Sarkozy, um não-candidato já em campanha

Matthieu Goar e Alexandre Lemarié

  • Eric Feferberg/AFP Photo

    29.mar.2015 - Ex-presidente francês Nicolas Sarkozy discursa após eleições locais

    29.mar.2015 - Ex-presidente francês Nicolas Sarkozy discursa após eleições locais

Presidente do partido Les Républicains e seus aliados tomam diversas iniciativas pensando nas primárias da direita

Aqueles que ainda duvidavam não têm mais como duvidar: Nicolas Sarkozy é de fato candidato às primárias da direita francesa para a eleição presidencial de 2017. Sem ter declarado oficialmente sua candidatura, o presidente do partido Les Républicains (LR) já se encontra em campanha.

Prova disso foi sua manobra para modificar as regras da eleição dos dias 20 e 27 de novembro. No dia 3 de maio, ele conseguiu que o comitê político de seu partido, na ausência de seus principais rivais Alain Juppé, François Fillon e Bruno Le Maire, aprovasse uma medida que proíbe que cerca de 1,2 milhão de franceses residentes fora da França votem de forma eletrônica. Esta ofensiva-surpresa mostrou que Sarkozy estava determinado a aproveitar sua posição de líder de partido para limitar a participação nas primárias, penalizando dessa forma seu principal rival, Alain Juppé, que quer um corpo eleitoral o mais amplo possível para aumentar suas chances de vitória.

Nicho cortejado

O presidente do LR, bem atrás nas pesquisas em relação ao prefeito de Bordeaux, não tem interesse em que haja um mínimo de votantes, pois ele aposta no núcleo duro dos militantes. Abandonado por vários de seus antigos seguidores, rejeitado por uma maioria de franceses e por boa parte dos simpatizantes de direita, o ex-chefe de Estado tem cortejado metodicamente esse nicho, que continua sendo seu principal trunfo.

Sua turnê de dois dias pelo Sudeste (Nice, Toulon, Marselha e Aix-en-Provence), nos dias 26 e 27 de abril, foi prova disso. Nessas terras onde sua popularidade continua em alta, especialmente entre os aposentados, ele encadeou três sessões de autógrafos de seu livro "La France pour la vie", publicado no final de janeiro pela editora Plon, para mostrar que sua capacidade em mobilizar as multidões permaneceu intacta.

A pouco mais de seis meses das primárias, Sarkozy tem se esforçado para estreitar os laços com sua clientela eleitoral. Seus posicionamentos anti-ecologistas, formulados no "Le Journal du Dimanche" do dia 1º de maio, pretendiam seduzir os agricultores, bem como os caçadores e pescadores com quem ele conversou no dia seguinte, durante uma viagem por Somme.

Na terça-feira (3), ele conduziu sua ofensiva de charme. "As cotas anuais" de pesca "não podem continuar!", ele disse. Seus apelos recentes por uma restauração da "autoridade do Estado" diante dos ativistas do movimento de moradia de Notre-Dame-des-Landes, do movimento Nuit Debout, ou dos secundaristas mobilizados contra a "lei do trabalho" são destinados ao eleitorado conservador como um todo.

Além de suas viagens regulares, Sarkozy já tem arrecadado fundos para sua futura campanha. Seu micropartido, a Associação de Apoio à Ação de Nicolas Sarkozy (Asans), criou no final de fevereiro uma associação de financiamento para permitir arrecadar doações pela internet. No início de abril, foi lançado um apelo por e-mail junto aos quase 4.000 doadores habituais do presidente do LR, e um funcionário foi recrutado para cuidar da coleta do dinheiro em tempo integral.

Enquanto muitos, inclusive em seu próprio campo, duvidam de sua capacidade para uma nova vitória, o ex-presidente da República tem se esforçado para tranquilizar suas tropas. E tem se empenhado pessoalmente em tentar ampliar o círculo de seus partidários. No dia 31 de março, ele apareceu na quarta reunião de seus apoiadores parlamentares no restaurante Le Toucan, perto da sede do partido, para pedir que eles segurassem os parlamentares tentados a apoiar seus rivais.

"Digam a seus colegas que não se comprometam e que esperem", ele disse às cerca de 40 pessoas presentes, sendo que a caça às assinaturas foi aberta oficialmente no dia 22 de abril. Era uma maneira de tranquiliza-los sobre sua vontade de irem a campo e de motivá-los a recrutar novos parlamentares.

Não é um desafio tão fácil. "Em 2007, havia um caráter óbvio. Agora está mais difícil de convencer as pessoas", reconhece um assessor do ex-chefe do Estado.

Mobilizar as tropas

Seus fieis têm se mexido nos bastidores. Na quarta-feira (4), os cerca de 40 parlamentares sarkozistas voltaram a se reunir no Le Toucan para afinar o plano de batalha. Na véspera, uma reunião dos apoiadores parisienses aconteceu em um café do 17º distrito em torno de sua prefeita, Brigitte Kuster. Essa reunião, que mobilizou parlamentares da Île-de-France, conselheiros de Paris e conselheiros regionais, visava mobilizar as tropas, com o objetivo de reunir o máximo possível de apoiadores a favor do presidente do LR. No dia 27 de maio, Guillaume Larrivé, porta-voz do LR, lançou um apelo nesse sentido nas redes sociais.

Outra iniciativa visando aumentar a pressão em torno de Sarkozy, antes que ele entre em campanha oficial, são os apelos de representantes locais e de comitês de apoio à sua candidatura que irão se multiplicar nas próximas semanas. No dia 3 de maio, um comitê de apoio surgiu em Neuilly-sur-Seine (Hauts-de-Seine). No dia seguinte, Valérie Debord, vice-presidente da região do Grande Leste (Alsácia-Champanhe-Ardenne-Lorena) e porta-voz do LR, exaltou os méritos de seu candidato à imprensa local. No dia 10 de maio, o prefeito de Châteauroux, Gil Avérous, realizará um comício em sua cidade para fazer o mesmo.

"Deixar a casa limpa"

O único suspense, afinal, está na data em que a candidatura será anunciada. O anúncio poderá ocorrer pouco antes da data-limite, por volta do dia 20 de agosto, segundo fontes diversas, com a ideia de lançar "uma campanha-relâmpago", como em 2012. As regras das primárias são categóricas: se quiser ser candidato às primárias, o presidente do partido deve deixar seu cargo de líder pelo menos 15 dias antes da data-limite de registro das assinaturas de apoio, marcada para dia 9 de setembro.

Sarkozy não pretende fazer o anúncio antes de fechar os trabalhos que começou como líder do partido. "Ele quer deixar a casa limpa, com as finanças em dia, as nomeações finalizadas, e dar ao partido um projeto presidencial", disse um aliado. A atribuição das nomeações para as legislativas será encerrada no dia 14 de julho, e o projeto para 2017 será aprovado durante um conselho nacional, 12 dias antes.

Ainda que muitos duvidem de suas chances de vitória, Sarkozy continua acreditando em sua sorte. Ele espera que suas qualidades combativas lhe permitam ser o único sobrevivente da competição interna da direita. Recentemente, ele contou a um de seus aliados: "Não é o melhor quem vence, mas sim aquele que fica na disputa até o fim, uma vez que todos os outros tenham pulado fora..."

Tradutor: UOL

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