Um ano após terremoto no Nepal, ONGs lutam contra o tráfico de mulheres e crianças

Julien Bouissou

  • Prakash Mathema/AFP

    Nepalesa que teve a casa destruída por terremoto cuida de seu bebê na tenda onde mora com o marido, em Ramechhap, no Nepal

    Nepalesa que teve a casa destruída por terremoto cuida de seu bebê na tenda onde mora com o marido, em Ramechhap, no Nepal

Ela deve ter entre 9 e 10 anos, usa batom vermelho nos lábios, uma maquiagem em tons prateados nas pálpebras e um longo vestido de veludo azul bordado com fios de ouro. Srijana acaba de sair de um ônibus, segurando a mão de uma senhora que se apresenta como sua avó ao posto de fronteira de Thankot, na saída de Katmandu.

"Ela é sua avó materna ou paterna? Como ela se chama? E onde estão seus pais? O que você vai fazer em Déli?" Padam Basnet, um funcionário da ONG Maiti Nepal, que combate o tráfico de mulheres e de crianças no Nepal, faz uma pergunta atrás da outra para a menina sem a presença da idosa, em uma pequena cabana de madeira que treme cada vez que passa um caminhão. Em quatro ou cinco minutos no máximo, ele precisa adivinhar se a menina está sendo vítima de tráfico ou não.

Do lado de fora, o ônibus repleto de passageiros espera para poder voltar à estrada rumo a Déli. A menina contorce as mãos e responde com uma voz quase inaudível, como se estivesse recitando uma lição. Enquanto fala, seu olhar foge para uma pequena claraboia. A avó é convocada. Ela apresenta a certidão de nascimento da neta, tão puída que quase não consegue se ler nada, e explica que a mãe está em Déli, casada com um indiano: "Eu cuido dela desde que ela tinha um ano e meio e agora estou velha demais. Preciso levá-la até seus pais".

Padam Basnet as escuta em silêncio, perplexo. Por fim ele decide tirar uma cópia de seus documentos, anotar os números de telefone, seus nomes, seus destinos. Se ele tiver se enganado ao deixá-las partir, pelo menos lhe restará isso: informações rabiscadas em um caderno. Ele pensa com frequência nessas menininhas que talvez ele devesse ter retido, menininhas que talvez ele tenha deixado cair, sem querer, nas mãos de traficantes.

Um ano após o terremoto de 25 de abril de 2015, que matou quase 8.900 pessoas e destruiu mais de 800 mil casas, as ONGs temem um aumento no tráfico de mulheres e de crianças, levadas ao exílio pela pobreza e sobretudo pela lentidão na reconstrução desse país de 30 milhões de habitantes. O Nepal já recebeu US$ 1,1 bilhão (R$ 3,5 bilhões) em doações da comunidade internacional, dos US$ 4,1 bilhões prometidos, e nenhum dólar foi gasto ainda.

Com um milhão de crianças que não voltaram à escola, é grande a tentação para as famílias de confiá-las a agentes que lhes prometem um emprego bem remunerado no exterior, sem ter que pagar nada. A cada ano 12 mil nepalesas são enviadas para a Índia, em sua maior parte vítimas de exploração sexual. Desde o terremoto, 1.800 pessoas foram interceptadas na fronteira, a grande maioria sendo de mulheres e meninas jovens. Cerca de 200 mil nepaleses, em sua maior parte menores de idade, trabalhariam em pequenas fábricas ou prostíbulos na Índia, segundo o Unicef.

Ramificações até na África

As equipes da ONG Maiti Nepal inspecionam os veículos um a um em pontos de fronteira instalados nos grandes eixos rodoviários do Nepal, bem como nos 1.850 km da fronteira com a Índia, bastante porosa. Em uma olhada, elas precisam detectar as possíveis vítimas.

"Existem indícios como o nervosismo ou respostas muito vagas. E aquelas que não têm nada para esconder nos perguntam por que estamos fazendo todas essas perguntas", explica Dina, uma das inspetoras.

A Índia é a plataforma de um tráfico que estende suas ramificações até os países do Golfo, a Coreia do Sul e a África Oriental. As meninas do Nepal transitam por ali para escapar das rígidas condições em matéria de imigração: somente a rota para a Índia não necessita de visto.

"Os traficantes locais são vizinhos, às vezes membros da família das vítimas, que as dão para outros na Índia. Mas com todos os 'dance bars' que estão abrindo em Katmandu, os traficantes não precisam mais ir tão longe", diz com preocupação Bishwa Ram Khadka, diretor da Maiti Nepal.

Quanto mais jovem for a garota, mais elevado é seu preço. As nepalesas aprenderam a dizer nas fronteiras que estão indo trabalhar nas plantações de maçãs do norte da Índia, para não levantar suspeitas. Algumas passam de moto ou até mesmo a pé pelos pontos de fronteira para não terem de ser interrogadas.

Convencidos pelos traficantes que suas filhas conseguirão empregos de domésticas em Déli, às vezes são os próprios pais que as acompanham, sem saber, para entregá-las nas mãos de traficantes do outro lado da fronteira.

A própria inspetora Dina foi interceptada na fronteira, salva de um traficante, como a maior parte das funcionárias da ONG. Mas ela nunca dirá isso. Provavelmente por orgulho, e para poder esquecer sua vida de antes. Seus pais se afastaram dela. Quando ela fala sobre seus magníficos olhos verde-esmeralda, ela diz que eles lhe foram dados "por Deus e ninguém mais".

