Análise: Décadas de negação produziram o radicalismo de Molenbeek

Jean Pierre Stroobants

  • Daniel Berehulak/The New York Times

    Moradoras passeiam pelo mercado de Molenbeek, em Bruxelas

    Moradoras passeiam pelo mercado de Molenbeek, em Bruxelas

Será que políticos, policiais e agências de inteligência realmente não viram nada em Molenbeek, mesmo com reportagens de jornalistas, desde meados dos anos 1990, alertando para a expansão de núcleos radicais nessa parte abandonada de Bruxelas?

Um deles, por exemplo, era o do Centro Islâmico Belga, onde foram doutrinados os assassinos do comandante Ahmed Shah Massoud, morto na véspera do 11 de setembro de 2001. Ayachi Bassam, o xeque sírio que dirigia essa associação fundada em 1997 e que era um local de trânsito para o Afeganistão, reunia ali devotos e "escoteiros muçulmanos". Ele pôde, assim como muitos outros, se movimentar sem problemas durante anos nessa cidade de 100 mil habitantes, sem se preocupar com policiais, convidados a não caçar os clandestinos, que eram em 5 mil na época, segundo estimativas, a "soltar os árabes para não provocar os muçulmanos" e a "sempre levar em conta a política", como afirmou um investigador a Roger Maudhuy.

Esse historiador de origem belga que reside na França conhece Molenbeek, onde ele viveu, e para onde voltou após os atentados de Paris, fomentados por um grupo que tinha suas raízes na comuna, retraçando "25 anos de atentados islâmicos". Pois foi de fato desde os anos 1990 que a população imigrante que vivia ali conheceu correntes fundamentalistas e extremistas. Foi lá também que viveram Abdelhamid Abaaoud, os irmãos Abdeslam, Mehdi Nemmouche e outros assassinos. Somada a uma situação social desastrosa, a influência de certos extremistas evidentemente foi determinante.

Décadas de negação

Então eles realmente não notaram nada, todos aqueles que dirigiam a cidade?

"Por muito tempo se viveu na negação, e a negação explodiu na nossa cara", disse em novembro de 2015, após os ataques de Paris e antes dos de Bruxelas, Françoise Schepmans.

A prefeita liberal de Molenbeek assumiu as rédeas da municipalidade após décadas de gestão socialista que foram "da camaradagem, do clientelismo e do nepotismo", escrevu Roger Maudhuy.

Foram também as décadas do que o autor chama de "guetificação", mas foi sobretudo uma mistura de ingenuidade, cegueira doutrinária e negação de uma série de evidências: a expansão de um pensamento radical, a multiplicação de casamentos de conveniência e de tensões, ou até de uma clara ameaça terrorista, através de sites da internet que não dissimulavam, na época, suas simpatias pela Al Qaeda.

Philippe Moureaux, ex-ministro e ex-vice-presidente do Partido Socialista, dirigiu Molenbeek entre 1992 e 2012. Esse homem de 77 anos, descrito "gentilmente" por um de seus antigos colegas socialistas como um "antigo adorador de ícones stalinistas", também foi questionado por seu ex-diretor de gabinete. Este último afirma que ele foi o "intermediário inesperado das reivindicações mais obscurantistas, enganado pelos fundamentalistas, idiota útil das forças medievais da comuna".

Em uma estratégia de autodefesa apresentada como "sua verdade", Moureaux ousou negar, após os atentados de novembro, que sua comuna fosse um antro europeu de jihadistas e afirmou que, se ele ainda fosse prefeito, ele provavelmente teria sido informado do "terremoto que estava por vir".

Já sua filha declara, como observa Maudhuy, que seu pai é "o símbolo de um modelo de tolerância", cujo pensamento se situaria entre "a guetificação londrina e a hiper-laicidade francesa". Catherine Moureaux, deputada regional, se manifesta contra a proibição do uso do véu, que segundo ela seria uma forma de "fascismo".

O livro de Maudhuy, que é uma ampla compilação às vezes um pouco confusa, não faz uma verdadeira revelação sobre o que levou a uma situação totalmente perniciosa. Mas foi exatamente esse acúmulo de fatos e depoimentos às vezes perturbadores que deveriam preocupar, enquanto políticos, mídia e acadêmicos belgas se preocupam mais em denunciar as críticas injustas que estariam vitimando um país, uma região e uma cidade que estariam fazendo "o que podem".

Sendo que aquilo que eles "podem" é evidentemente muito insuficiente diante de uma ameaça contra a qual o país demorou para tomar providências, preocupado sobretudo com essas incessantes querelas sobre guetificação, que acabaram fracionando suas instituições, seus poderes e seus orçamento. Tudo isso levou a uma falha evidente no exercício das missões básicas, entre elas a segurança pública.

Então em 25 anos ninguém teria visto nada? Deveriam reler a corajosa reportagem "Em imersão", redigida em 2006 (!) por uma jovem jornalista flamenga, Hind Fraihi, de confissão islâmica e expressão árabe. Seu relato profético hoje está sendo traduzido e republicado... na França! Críticas injustas? Não. Lembrança cruel e antecipação daquilo que viria a ser revelado, não menos cruelmente, dez anos mais tarde.

"A reportagem que deveria ter nos alertado!", título usado pelo editor, conta em um estilo sem floreios uma tentativa de desmascarar Ayachi Bassam e, para além disso, os extremistas muçulmanos de Molenbeek.

A jornalista conta sobre seus encontros com grupos que tentam propagar o jihad, suas visitas a livrarias onde livros negacionistas convivem ao lado de títulos que clamam pela morte dos ocidentais, ou sobre as pregações de um imame que lhe gritou que colocasse uma burca se não quisesse queimar no inferno.

Ela também detalha como o jovens são abordados por "homens de barba longa" nas estações de metrô, mas também sobre a declaração de um jovem traficante: "No mercado legal de trabalho, não tenho chance nenhuma. Mohamed de Molenbeek? Se você escreve isso em seu currículo, é a mesma coisa que dizer que é Osama de Tora Bora".

Tradutor: UOL

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