que justificaram o compartilhamento entre os diferentes jornais. No caso dos "Panama Papers", foram os jornalistas alemães do "Süddeutsche Zeitung", responsável pelo furo, que contataram o ICIJ depois que um denunciante anônimo lhe enviou os dados da Mossack Fonseca. O "Le Monde" havia tomado a mesma iniciativa no caso SwissLeaks, ao entregar um arquivo contendo dados de clientes do banco HSBC a jornais parceiros do consórcio.

Compartilhamento, confiança e confidencialidade

O compartilhamento dessas informações atende a uma necessidade: diante de vazamentos que podem envolver personalidades do mundo inteiro, um único jornal, por mais prestigioso que seja, não é mais suficiente. Mesmo a mais robusta rede de correspondentes não consegue atender ao esforço de investigação necessário para abraçar tal volume de dados. Em compensação, quem melhor do que jornalistas brasileiros, russos, suíços e americanos para pesquisar as informações ou as pistas a respeito dos cidadãos de seus países? E quem melhor que o ICIJ, que se especializou em reportagens de interesse mundial, para fazê-los trabalharem juntos?

Graças às novas tecnologias, a conexão entre jornalistas de todo o mundo, especialistas em suas áreas de investigação, é a garantia de uma exploração mais completa possível dos dados. Dessa forma, cada veículo de mídia pode recorrer ao conhecimento de todos os outros, ampliando assim a eficácia da investigação.

Primeiramente foi preciso recorrer às melhores técnicas de jornalismo de dados para tornar legível o "tesouro" da Mossack Fonseca. Com sua experiência acumulada em vazamentos anteriores, o ICIJ desenvolveu um motor de busca aperfeiçoado e técnicas de visualização de dados para permitir que os repórteres mergulhassem na base e extraíssem as pistas que os interessavam. Uma vez formada e munida das ferramentas adequadas, cada equipe pôde conduzir suas próprias pesquisas, acompanhadas de um trabalho mais tradicional de investigação, uma vez em posse das pistas. Os "Panama Papers" nasceram da aliança, muitas vezes inédita, entre jornalistas especializados em dados, versados nas técnicas de pesquisa de dados, e jornalistas investigativos, especialistas em questões como evasão e fraude fiscal.

O outro elemento-chave do sucesso da operação foi a confiança que conseguiu se estabelecer, vazamento após vazamento, entre os veículos de mídia parceiros da operação. Ao contrário da investigação clássica, que costuma ser solitária, o ICIJ construiu uma rede planetária que vai além da concorrência acirrada entre os veículos de imprensa.

Com os "Panama Papers", o Consórcio Internacional pôde criar uma "sala de imprensa" mundial, em torno de um interesse comum, mais preocupada com o sucesso coletivo do que com conquistas individuais. Foi assim que 370 jornalistas conseguiram guardar segredo durante toda a investigação, sem ficarem tentados a romper o embargo, com o fim estabelecido para o domingo, dia 3, à noite. Disso resultou uma tremenda caixa de ressonância quando o furo foi divulgado, ecoado por uma centena de veículos da mídia internacional.

Compartilhamento, confiança e confidencialidade: foi dessas três condições, associadas a meses de uma incansável investigação, que pôde nascer o sucesso dos "Panama Papers". A operação criou comoção entre a comunidade jornalística internacional, provando os efeitos virtuosos de uma iniciativa não competitiva. Para uma profissão que está sempre se reinventando nesse contato com novas tecnologias, esse "jornalismo de compartilhamento" abre perspectivas inéditas.

Para além dos vazamentos, essa abordagem poderia incentivar outros tipos de trocas e de compartilhamento de dados em nome da informação. Movida pelo big data, a revolução do jornalismo colaborativo provavelmente está só começando.

Panamá Papers: Como o dinheiro se esconde

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Tradutor: UOL

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