Em primavera sangrenta, Taleban pode ter assumido controle de um terço do território afegão

Julien Bouissou

  • Abdul Malik/Reuters

    Policiais afegãos atuam durante batalham contra o Taleban no distrito de Nahr-e Saraj, na província de Helmand, no Afeganistão

    Policiais afegãos atuam durante batalham contra o Taleban no distrito de Nahr-e Saraj, na província de Helmand, no Afeganistão

"A guerra será longa", prevê com uma voz branda Nazar Mohammad Mutmaeen, ex-diretor de informação da província de Helmand, controlada pelo regime do Taleban, e ainda próximo do movimento. "A temporada de negociações terminou", diz esse homem com um longo turbante em moiré, enquanto sorve um chá fumegante.

Desde que as tropas da Otan saíram no final de 2014, as ofensivas do Taleban redobraram em intensidade. Os territórios que eles ocupam são os mais vastos desde 2001, ano da queda de seu regime.

Em 2015, o número de vítimas da guerra civil no Afeganistão atingiu 15 mil mortos, segundo o think tank americano International Institute for Strategic Studies, ou seja, quatro vezes mais que no ano anterior.

O país temia a "ofensiva da primavera" do Taleban, a primeira desde que o mulá Mansour se tornou, em julho de 2015, o novo líder do movimento, após o anúncio da morte do mulá Omar, dois anos antes. "É na primavera que se sabe como o resto do ano vai ser", diz um provérbio afegão. A julgar pelas últimas semanas de combates, o ano de 2016 corre o risco de ser particularmente violento.

"Avanço notável"

O Taleban já estaria controlando um terço do território. Em 2015, eles tomaram 24 capitais de distritos, contra somente quatro no ano anterior. A província montanhosa de Uruzgan (centro) pode cair a qualquer momento nas mãos de insurgentes que estão sitiando sua capital, Tarinkot, o que poderia lhes oferecer uma posição estratégica para lançar ataques mais ao sul, em Helmand e em Candahar.

Essa província também abriga uma rota estratégica.

"O Taleban está concentrando suas forças no controle dos eixos de comunicação, para manter o comando sobre o tráfico de ópio nessa estação, que é a das colheitas, mas também para evitar qualquer reforço militar em caso de ataque", explica Obaid Ali, pesquisador no centro de análises Afghanistan Analysts Network (AAN), sediado em Cabul.

"As ofensivas não são somente contra as províncias do Sul, seus bastiões tradicionais". Nas províncias do Norte, o Talebam aprenderam com sua derrota em 2001 e estão abrindo suas fileiras para outras etnias além dos pashto, como os tadjiques e os uzbeques. "O avanço deles é notável", diz Obaid Ali.

Para surpresa geral, os insurgentes assumiram o controle de Kunduz, em outubro de 2015, a capital da província de mesmo nome, no norte, antes de serem repelidos quinze dias depois graças aos reforços aéreos da Otan.

"A força aérea da Otan é crucial", admite Mutmaeen, próximo do Taleban, "mas por quanto tempo mais?"

Se metade das tropas americanas deixar o país em 2017, passando de 9.800 para 5.500 soldados, como teria sugerido ao Pentágono John Nicholson, o novo comandante das forças americanas e da Otan, o Exército afegão deverá se contentar com um apoio mais frágil.

Exército sub-equipado

Nessa guerra de emboscadas e situação instável, é difícil contar o número de distritos conquistados ou perdidos. A presença do governo às vezes se limita à capital de um distrito, sem o território do entorno.

"O Taleban desestabiliza o país, mas ainda estão longe de estarem em posição de controlá-lo", explica Ali Mohammad Ali, um analista independente.

Um ano e meio após a saída das tropas da Otan, é verdade que o desastre tão temido por alguns não aconteceu.

"O Exército afegão, apesar de jovem, até que resistiu bem", acredita um diplomata europeu. Mas as preocupações persistem. O Exército, corroído pela corrupção, sofre por estar sub-equipado, a começar pelos sapatos fabricados na China, que são de uma qualidade tão ruim que os próprios soldados precisam remendá-los.

A desorganização que atinge as fileiras do Exército é mais problemática.

"Existe um verdadeiro problema no nível dos oficiais intermediários", diz Lotfullah Najafizada, diretor do canal de notícias TOLOnews. O índice de perda no Exército atinge 25% a 30% por ano, e 70 generais, das centenas que há no Exército, foram dispensados.

