Para desesperados endividados de Gaza, nem o Islã impede a tentativa de suicídio

Piotr Smolar

  • Khalil Hamra/AP

Graves problemas financeiros e falta de perspectivas: no pequeno território palestino sufocado pelo bloqueio, algumas pessoas recorrem ao suicídio, apesar da proibição religiosa

Um homem escala a torre, um lugar onde não deveria estar. Ele vai saltar. Uma multidão se forma, a notícia se espalha e pessoas importantes são contatadas. O homem se chama Rezek Abou Setta. Há dez dias, ele se tornou pai pela sétima vez, o que é uma bênção, mas um peso financeiro a mais. Ele diz estar "sob pressão", e que a situação se tornou insustentável. Como pagar o hospital, os medicamentos, as vacinas, as fraldas e as roupas, com as dívidas que ele já tem? Dez minutos antes, seu telefone tocou com uma voz lhe intimando: "Pague!". Ele não pode, não consegue mais. Em um rompante, ele subiu a torre. "Se eu estivesse perto do mar, teria entrado. Se eu estivesse perto da fronteira, teria andado na direção dos israelenses. Eu não distinguia mais entre o bem e o mal, estava tudo confuso na minha cabeça."

Rezek Abou Setta desceu ao final de seis horas. Durante esse tempo, o telefone tocou várias vezes. Ele acreditou nas promessas que lhe foram feitas. Na Faixa de Gaza, vilarejo-prisão onde todos sabem de tudo, seu caso ficou célebre, através das redes sociais. O homem tem 38 anos de idade e adora seus filhos, seus gestos de carinho para com eles não deixam mentir. Suas cinco meninas e dois meninos são sua maior riqueza. Em um canto da sala, vemos uma foto de seu próprio pai, que morreu quando Rezek tinha um ano. Era um membro da ala militar da Frente Popular de Libertação da Palestina, e sua mulher também tinha esse engajamento radical, tenho passado doze anos em uma prisão israelense.

Rezek Abou Setta tem um rosto suave, sobretudo quando sorri, e uma voz um tanto fina. Do ponto de vista físico ele não impressiona muito, então é difícil imaginá-lo em sua antiga função de guarda presidencial, encarregado da proteção de personalidades em visita a Gaza. No entanto, ele fez parte da elite do aparelho de segurança e fez treinamentos no exterior, sobretudo na Rússia e na Ucrânia, para se tornar um excelente atirador. Ele era útil e disponível, antes de se tornar vítima, como centenas de outros funcionários da Autoridade Palestina, da luta fratricida entre o Hamas e o Fatah, partido do presidente Mahmoud Abbas.

Em 2011, ele foi passar várias semanas no Egito, e durante sua estada descobriu que seu salário havia sido congelado pelo Hamas, movimento islâmico armado que comanda a Faixa de Gaza desde 2007. Foi o início de seu tormento. Após sua tentativa de suicídio, ele diz ter recebido 18 mil reações no Facebook, dois terços delas de empatia. Não era algo normal. "Em nossa sociedade", ele diz, "você é julgado por como e quando morrer. Meu gesto não era algo egoísta. Eu estava disposto a me sacrificar para que meus filhos vivessem."

O surto de loucura de Rezek Abou Setta ocorreu no dia 9 de fevereiro. No decorrer dos dias que se passaram na sua cidade de origem, Khan Younès, vários outros suicídios e tentativas de suicídio foram registrados. Era evidente o efeito de imitação. É impossível obter dados confiáveis em todo o território palestino, mas os observadores locais concordam com uma constatação: em uma população (1,8 milhão de pessoas na Faixa de Gaza) tão fragilizada e empobrecida, tão limitada em suas liberdades fundamentais, com os nervos à flor da pele e pensamentos negativos, o número crescente de casos de desespero não deixa dúvidas.

"Vivi minha vida e quero dar um fim a ela"

Nas casas palestinas de luxo, a sala de recepção dos visitantes é muitas vezes parecida, com grandes poltronas contra as paredes, de braços exagerados; tapetes no chão, uma mesa baixa, flores de plástico ou uma foto no canto; e um serviço de café em uma bandeja prateada. Nessa tarde, todas as cadeiras estão ocupadas na casa dos Al-Bream, em Khan Younès. É o tio Adel, 53, o encarregado de contar sobre a tragédia. Cinco anos atrás, o jovem Younès caiu em um canteiro de obras, e quebrou as costas.

Foi o início de um longo suplício médico, de cirurgia em cirurgia, de empréstimo em empréstimo, para voltar a ter algo parecido com uma vida normal. O rapaz nunca recuperou todas suas capacidades físicas, nem encontrou um trabalho adequado para financiar o tratamento. "Ele devia muito dinheiro", explica seu tio. "Alguns dias antes de seu suicídio, a polícia apareceu para lhe pedir que pagasse a seus credores. Ele fugiu de casa e se escondeu durante dois dias na casa de sua irmã." Esta achou que Younès estava blefando quando ele ameaçou acabar com sua vida. Em seu perfil do Facebook, no dia 9 de fevereiro, ele escreveu o seguinte: "Eu vivi minha vida, e quero dar um fim a ela. Vou dar um fim a ela." O post seguinte era o desenho de uma silhueta em chamas.

No dia 12 de fevereiro, Younès comprou um galão de gasolina em um posto ao longo da principal artéria de Khan Younès. Ele parou ao lado de uma fileira de táxis. Vendedores de mexerica paravam os passantes e a circulação era densa nesse início de noite, com buzinas ao fundo. Younès ateou fogo em si mesmo e, com 60% do corpo queimado, ele foi hospitalizado. Sua agonia durou oito dias. "O que ele fez é errado", explica Adel al-Bream. "Nossa religião nos proíbe de agir assim. Mas coloco a responsabilidade em nossos governantes. O que o levou a fazer isso? Nossas condições de vida. Vou te dar um exemplo. Antes, um maço de cigarros custava 5 shekels (R$ 4,70). Agora são 30."

