Jihadista francês dado como morto volta à cena com entrevista a programa de TV

Soren Seelow

  • Complement D'Enquete/France2/Reprodução

    Omar Daiby foi filmado na Síria por jornalistas do programa "Complément d’enquête", do canal France 2

    Omar Daiby foi filmado na Síria por jornalistas do programa "Complément d’enquête", do canal France 2

Omar Diaby está voltando dos mortos. Esse habitante de Nice de 41 anos de origem senegalesa, considerado como um dos principais recrutadores de jihadistas franceses em razão do sucesso de seus vídeos de propaganda "19HH", espalhou o boato de que ele teria morrido na Síria em agosto de 2015. A notícia foi replicada por diversos especialistas em jihad e vários veículos da mídia. Na realidade, segundo ele, tratava-se de uma cortina de fumaça para que ele pudesse fazer uma cirurgia no exterior.

Emir autoproclamado de uma katiba ("batalhão") de franceses, afiliada à Frente Al-Nusra, braço sírio da Al-Qaeda e rival da organização Estado Islâmico (EI), Omar Diaby era considerado como "supostamente morto" pela Justiça antiterrorista, que no entanto evitou confirmar oficialmente sua morte, por falta de provas.

Após dez meses de silêncio, ele decidiu anunciar sua ressureição midiática concedendo uma entrevista exclusiva ao programa "Complément d'enquête", parte de um documentário que será exibido no canal France 2 no dia 2 de junho, "Os recrutadores da jihad".

Ao saber que jornalistas estavam interessados em suas técnicas de propaganda, Omar Diaby, conhecido pelo nome de "Omar Omsen", os contatou espontaneamente para lhes oferecer uma entrevista e aceitou que um cinegrafista fizesse imagens dentro de sua katiba.

Por um acaso do cronograma judiciário, esse golpe midiático aconteceu juntamente com a abertura, na segunda-feira (30), do julgamento da rede jihadista de Estrasburgo, cujos membros foram recrutados em 2013 por Mourad Fares, ex-tenente de Omar Diaby.

Em uma entrevista concedida através do Skype ao jornalista Romain Boutilly, a cuja versão não editada o "Le Monde" pôde assistir, Omar Diaby explica ter espalhado o rumor de sua morte para poder sair da Síria e passar por uma "grande intervenção cirúrgica". Alvo de um mandado de prisão internacional, o recrutador diz ter recebido tratamento médico durante quatro meses em um "país árabe", sem maiores detalhes.

Omar Diaby ficou conhecido como recrutador (ele prefere o termo "pregador") em 2012. Enquanto vivia um regime semiaberto e passava as noites no presídio de Nice, ele iniciou a realização de sua obra prima: a série de vídeos "19HH", que teve enorme sucesso entre dezenas de milhares de visualizações no YouTube.

"O EI está atrás de um público reacionário"

Esses vídeos conspiracionistas e milenaristas contam "A História da Humanidade" (episódio com mais de quatro horas), "A Verdade sobre o islã" ou ainda "A Verdade sobre a Morte de Bin Laden".

Eles são considerados responsáveis pela primeira grande onda de partidas de jovens franceses em uma época em que o EI —e sua propaganda de livre acesso na internet— ainda não existia. Ele mesmo foi para a Síria no verão de 2013, onde fundou uma katiba composta de algumas dezenas de franceses.

Nessa entrevista exclusiva, o recrutador senegalês fala muito sobre suas relações com o EI, sua visão do jihad e legitima os atentados ocorridos na França.

"O EI faz vídeos com mais forma do que conteúdo", ele explica. "Eles estão atrás de um público reacionário, impulsivo, muito diferente do nosso".

Classificando a propaganda do EI como "clipes de 5 minutos que só incitam o ódio", ele afirma que tem em mente "um público um pouco mais ponderado, que levanta questões de verdade."

Omar Diaby também se distingue dos métodos do EI em campo. "Eles têm uma compreensão da sharia diferente da nossa (...). Quando você chega a um país que não é o seu, você não tem direito de impor imediatamente leis que o povo não consegue compreender (...). Você primeiro educa a população, faz com que ela entenda e ame a religião. A sharia não tem a ver com cortar mãos, apedrejar mulheres ou homens adúlteros."

Apesar dessas diferenças de sensibilidade, o emir autoproclamado diz entender os atentados de 13 de novembro perpetrados pelo EI. "Eles foram cometidos em represália aos ataques franceses contra mulheres e crianças (...). Então não podemos condená-los, pois Alá disse 'transgrida em uma transgressão igual'.

Ele justifica o assassinato de civis com o fato de que os franceses elegeram um presidente que teria anunciado em seu programa sua intenção de intervir na Síria, o que é mentira.

Morrer como mártires

Esse raciocínio tendencioso o levou a declarar um apoio inesperado à presidente da Frente Nacional: "Se os franceses não quiserem a guerra, eles devem votar na Marine Le Pen. Ok, ela é uma mulher, que pode ser considerada racista, mas pelo menos ela defende os verdadeiros valores da França. Essa mulher pediu que as tropas francesas voltassem porque essa guerra não lhes dizia respeito. Ora, ela está totalmente certa."

O trabalho realizado pelo programa "Complément d'enquête" também inclui imagens exclusivas feitas na katiba de Diaby por um cinegrafista sírio, enviado pela produção.

Um documentário raro, realizado em suas condições, que o emir usou para promover seu grupo. O vídeo mostra os recrutas saltando para dentro da água límpida de uma barragem, seguindo as instruções do diretor do vídeo, visivelmente fã de metáforas: "Quero um salto mortal no desconhecido, como uma imagem da hégira (emigração para a terra do islã), é um salto no desconhecido."

Certos jovens combatentes franceses, a maior parte originários de Nice, reconhecem, de rosto descoberto, já terem matado soldados sírios e que querem morrer como mártires. Outras cenas permitem entrever certos aspectos da vida cotidiana do grupo: mulheres de niqab e jovens crianças, provavelmente nascidas na Síria, perambulando dentro de um acampamento.

Imagens de treinos de tiro e de combates contra o Exército do presidente sírio, Bashar al-Assad, completam essa visão da hégira segundo Omar Diaby. Uma comunicação preciosa para esse pregador do jihad na internet, convicto de que a "luta midiática" é tão importante quanto a luta em "campo militar."

Tradutor: UOL

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