"Agora minha vida me pertence, me pertence", ela repete com um grande suspiro de alívio.

Todas as vítimas viram suas vidas escaparem de suas mãos no dia em que sucumbiram à promessa de uma vida melhor, ou ainda, normal. Pois não existe nada realmente de absurdo em seus sonhos. Phul Maya Tamang, 14, tem olhos tristes em forma de meia-lua que caem sobre suas maçãs do rosto. Ela queria ganhar 50 euros por mês e trabalhar em um hotel, antes de acabar sendo interceptada na fronteira alguns meses atrás.

O terremoto destruiu sua casa, matou todo o gado e feriu a perna de seu pai, um agricultor que não pode mais trabalhar. "Então comecei a sonhar com Katmandu", ela explica. "Minha vizinha havia me prometido encontrar um emprego lá, se eu não dissesse nada para minha família."

Foi ao chegar à fronteira, quando os policiais lhe perguntaram aonde ela estava indo, que ela entendeu que Katmandu não seria seu destino final. Sua vizinha traficante foi mandada para a prisão. Mãe de dois filhos, ela também havia perdido sua casa e seu marido durante o terremoto.

Às vezes famílias vêm de muito longe para dar a inspetoras como Dina fotos de seus filhos desaparecidos. Antes de subir nos ônibus, no posto de fronteira de Thankot, Dina e seus colegas dão uma olhada nelas. Pelo menos durante algumas semanas, até que os rostos nas pequenas fotos de identidade se apaguem em suas mãos suadas.

Teria aumentado o tráfico de mulheres e de crianças desde a ocorrência do terremoto? ONGs como a Maiti constataram um aumento nas partidas e nas interceptações, com 25 a 35 delas por mês no posto de fronteira de Thankot, contra cerca de 20 antes do terremoto.

"Mas ainda é difícil detectar uma tendência", relativiza Virginia Perez, encarregada da proteção da infância no Unicef do Nepal. "Leva tempo para tirar as mulheres e as crianças do tráfico. Os números fornecidos pela polícia não mostram um aumento."

As medidas excepcionais instauradas após o terremoto talvez tenham permitido evitar um êxodo. O Unicef enviou 260 trabalhadores para os distritos mais afetados para distribuir auxílio financeiro emergencial aos mais vulneráveis. Nenhuma criança foi autorizada a sair do distrito sem a autorização por escrito do responsável local.

O governo nepalês suspendeu as adoções de crianças por estrangeiros. Com voluntários do mundo inteiro dispostos a pagar para trabalhar algumas semanas nos orfanatos do país, estes fizeram disso uma atividade muito lucrativa. Só que 85% das crianças adotadas têm pelo menos um dos pais. O risco era que as famílias dessem seus filhos em troca de dinheiro.

Asfixia

Todas essas medidas foram abandonadas em dezembro de 2015. Longe dos holofotes da mídia, o Nepal na época tinha sua fronteira com a Índia bloqueada por madhesis, uma minoria de origem indiana que protestava contra a nova Constituição. O bloqueio, tacitamente apoiado por Déli, durou cinco meses, entre setembro de 2015 e fevereiro de 2016, e humilhou o Nepal.

Depois de ter sido destruído, o país se viu asfixiado. "O risco de um aumento no tráfico de mulheres e de crianças nunca esteve tão elevado quanto hoje", diz com temor Bishwa Ram Khadka.

Será preciso esperar mais para se ter uma ideia da extensão desse aumento no tráfico, esperar que as vítimas consigam escapar dele. Ranjita levou um ano para sair. Essa jovem de 21 anos que fala com voz baixa e ombros curvados, quando foi para Déli aos 19 anos de idade, pensava que iria trabalhar em um hotel, até o dia em que lhe pediram para comprar "roupas curtas".

Durante um ano, ela ficou confinada juntamente com quatro outras bengalesas e nepalesas em um prostíbulo de um bairro pobre da capital indiana, trancadas em um pequeno quarto vigiado: "Eu não tinha permissão para assistir a filmes, só podia ouvir música durante as pausas".

Os policiais indianos apareciam até várias vezes por semana, mas para oferecer seus serviços ou pedir dinheiro do dono. "Minha única chance de escapar de tudo aquilo era ficando doente", ela conta.

Outras vítimas são literalmente vendidas para países do Golfo e até mesmo o Iraque e a Síria, onde elas são empregadas como domésticas.

"O número de migrantes nepalesas aumentou consideravelmente nos últimos anos e elas hoje seriam em 500 na Síria", declarou em março Kaushal Kishor Ray, o chefe da missão diplomática nepalesa no Cairo, Egito.

Essas migrantes às vezes são vítimas de estupro ou de maus tratos. Não é dentro de caixões que elas voltam ao país, como os migrantes nepaleses que morrem nos canteiros de obras do Qatar, mas emparedadas em vergonha, sobretudo quando estão grávidas. Fala-se pouco sobre esses fantasmas, que a sociedade nepalesa prefere esquecer.

Ranjita quase não vê mais sua família desde que voltou de Déli. Assim como Dina, ela trabalha para a Maiti Nepal. Quando conduz suas inspeções no posto de fronteira, ela costuma pensar naquele dia em que estava sentada em um dos ônibus com destino à Índia. Quando lhe perguntaram quem a acompanhava, ela respondeu tranquilamente "Meu marido", sentado ao lado de seu traficante, confiante na promessa que lhe haviam feito de que teria um trabalho em um hotel e um "belo salário de 70 euros por mês."

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