Os habitantes do bairro mostraram simpatia em relação à sua família, participando do funeral. "Eles amaldiçoam o Hamas. Mas eles têm medo. É por isso que não há um movimento contra nossos governantes", afirma aquele que passou dez anos nas prisões israelenses no final dos anos 1980.

A família, claro, mencionou o "caso do tunisiano". Mohamed Bouazizi, o vendedor de rua, que ateou fogo em si mesmo em Ben Arous, na Tunísia, dia 17 de dezembro de 2010. Seu gesto desesperado foi o que deu início ao efeito borboleta, que fez com que o povo tunisiano se rebelasse, levando à "revolução do jasmim", e depois à queda do regime Ben Ali, o acontecimento desencadeador das "primaveras árabes".

Mas, em Gaza, estão todos imersos no mesmo caldo sombrio, com a tampa na cabeça, ignorados pela maior parte do mundo. O bloqueio israelense e egípcio são mãos no pescoço de Gaza, que apertam, soltam, e depois apertam novamente, porque o Hamas é um movimento terrorista. A destruição de 90% dos túneis ilegais que ligam o Egito e a Faixa de Gaza por parte do Exército egípcio não é somente um golpe duro para os contrabandistas; ela arrasa psicologicamente os habitantes, que ficam ao Deus dará. Um suicida é só alguém mais apressado que os outros.

Raed, um primo de Younès que trabalha para a Autoridade Palestina, assume a fala: "Se os israelenses voltassem para uma nova guerra, os habitantes dizem que eles não se refugiariam mais na costa, mas fugiriam do lado israelense." Gaza já teve diversos casos em que jovens tentaram se aventurar a nado, para ir a outros lugares, ou passaram pela barreira de segurança para ir ao encontro de soldados israelenses com os braços para cima. Tudo, até mesmo uma cela ou o suicídio, parece melhor do que mofar vivo em Gaza.

A porcentagem ignorada de mulheres

Zahia el-Kara, 53, passou metade de sua vida chefiando o departamento de saúde mental de Gaza. Qualquer um que esteja angustiado pode ligar para esse centro a qualquer hora e conversar, anonimamente, sobre suas angústias. Não é uma iniciativa fácil, em uma sociedade tão conservadora, onde a fragilidade é um defeito e a virilidade é glorificada. "Nós recebemos entre 100 e 150 ligações por mês", ela afirma. "Desde a última guerra, no verão de 2014, estamos em pleno marasmo. Não há nenhuma esperança, nenhuma perspectiva, nenhum emprego para os jovens. Diante dessa crise, as pessoas reagem de maneira positiva, tentando construir algo ou se refugiando na religião, ou de maneira negativa, que pode ir desde as drogas até o suicídio. "Mas, segundo Zahia el-Kara, a recente onda de suicídios poderia ter uma outra razão: "No começo do ano, a imprensa e as elites começaram a falar em um possível novo conflito com Israel. Acho que isso aumentou as frustrações."

Não se sabe o que atormentava esse senhor de 50 e poucos anos que se apresentou há algumas semanas na recepção da rádio El-Shaab. Ele queria ver o gerente, que não estava lá. Ele pediu um copo dágua e depois sacou um comprimido. Era veneno, mas ele foi retirado a tempo. Quantos outros não passam pelo mesmo? É muito difícil obter informações oficiais sobre os suicídios, por causa da proibição religiosa. Dizer que a prevenção é uma prioridade para o Hamas seria uma piada. "Ninguém quer ouvir falar nesse fenômeno, pois ele é mostra do fracasso em diversos setores", resume Samir Zakout, diretor do centro Al-Mezan, uma reconhecida organização de defesa dos direitos humanos.

"Foram contados 'somente' cinco suicídios em 2015, sete em 2014 e em 2013. Mas seria preciso levar em conta as tentativas também. Às vezes, há até sessenta delas por mês."

Em Khan Younès, Ebtissam Zakout, diretora local do Centro Palestino para os Direitos Humanos, tem uma expressão terrível para resumir o problema: "Em nossas condições econômicas, todos os habitantes de Gaza são suicidas em potencial". A partir de seu posto de observação, ela rejeita a ideia de um "fenômeno", ao mesmo tempo em que logo encontra outros exemplos concretos. Em um dia de fevereiro, um homem de idade entrou em uma agência do banco Al-Quds, em Khan Younès. O filho de Ebtissam Zakout trabalhava ali. O homem não estava conseguindo pagar um empréstimo, se encharcou de gasolina e queria atear fogo em si mesmo. A polícia interveio a tempo. Entre meados de janeiro e final de fevereiro, o Centro já contou cinco suicídios no território, sendo três em Khan Younès. No que diz respeito às tentativas, Zakout ressalta a porcentagem ignorada das mulheres: "Penso em todas aquelas que tomam medicamentos, são logo levadas ao hospital e salvas. Elas não entram em nenhuma estatística."

Além disso há ainda os falsos suicidas, aqueles que querem chamar a atenção para seus problemas. A família Al-Bream nos contou do inacreditável caso dos três irmãos do vilarejo de Abassan, em Khan Younès. Eles teriam tentado partir deste mundo juntos, tomando remédios. Uma verificação mostrou que aparentemente a história havia sido completamente inventada. Os policiais do Hamas não gostaram da manobra, e os irmãos foram presos por duas semanas.
 

 

Tradutor: UOL

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