Um oficial de alto escalão do ministério afegão do Interior explica que os procedimentos de recrutamento na política foram abreviados para um dia. Seria uma prova de eficiência ou uma medida emergencial para conter a evasão?

Após o anúncio da morte do mulá Omar, os talibãs conseguiram superar suas diferenças. Ainda que o carisma do mulá Mansour seja bem fraco em comparação com a de seu antecessor, ele conseguiu evitar as cisões ao se aliar ao filho e ao irmão do mulá Omar, e depois ao escolher como braço direito Sirajuddin Haqqani, o líder da poderosa rede Haqqani.

Esse grupo afegão insurgente é acusado por Cabul de operar de ambos os lados da fronteira afegã-paquistanesa e de manter ligações antigas com o Isis, o serviço secreto de inteligência do Exército paquistanês.

"O Taleban estão sob comando da rede Haqqani. Acreditamos que membros do Taleban a rede Haqqani sejam dois nomes que designam a mesma organização terrorista", declarou na terça-feira (10) o porta-voz do ministro afegão do Interior. Ao reforçar sua cooperação e sua integração com a rede Haqqani, os talibãs poderão se fortalecer.

Além disso há a guerra psicológica. O atentado suicida que atingiu o prédio que abriga o serviço de inteligência afegão, em pleno centro de Cabul, no dia 19 de abril, com um saldo de pelo menos 64 mortos e 350 feridos, é mais uma prova da vulnerabilidade da capital afegã.

"O tempo da anistia se foi", respondeu o presidente Ashraf Ghani. Seis talibãs foram enforcados, no domingo (8), ilustrando esse novo tom.

"O fato de os membros do Taleban terem usado uma quantidade tão grande de explosivos em um bairro residencial e sua vontade de reivindicar esse ataque, algo praticamente sem precedentes, é provavelmente o sinal de um endurecimento de sua posição em relação a civis que vivem nos bairros administrativos", acredita Martine van Bijlert, analista do AAN.

Bryan Denton/The New York Times
Agricultores afegãos cultivam a papoula no distrito de Nad Ali, na província de Helmand

Paralisação política

Segundo a ONU, o número de vítimas de ataques terroristas aumentou em 2015, sobretudo entre as mulheres e as crianças, o que mostra uma multiplicação dos combates em zonas densamente povoadas.

O Taleban, que antes tinham o cuidado de explicar entre suas comunidades que estavam poupando os civis, agora dão uma definição mais restrita.

"Um médico ou um engenheiro que trabalhe em uma base militar não é um civil. Não é porque você não está armado que você é civil", explica Mutmaeen. Seis jornalistas foram mortos no final de janeiro, quando o mini-ônibus que transportava funcionários do canal de notícias TOLOnews, muito crítico em relação aos insurgentes, foi atacado em Cabul.

Estaria o Afeganistão preparado para conter a ofensiva do Taleban? A paralisação política que atravessa o país tem agravado a crise de segurança. Desde os resultados das eleições de 2014, marcadas por fraudes, Ashraf Ghani tem dividido o poder com seu rival Adbullah Abdullah.

"É como querer usar duas calças com cueca", diz um funcionário de alto escalão do palácio presidencial. As nomeações estão travadas, as decisões estão paradas. E as promessas de Ghani, em especial o combate à corrupção, tardam a se concretizar.

Em uma província, é um governador que força mulheres já casadas a se casarem com ele; em uma outra, os salários é que são atrasados pelo dízimo cobrado pelo comandante da polícia.

"O governo central não conseguiu melhorar a governança local, pois os comandantes de guerra aliados aos chefes da polícia e aos governadores continuam sendo os mais fortes. Eles são aliados inevitáveis na guerra contra os talibãs", constata Obaid Ali. O nepotismo de certos governadores locais joga milhares de habitantes nos braços dos talibãs, que têm meios para atraí-los, graças ao dinheiro do ópio. E a colheita deste ano promete ser excelente.

"Estamos preocupados com essa fortuna em potencial para os talibãs", explicou na quinta-feira (5) o general Charles Cleveland, membro do estado-maior americano no Afeganistão.

Uma colheita de ópio significa que os insurgentes terão recursos para financiar sua guerra. As esperanças de paz nunca foram tão frágeis. Mohammad Ismael Qasimyar, o secretário encarregado das relações internacionais no Alto Conselho de Paz, instituído em 2010 para estabelecer contatos com os talibãs, admite sem rodeios: "Mesmo que a porta ainda esteja aberta para as negociações de paz, não vejo outra solução que não seja a guerra."

 

Tradutor: UOL

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