Moradores de Mayotte organizam comitês para expulsar imigrantes comorianos

Laurent Canavate e Service France

  • Ornella Maberti/AFP

    Imigrantes se alojam na Praça da República, em Mamoutzou (Mayotte)

    Imigrantes se alojam na Praça da República, em Mamoutzou (Mayotte)

Nas últimas semanas, o departamento de Mayotte tem passado por uma tensão crescente. Ao longo dos últimos dias, aumentaram muito os episódios de violência contra os imigrantes vindos das Comores vizinhas, a ponto de François Hollande se mostrar comovido na quarta-feira (18), durante o conselho de ministros. "Estamos em uma situação extremamente preocupante", disse alarmado o chefe do Estado, fazendo um apelo por "vigilância".

A ilha de Mayotte possui 40% de estrangeiros e vem passando por uma forte pressão migratória, causa de incidentes cada vez mais graves entre maiotenses e comorianos muitas vezes em situação irregular. Moradores da ilha reunidos em comitês que acusam os imigrantes de "estupros e agressões" começaram a expulsá-los dos vilarejos e das casas onde eles se abrigam.

Segundo a filial maiotense da ONG Cimade, cerca de mil imigrantes foram vítimas dessas ações. "As tensões estão levando a coisas inaceitáveis", afirmou o porta-voz do governo, Stéphane Le Foll. "Agora precisamos tomar todas as medidas necessárias para evitar que se descambe para uma forma mais grave de violência."

Desde a noite de domingo (15), centenas de famílias comorianas, com filhos pequenos, em situação regular ou não, se reuniram na Praça da República, em Mamoudzou, capital do departamento. Por falta de estruturas de acolhimento, foram imaginadas propostas de realojamento em MJC (casas para a cultura e a juventude) e ginásios, logo recusadas por uma população que está cansada de sofrer violências diárias e insultos.

A prefeitura de Mamoudzou decidiu iniciar, na quarta-feira, a demolição de favelas que estão sendo construídas em morros da cidade. No lugar, o caminhão e a escavadeira da comuna foram incendiados por vândalos, que em seguida instalaram uma barreira na rodovia nacional que circunda a ilha.

A Médicos do Mundo, associações de comorianos e a Cimade estão mobilizadas para cuidar dos desalojados, e uma cisterna de água foi disponibilizada. Uma associação de Kawéni está tentando cuidar das crianças, com aulas de reforço escolar. Um porta-voz do Comitê de organização comoriano, que levou essas famílias para a Praça da República, quer que outros se juntem a eles, "com a intenção de atingir a opinião pública em nível nacional".

Condições indignas de vida

Já entre a população, há outras operações previstas em Bandrélé, no sul, e no dia 5 de junho no norte da ilha. Os comitês de moradores negam as acusações de racismo. Durante meses, eles alertaram, por e-mail, os prefeitos e administração local de que não aguentavam mais ver seus terrenos sendo ocupados ilegalmente. Eles se queixam de saques às suas colheitas, de tartarugas sendo contrabandeadas, das florestas destruídas, do sumiço de peixes da laguna e, sobretudo, da criminalidade, que aumentou de maneira impressionante.

Embora o Estado tenha aumentado os efetivos, as forças de ordem não estão conseguindo dar conta. Segundo as autoridades, 18.763 clandestinos foram expulsos em 2015, mas as chegadas de kwassas, os barcos pesqueiros improvisados fabricados em série em uma "fábrica" em Anjouan, a 70 km das costas maiotenses, são quase diárias. Durante a audiência solene de volta às atividades, o procurador Joël Garrigue deu o alerta. Os roubos e as agressões aumentaram 45% entre 2014 e 2015. Se a criminalidade continuar aumentando assim, 2017 poderá passar por um "cataclismo", prevê o procurador.

Na única prisão de Mayotte, em Majicavo, o número médio de menores de idade detidos passou de 10 em 2014 para 14 em 2015; 20 menores de idade já foram detidos em 2016. Mayotte, que em março de 2011 se tornou o 101º departamento francês, tem a impressão de que os esforços do Estado francês estão sendo absorvidos por essa população que vive em condições indignas, com o risco de serem detidas, sem poderem trabalhar ou se alimentar. Quase 6.000 menores de idade vivem sem os pais e 56% dos jovens deixam a escola sem se formar.

O Estado por muito tempo economizou às custas de Mayotte, como lembrou a delegação de representantes recebida pelo primeiro-ministro, Manuel Valls, no palácio de Matignon no dia 26 de abril. A dotação global de funcionamento representa somente 136 euros por habitante em Mayotte, contra 446 euros por habitante em Reunião. O governo prometeu 50 milhões de euros, mas dos quais 32 milhões seriam referentes a cancelamento de dívidas, por sinal contestadas.

A população espera que o Estado cuide de seus problemas. Um novo prefeito, Frédéric Veau, deve tomar posse no dia 23 de maio. "Há vários meses a população de Mayotte vem manifestando, do seu jeito, uma insatisfação com a dimensão da imigração clandestina no território e nos vilarejos. Essa preocupação foi transmitida diversas vezes por representantes de todas as vertentes," explica o deputado socialista Ibrahim Aboubacar. "É urgente que se concretize uma cooperação mínima entre União das Comores e a França para a saúde e a educação, mas será que as autoridades comorianas querem?"

Tradutor: UOL

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