É preciso fingir ser sincero para ter sucesso na carreira?

Annie Kahn

Eleições presidenciais são períodos excelentes para se refletir sobre o que é um ser sincero e autêntico. Como perceber quais seriam os dirigentes virtuosos com mais chances de fazer aquilo que prometem? Como desmascarar os farsantes, para não dizer os viciosos, o que no contexto atual poderia levar a mal-entendidos? E afinal, ser sincero é importante para vencer, para fazer carreira na política ou em uma empresa?

Infelizmente não. Isso é fácil de constatar na esfera política, onde os candidatos precisam apresentar seus programas, o que permite em seguida que os cidadãos percebam a discrepância com a realidade. Em compensação, a comparação é mais difícil quando se trata de empresas, onde nomeações e o comprometimento das pessoas seguem vias mais discretas. Para colocá-los em evidência, para entender o que é tramado nos bastidores por trás dos comportamentos e das declarações de fachada, o trabalho de especialistas em psicologia empresarial e comportamento organizacional são de grande ajuda.

Um estudo publicado este mês pela Insead, a renomada escola de administração internacional, confirma isso. A sinceridade não compensa. Parecer sincero é importante, mas ser sincero muitas vezes é contraproducente. Não é fazendo aquilo que se diz e dizendo aquilo que se faz que se faz carreira, seja no setor público ou privado.

As lições de moral que defendem o contrário são ineficazes. Não basta parecer que você realmente pensa o que diz, então pouco importa que seja verdade ou não, mas você também deve fazer com que acreditem que você é altruísta, que pensa nos outros ou no bem estar de cada um.

Há quem acredite que só um ingênuo pensaria o contrário. Mas a confirmação científica tem a vantagem de convencer os mais céticos.

Três pesquisadores, Laura Guillen, professora de comportamento organizacional na European School of Management and Technology (ESMT), Natalia Karelaia, professora associada de ciências da decisão na Insead, e Hannes Leroy, professor de gestão de recursos humanos na Universidade Erasmus de Rotterdam, demonstram isso em seu artigo "A discrepância da autenticidade: por que pessoas autênticas não são vistas como tais e por que isso é importante". Eles fizeram a demonstração conduzindo o experimento justamente em uma empresa que requer precisão e confiabilidade: uma empresa de serviços de informática.

Camaleão social

Eles perguntaram primeiramente a 257 engenheiros da computação dessa multinacional se davam importância a agir conforme seus valores, se eles eram sinceros no trabalho. Eles também perguntaram a 810 de seus colegas e colaboradores para saber o que estes pensavam dos primeiros, se eles os consideravam autênticos, atentos aos outros e, de forma mais geral, simpáticos. Um ano depois, os pesquisadores perguntaram aos chefes diretos dos engenheiros aquilo que pensavam deles, de seus desempenhos.

Resultado: de todos os engenheiros que se consideravam confiáveis, nenhum era visto como tal por seus colegas. Sobretudo se não fizessem o esforço de se mostrarem cordiais, atentos às preocupações daqueles que convivem com eles. Então era o inverso que acontecia, na verdade eles mais despertavam desconfiança.

Há uma série de consequências para isso, pois as pessoas que são consideradas pouco autênticas, ainda que essa não seja a verdade, recebem uma avaliação pior. Um outro estudo, publicado no dia 21 de abril no jornal especializado "Personality and Individual Differences", prova ainda a "correlação entre posição hierárquica de um ser e a sinceridade que lhe é atribuída". É melhor ser um "cameleão social", concluem os pesquisadores da Insead.

Um terceiro estudo, publicado no dia 11 de maio na "Harvard Business Review", mostra até que ponto as pessoas não querem trabalhar mascaradas. Para ser feliz no emprego, um objetivo reivindicado atualmente por muitos empregadores, é preciso poder ser você mesmo, afirma Vanessa Buote, psicóloga autora do artigo. E também é preciso estar cercado de pessoas mais transparentes, segundo uma pesquisa que ela conduziu junto a centenas de trabalhadores. Três quartos das pessoas entrevistadas de fato gostariam que seus colegas pudessem falar mais deles mesmos, daquilo que eles realmente são.

Seria bom acreditar na moda gerencial atual, que exalta a benevolência, a confiança e a felicidade no trabalho. Mas como essa tendência pode se adaptar à falta de discernimento que todos mostram? Fazendo da psicologia, do ouvir os outros um conhecimento essencial, assim como a matemática ou a língua francesa? Talvez!

Tradutor: UOL

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