Opinião: Obama termina mandato de mãos atadas diante do Afeganistão

Alain Frachon

  • Afghan Islamic Press via AP

    Em foto sem data e localização, o novo líder do Taleban, mulá Haibatullah Akhundzada, posa para um retrato.

    Em foto sem data e localização, o novo líder do Taleban, mulá Haibatullah Akhundzada, posa para um retrato.

Quando Barack Obama deixar a Casa Branca, em janeiro de 2017, a guerra do Afeganistão continuará, como o conflito armado mais longo do qual os Estados Unidos já participaram, completando em breve 15 anos de combates ininterruptos. O presidente americano havia prometido acabar com essa "guerra sem fim", mas podemos duvidar que ele consiga cumprir sua palavra.

O próprio Obama reconhece que a realidade em campo frustrou suas promessas de campanha; tanto no Afeganistão quanto no Iraque, aliás. Com um tom sempre um tantinho acadêmico, o professor Obama explicou recentemente: "Nós aprendemos que é mais difícil acabar com as guerras do que começá-las, é assim que está sendo a guerra no século 21".

Em maio de 2014, o anfitrião da Casa Branca anunciou que retiraria o último soldado americano do Afeganistão até o final de 2016. Ele logo reconheceu em 2015 que seria uma missão impossível, jurando de pé juntos que ele só deixaria cerca de 5 mil homens dos 10 mil até então presentes.

O Pentágono não concorda e o mais provável é que o Estado-Maior vença: um contingente de 10 mil soldados americanos permanecerá no local até o final de 2016, em uma "missão de assistência e de contraterrorismo" junto ao Exército afegão.

A Força Aérea americana, requisitada regularmente pelo governo de Cabul, permanecerá também. A guerra continua. No que diz respeito ao front afegão, o comandante-em-chefe Barack Obama teve suas mãos atadas.

Jogo duplo paquistanês

É verdade que esse número está bem distante dos 170 mil soldados enviados para expulsar o regime talibã de Cabul no inverno de 2001. O Taleban abrigava a Al-Qaeda, responsável pelos atentados de setembro desse mesmo ano.

Mas os "estudantes de religião", mais voltados para a guerrilha do que para o debate teológico, voltaram a atacar a partir de 2003. Com suas bases de apoio instaladas no Paquistão, eles não pararam de perseguir o novo regime afegão e seus apoiadores ocidentais. Com terrorismo em grande escala, presença armada ao sul e ao norte do país, eles têm feito a insegurança reinar e atacam quando querem a capital. Nessa primavera de 2016, estão com mais espaço do que nunca.

Eles se recusam a fazer qualquer negociação com Cabul, e lutam em nome de um islã ultra-rigorista que tem como uma das prioridades tirar as meninas da escola. O presidente afegão, Ashraf Ghani, buscou o diálogo, indo atrás de muitos intermediários, desde a China até os emirados do Golfo, mas em vão.

O Taleban se sente fortes a ponto de ameaçar Cabul, pois recebe o apoio de um dos mais influentes da região: o Paquistão.

Oficialmente, Islamabad também tem procurado facilitar uma negociação entre afegãos. Na prática, o Exército e o serviço secreto paquistanês têm cuidado do Taleban afegão, fornecendo hospedagem e alimentação.  Eles apoiam, entre outros, o braço mais bárbaro do grupo, a rede Haqqani.

O jogo duplo paquistanês está mais explícito do que nunca. O Exército, um Estado dentro do Estado, cultiva a mesma obsessão: na hipótese de uma grande guerra com o inimigo indiano, o Afeganistão deve servir de base de apoio para o Paquistão. O Afeganistão deve oferecer ao Exército paquistanês a "profundidade estratégica" da qual ele precisaria.

Fantasia de militares estrategistas ou um álibi cuidadosamente preparado pelo estado-maior paquistanês para justificar o lugar de um enorme complexo militar-industrial no Estado? De qualquer forma, o Taleban é o instrumento de Islamabad para ter influência sobre o Afeganistão e impedir a Índia de ter ali um papel preponderante. O Paquistão está sustentando a guerra do Afeganistão.

Talvez tenha sido isso que acabou fazendo com que um homem tão plácido quanto Barack Obama perdesse a paciência.

No dia 21 de maio, com o consentimento expresso da Casa Branca, um drone americano atirou contra um táxi branco que havia pego seu passageiro na fronteira iraniana e se encaminhava para o leste, provavelmente rumo à cidade de Quetta, através do Baluchistão paquistanês. No carro que foi pulverizado, havia dois corpos carbonizados: o do líder dos talibãs afegãos, mulá Akhtar Mansur, um protegido de Islamabad que vivia no Paquistão sem se esconder, e o do taxista, Muhammad Azam.

Nunca os Estados Unidos haviam atirado a partir de um drone contra essa região do Baluchistão, embora sua capital Quetta abrigue a direção do Taleban. A imprensa americana viu ali "uma mensagem" dirigida a Islamabad.

A Casa Branca justificou a operação com o fato de que o mulá Mansur seria contra qualquer tipo de negociação. A partir de seu esconderijo no Paquistão, provavelmente com proteção do serviço secreto paquistanês, para não dizer com o apoio dele, ele comandava a ofensiva em andamento no Afeganistão contra o regime de Cabul e contra as forças americanas.

Sobre o que estaria fazendo no Irã, ele supostamente estava indo visitar sua família. O "Wall Street Journal" apontou para a possibilidade de um "jogo duplo" iraniano. Teerã mantém as melhores relações com o regime de Cabul, mas o Irã também concederia um ligeiro apoio ao Taleban.

Por quê? Para que eles protegessem a fronteira afegã-iraniana, impedindo qualquer tipo de incursão do embrião jihadista seguidor do Estado Islâmico que se instalou recentemente no Afeganistão. No que se diz respeito ao Afeganistão, deve-se pensar em todos os detalhes.

No dia 26 de maio, o Taleban ganhou um novo líder, Haibatullah Akhundzada. Nos Estados Unidos, há quem questione a legitimidade da eliminação de seu antecessor.

Não seria mais eficaz enviar diretamente um sério "drone diplomático" para Islamabad, ameaçando cessar qualquer tipo de cooperação? Porque é quase certo que o novo chefe do Taleban, o "jurista" Akhundzada, especialista em direito islâmico, vai querer manter a frágil unidade da direção de seu movimento... dando continuidade à guerra.

 

Tradutor: UOL

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