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Com Obama, EUA abandonam de vez ambição de mediação no conflito israelo-palestino

Alain Frachon

  • Andrew Harnik/AP

    Benjamin Netanyahu (esq) e Barack Obama se cumprimentam na Casa Branca

    Benjamin Netanyahu (esq) e Barack Obama se cumprimentam na Casa Branca

Passividade, fatalismo ou derrotismo? Os Estados Unidos já não exercem mais nenhuma mediação entre israelenses e palestinos, nem mesmo nas aparências. Há 26 anos que os Estados Unidos diziam cumprir o papel de “honesto intermediário”. Mas já não há mais essa ambição. A presidência de Barack Obama ratificou um movimento que se iniciou nos anos 1990, com a desistência de Washington, na prática. Para cumprir o papel com alguma chance de sucesso, é preciso pressionar os dois lados, algo que a Casa Branca não quer mais fazer. A posição inicial dos Estados Unidos mudou. Eles se recusam a fazer qualquer exigência a Israel. Com o ar triste, “Barack, o fatalista” tem adotado uma postura de impotência e diz a seus aliados israelenses: vocês estão indo na direção de um desastre, mas não vou interferir. Há muito tempo que Washington vem tolerando a política da direita israelense, com a expansão contínua dos assentamentos na Cisjordânia. Não como uma aprovação, mas mais como um consentimento resignado à anexação crescente desse território palestino. No final de março, diante da conferência anual do lobby israelense americano, o American Israel Political Affairs Committee (Aipac), a maior parte dos candidatos à eleição presidencial de novembro aderiu a essa nova linha. Não é preciso “impor” mais nada a Israel. O Aipac se diz um grupo de pressão bipartidário, mas derrapou para a direita, alinhando-se com a retórica da maioria ultranacionalista de Benjamin Netanyahu. Seus componentes mais radicais rejeitam a criação de um Estado palestino ao lado de Israel, tendo como prioridade conduzir uma política ativa de assentamentos na Cisjordânia. Nos Estados Unidos, o Partido Republicano adere a ela de bom grado, uma vez que há 25 anos ele se encontra sob a influência de cristãos fundamentalistas, que tiram da leitura do Gênesis uma de suas convicções: o Messias voltará à Terra quando seus judeus tiverem repovoado a Judeia e a Samaria (denominação bíblica da Cisjordânia, território palestino que Israel vem ocupando desde 1967). Conclusão: viva os assentamentos! A direita cristã republicana americana se tornou um dos componentes do movimento de colonos israelenses. “A pior coisa que já aconteceu a Israel” Diante da conferência anual do Aipac, no final de março, em Washington, os candidatos republicanos seguiram a linha da maioria no poder em Israel, indo além da reafirmação da aliança estratégica e afetiva entre Israel e os Estados Unidos. Nem Ted Cruz, nem Donald Trump criticaram a continuidade dos assentamentos, mas condenaram a “retórica de ódio” ouvida entre os palestinos. Mais pró-Netanyahu do que o próprio “Bibi”, eles juraram que teriam como prioridade, uma vez na Casa Branca, acabar com o acordo sobre o programa nuclear iraniano conseguido pela administração democrata. A plateia ovacionou Donald Trump quando este disse que Barack Obama havia sido “a pior coisa que já aconteceu a Israel”. No dia seguinte, a presidente do Aipac, Lillian Pinkus, pediu desculpas à Casa Branca. Mas sobre a questão palestina, a democrata Hillary Clinton praticamente não se distinguiu de seus concorrentes republicanos, não tendo a paz como prioridade. No máximo ela assinalou que essa paz pressuporia que “cada um fizesse sua parte evitando ações danosas, inclusive aquela que diz respeito aos assentamentos.” A única nota dissonante veio de Bernie Sanders, o único dos candidatos que é judeu. Ele critica a corrupção da política americana por parte dos grupos de pressão que financiam as campanhas eleitorais. Ele não foi à conferência do Aipac, dizendo que sua profunda amizade por Israel o obrigava a condenar radicalmente a política de Netanyahu na Cisjordânia. Seu gesto confirma um distanciamento de parte da comunidade judaica em relação ao Aipac. Representando cerca de 1,5% dos eleitores, os judeus americanos votam nos democratas e, duas vezes seguidas, a maioria deles deram seus votos a Barack Obama. Como primeira-secretária de Estado do presidente, Hillary Clinton não fez nada a respeito do Oriente Médio. Já seu sucessor, John Kerry, lutou, mas em vão. Barack Obama deixará a Casa Branca sem ter avançado nas questões de paz. Ele reforçou a cooperação na Defesa entre Israel e Estados Unidos, mas desistiu diante da continuidade dos assentamentos . No “New York Times” de 10 de abril, a historiadora Lara Friedman aponta para essa realidade: os Estados Unidos têm condenado cada vez menos a colonização da Cisjordânia. Contra sua vontade, os Estados Unidos tomaram partido de uma situação que eles consideram trágica, mas à qual não acreditam conseguir fazer frente, como ousaram Ronald Reagan e George Bush em seus respectivos mandatos. Diante do Aipac, o vice-presidente Joe Biden foi muito franco, dizendo que na Cisjordânia, “a extensão contínua e sistemática dos assentamentos, o confisco de terras”, tudo isso “mina a perspectiva da chamada solução dos dois Estados” defendida por Washington. “Esse é meu ponto de vista”, acrescentou. “Sei que não é o de Bibi”. Seria uma cumplicidade de fato ou uma impotência assumida?

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