O Exército torna-se a nova força de oposição em Israel

Piotr Smolar

  • Facebook/Reprodução

    O general Gadi Eizenkot, chefe do Estado-Maior do Exército israelense

    O general Gadi Eizenkot, chefe do Estado-Maior do Exército israelense

Uma nova oposição está surgindo em Israel. Ela é moderada, rigorosa e recusa simplificações de linguagem. Ela não possui militantes e não tem um programa a defender, mas apresenta protocolos e um código de ética em resposta aos ataques que vêm se intensificando contra ela, no plano nacional. Essa oposição é o Estado-Maior do Exército israelense.

É claro que essa apresentação é um tanto exagerada, mas ela capta o momento pelo qual Israel vem passando. Ela reflete, de um lado, a deriva populista e nacionalista da direita no poder, e de outro, o apagamento ideológico da esquerda, incapaz de desenvolver uma alternativa.

Os oficiais do mais alto escalão do Exército estão, portanto, diante de um maremoto político, que os obriga a se aterem ao bom senso e a um certo comedimento. Isso é ao mesmo tempo muito saudável, mostrando a pluralidade dos recursos da democracia israelense, e muito preocupante, porque as motivações dessa democracia é que estão sendo atacadas.

Esse posicionamento também levanta a questão da provável discrepância entre esses oficiais de alto escalão e a base dos convocados, amostra representativa do endurecimento e do pessimismo da sociedade israelense em relação à segurança.

O general Gadi Eizenkot fala em um tom plácido, de forma direta, mas não deixa de enfatizar a diferença que surgiu com a direção política do país, ao longo do tempo. Nomeado há 15 meses, o chefe do Estado-Maior declarou que ele via possibilidades se abrirem graças ao acordo sobre o programa nuclear iraniano, enquanto o primeiro-ministro, Benjaminn Netanyahu, ficou obcecado com essa "ameaça existencial".

Ele também foi contra os apelos por uma ocupação total da Cisjordânia, no auge das agressões palestinas no final de 2015, e encorajou as prisões de extremistas judeus violentos da "juventude das colinas". No início do ano, ele ressaltou a importância crucial das permissões de trabalho concedidas a dezenas de milhares de palestinos, para que eles pudessem ganhar a vida em Israel.

Dois casos recentes colocaram o Estado-Maior no centro dos debates políticos. Em meados de fevereiro, Gadi Eizenkot respondeu a perguntas de estudantes secundaristas em Tel Aviv, dizendo na época: "O Exército não pode falar slogans do gênero: 'Se alguém vem para te matar, levante-se para matá-lo primeiro' ou ainda 'Qualquer pessoa segurando uma tesoura deve ser morta'. As tropas só devem agir em casos em que suas vidas estejam ameaçadas. Não quero que um soldado descarregue sua arma contra uma menina segurando uma tesoura."

Essas declarações não exatamente revolucionárias foram criticadas duramente por aqueles, sejam comentaristas ou políticos, que defendem uma regra simples a ser aplicada aos palestinos, vistos essencialmente como hostis: na dúvida, atire. Esses mesmos extremistas recusam qualquer debate, necessariamente exigido pelos "inimigos de Israel", a respeito das suspeitas de execuções extrajudiciais.

No final de março veio à tona a execução de um agressor palestino estirado no chão, já gravemente ferido, por um soldado perto de Hebron. A cena, que foi gravada em vídeo, levou o Exército a acelerar a investigação e os processos. O sargento Elor Azria, 19, processado por homicídio culposo, recebeu apoio de parte da direita nacionalista. Netanyahu achou de bom tom ligar para seus pais.

Mas Eizenkot e o ministro da Defesa, Moshe Yaalon, indicaram claramente que o protocolo não havia sido respeitado e que era necessário dar um lembrete ético aos soldados.

O braço da ocupação

No dia 4 de maio, na ocasião do dia da lembrança do Holocausto, o vice do general EIzenkot, Yair Golan, fez um apelo ao país para um exame de consciência. Ele estava preocupado ao ver sinais, entre a sociedade israelense, de "processos revoltantes" que marcaram a Alemanha antes da guerra.

O timing das declarações de Golan, em um dia de luto, surpreendeu. Já seu paralelo histórico não ficou muito explícito. Mas os ataques foram violentos contra ele, com membros do governo pedindo por sua demissão. Em vez de pedir por calma, Netanyahu classificou os comentários do militar de "falsos" e "inaceitáveis", lamentando uma "diminuição do Holocausto".

No entanto, não há razão para idealizar o Estado-Maior por simples contraste com a radicalização da direita. O Exército tem sido o braço da ocupação na Cisjordânia, que comemorará seus 50 anos em 2017.

Sob sua administração e sua vigilância são organizadas, todos os dias, milhares de discriminações contra os palestinos, desde o acesso negado aos recursos subterrâneos até a expropriação das terras; desde a retirada das oliveiras pelos colonos até a expansão dos assentamentos e das construções ilegais; desde a tolerância em relação aos postos avançados ilegais dos colonos até as licenças de construção inacessíveis para os palestinos da Zona C (60% da Cisjordânia, sob controle israelense); desde as violações de direitos contra os suspeitos palestinos até a prática da detenção administrativa, sem nenhuma justificativa; desde violências regulares, banalizadas, até casos de execução. A lista é longa.

Ela foi assunto de centenas de relatórios, tanto em Israel quanto no exterior. No entanto, as engrenagens do sistema continuam a rodar, anos após ano, ganhando novas sutilezas e um verniz jurídico. Está fora de cogitação assumir uma anexação. É conveniente essa imprecisão, pois evita questões existenciais.

A qualidade de um homem como o general Eizenkot não muda em nada a equação geral. A colonização da Cisjordânia e o sistema militar-judiciário que a regula estão corroendo as fundações do Estado hebreu e comprometendo sua reputação.

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos