Análise: Saída britânica testaria capacidade franco-alemã de recuperar a Europa

Arnaud Leparmentier

  • Mathieu Cugnot/Reuters

Se porventura os britânicos decidirem sair da União Europeia (UE), finalmente será possível resolver uma antiga lenda: os ingleses é que teriam desde sempre impedido a França e a Alemanha de aprofundarem a integração europeia e a zona do euro.

Após o "Brexit", Paris e Berlim vão propor uma retomada europeia de tudo... exceto do euro. As duas capitais são incapazes de se entender com a aproximação das eleições de 2017.

Do lado francês, seria necessário se comprometer com mais rigor orçamentário e reformas: é impossível para a equipe Valls-Hollande ir além, enquanto dois dos candidatos da direita, Nicolas Sarkozy e Bruno Le Maire, já levaram ao extremo o rigor orçamentário.

Do lado alemão, seria preciso reaprender o sentido da palavra "solidariedade". Não em relação aos gregos, mas no sentido de saber devolver o dinheiro acumulado às custas de excedentes comerciais próximos de 9% do PIB. Investindo ou consumindo, o que faz com que os alemães digam que os franceses têm como plano roubar seu dinheiro.

O "new deal" econômico franco-alemão terá de esperar, portanto é na Europa soberana que François Hollande deverá insistir. É claro, não será dado um pio sobre essas divergências. Em uma linguagem bem clichê, explicarão que, para evitar um desmantelamento da UE, convém consolidar primeiro a Europa de 27 Estados-membros.

É fora do domínio econômico que a Europa mais perderia com o "Brexit". "A saída do Reino Unido equivaleria a 15% do PIB europeu, 30% de sua diplomacia, 40% de sua capacidade militar e metade de sua relevância histórica", analisa Pascal Lamy, ex-diretor-geral da OMC.

Com a crise da migração e os atentados terroristas, é sobretudo em matéria de segurança que a UE é a mais contestada, mas também  a mais esperada. "A Europa não foi construída para isso, mas é por isso que ela está sendo julgada", constata o ministro das Relações Europeias, Harlem Désir.

"A ingenuidade da Europa"

François Hollande está buscando as palavras certas para defender a relevância da convivência europeia, 70 anos depois do discurso de Churchill que propunha, em Zurique, construir "os Estados Unidos da Europa". Mas sem o Reino Unido.

Será preciso aliar propostas e coreografia política: Hollande diante dos franceses, na sexta-feira (24); Hollande com seus amigos socialdemocratas e o grego Alexis Tsipras, na segunda-feira (26) de manhã no palácio do Eliseu ou em Roma; Hollande em Berlim, à tarde, para preparar junto com Angela Merkel o Conselho Europeu do dia seguinte.

A primeira etapa é a reforma do espaço Schengen, com todo um arsenal de proteções: a transformação da Frontex em polícia europeia das fronteiras; a exigência de passaportes biométricos para os imigrantes africanos e árabe-muçulmanos; a obrigação de se inscrever pela internet antes de chegar à Europa, como exigem os americanos com seu sistema Esta.

Em compensação, os franceses não querem uma revisão do sistema de asilo de "Dublin" nem verdadeiras cotas: cada um que acolha seus refugiados, e a Europa estará bem guardada. "A Europa não pode viver em um estado de ingenuidade internacional", acredita Désir.

A segunda etapa é a da defesa. A Alemanha viu seu orçamento militar ultrapassar o da França, e Paris prezou seu engajamento após os atentados de novembro de 2015. O mais fácil deveria ser a cooperação industrial nos tanques ou nos drones.

É claro, ser europeu por princípio às vezes leva a desastres, como o do Airbus de transporte militar A400M. Mas não são obrigados a repetir a partida Rafale-Eurofighter, que a França deveria ter ganho se os alemães aceitassem não ser sempre os melhores.

A terceira etapa é dinamizar a política de desenvolvimento e de imigração com a África, como esboçou a cúpula de Malta, no outono.

Será que essas propostas tão medianas podem encontrar respaldo na França e na Alemanha? Segundo uma pesquisa do Pew Research Center, publicada no dia 13 de junho, três quartos da população francesa e alemã queriam que a UE tivesse um papel mais forte no mundo.

Os franceses, pois 46% deles acreditam que seu país perdeu influência nos últimos dez anos e querem compensar esse declínio. Os alemães, pela razão inversa: 62% deles acham que seu país exerce hoje um papel mais importante e querem assumi-lo.

Um terço da população dos dois países é favorável ao aumento dos gastos com defesa. É verdade que os franceses são mais propensos a defender o uso da força, enquanto os alemães são mais multilateralistas e inclinados aos direitos humanos: no entanto, o militarismo não é mais proibido e a reaproximação franco-alemã pode ser sentida. Muito mais que em matéria econômica, pelo menos.

A grande diferença é nesse ponto. Fartos das transferências de empresas para o exterior e do dumping social, há duas vezes mais franceses do que alemães contrários a um aumento das importações provenientes de países em desenvolvimento (41% contra 19%), a investimentos de empresas nesses países (31% contra 17%), e com medo de que a globalização influencie nos salários e nos empregos (45% contra 24%) e, de forma mais geral, críticos à política econômica da UE (66% contra 38%). Logicamente, os franceses são muito mais hostis à UE (61%) do que os alemães... e os britânicos (48% cada).

Paradoxalmente, é provável que a saída dos britânicos recupere a Europa em um domínio onde eles eram considerados indispensáveis, o da defesa e o da segurança, e faça ressurgir entre Paris e Berlim uma querela que nos anos 1980 foi vencida pelos anglo-saxões: a da Fortaleza Europa.

Tradutor: UOL

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