Na reta final para referendo, defensores da permanência do Reino Unido na UE perdem terreno

Philippe Bernard

  • Paul Ellis/AFP

     Homem usa camiseta que diz "Estou dando as costas para a UE", em Birmingham, no Reino Unido

    Homem usa camiseta que diz "Estou dando as costas para a UE", em Birmingham, no Reino Unido

A palavra "unpredictable" é onipresente. A três semanas do referendo de 23 de junho, os eleitores britânicos parecem mais "imprevisíveis" do que nunca, assim como o futuro do Reino Unido dentro da União Europeia (UE).

É como se os britânicos tivessem permanecido insensíveis ao bombardeio de argumentos pró-UE feito pelo primeiro-ministro conservador, David Cameron, e pelas mais altas autoridades financeiras do país. Como se as amigáveis ameaças do presidente americano Barack Obama, em caso de "Brexit", não os impressionasse.

"Já que ele pensa que tantas calamidades, como desemprego, inflação e até mesmo guerras, se abaterão sobre o Reino Unido em caso de 'Brexit', por que Cameron assumiu o risco de organizar esse referendo?", questionava no dia 26 de maio, um jovem escocês durante o primeiro grande debate transmitido pela BBC. Este último provavelmente estava dando uma pista para explicar por que não decolou a campanha do "in" (a favor da permanência na UE): a falta de confiança no primeiro-ministro.

Se uma maioria de britânicos (57%) considerou "inapropriado" o alerta do presidente americano, eles citam Mark Carney, o governador do Banco da Inglaterra e a própria rainha como as personalidades cuja opinião mais importa a eles. Mas parece pouco provável que Elizabeth 2ª dê sua posição antes do referendo. Do ponto de vista institucional, ela só poderia fazê-lo por solicitação da Downing Street.

Argumentos extremados

É verdade que a nova roupagem de europeu fervoroso vestida por Cameron desconcerta aqueles que se lembram de que, em fevereiro, ele ainda ameaçava fazer campanha para sair da UE. Assim como seu episódio, na última terça-feira (31), com o novo prefeito trabalhista e pró-UE de Londres, Sadiq Khan.

"Um muçulmano orgulhoso de sê-lo", disse Cameron daquele que até um mês atrás ele ainda chamava de intermediário do terrorismo islâmico. A apatia dos eleitores de esquerda, dos quais ele tanto precisa, evidentemente preocupa o primeiro-ministro.

Nesse contexto, as duas pesquisas publicadas na quinta-feira (1º) pelo "The Guardian" soam como um alerta para a campanha do "in" que, nos últimos dias, se mostrava muito segura de sua vitória.

Pela primeira vez, a pesquisa do ICM realizada por telefone —um método mais favorável ao "in" do que os questionários online"— dá a maioria ao "out": 52% contra 48%, uma vez excluídos os indecisos (entre 9% e 13%).

O resultado, que confirma a sondagem feita paralelamente online, provocou, na terça-feira à noite, uma queda brusca da libra. Mas até somente duas semanas atrás, a enquete realizada por telefone pelo mesmo instituto dava o "in" como vencedor, com 55% contra 45%.

Duas pesquisas não são determinantes, sobretudo em um país onde elas se mostraram incapazes de prever a vitória de Cameron nas eleições legislativas de 2015. Além disso, a média das seis últimas enquetes continua dando o "in" como vencedor com uma leve vantagem, 51% contra 49%.

Mas essas flutuações não devem mascarar o essencial: nenhum dos dois lados conseguiu aumentar essa diferença, apesar—ou talvez por causa—de argumentos cada vez mais extremados.

Boris Johnson, ex-prefeito de Londres e figura proeminente do "Brexit", comparou os objetivos da UE com os de Hitler; já David Cameron alegou que o líder da organização Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi, e o presidente russo, Vladimir Putin, comemorariam um "Brexit".

Quanto às ameaças feitas sobre as aposentadorias em caso de saída da UE, eles fizeram com que alguns eleitores conservadores idosos passassem para o lado do "in", mas não de maneira decisiva.

Dois temas dominam a briga: a economia e a imigração. A campanha "Stronger In" mostra uma série de previsões catastróficas em caso de saída da UE. Ela enfatiza o apoio de todos os grandes chefes de Estado e dos principais empregadores, ao mesmo tempo em que acusa seus adversários de não considerarem como seria um pós-Brexit.

Do outro lado, a campanha do "Vote Leave" denuncia a manipulação dessa "estratégia do medo" por uma "elite alheia ao povo", proclamando que os britânicos precisam parar de ser tributados e de ter suas leis ditadas por Bruxelas. Ela afirma que a saída da UE permitirá que a economia se reorganize no mundo inteiro, em vez de atar a uma zona euro em falência.

Duelo entre Cameron e Johnson

Mas a campanha "Vote Leave", onde militam os conservadores eurófobos, recentemente deu uma guinada ao se apropriar do tema da imigração, até então utilizado sobretudo pelos simpatizantes de Nigel Farage, o líder do Partido pela Independência do Reino Unido (UKIP, extrema direita).

Na quarta-feira, Boris Johnson prometeu que se vencesse o "Brexit", submeteria os cidadãos europeus ao mesmo sistema de seleção "por pontos" que se encontra em vigor para os imigrantes do resto do mundo.

Aproveitando a publicação de estatísticas sobre a imigração que refletem um aumento dos fluxos (330 mil pessoas em 2015, sendo 184 mil oriundas da UE) que contraria as promessas de Cameron, Johnson usou como argumento a ameaça de que haveria "classes superlotadas e listas de espera" nos hospitais caso o país permanecesse na UE.

Não parece importar que os especialistas prevejam que uma mudança nessa questão enfraqueceria a economia, aumentaria a burocracia e levaria os países vizinhos a fecharem suas fronteiras aos britânicos; o popular "Daily Mail" se mostrou entusiasmado, na quarta-feira, com essa "revolução em matéria de imigração".

O tabloide elogiou em sua capa a proposta que, segundo ele, permitirá "barrar as chegadas provenientes da UE".

O plano anti-imigração de Johnson é claramente redigido como o início de um programa de governo para o pós-Brexit. O referendo, utilizando o pretexto de Europa e imigração, tem se apresentado cada vez mais como um duelo impiedoso entre Cameron e o ex-prefeito de Londres.

Tradutor: UOL

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