Pela primeira vez em 9 anos, a Argentina revela índices de inflação "certificados"

Chloé Hecketsweiler

  • Juan Mabromata/AFP

    Manifestante protesta contra as tarifas de água e luz, em Buenos Aires, na Argentina

    Manifestante protesta contra as tarifas de água e luz, em Buenos Aires, na Argentina

Transparência das estatísticas é uma prioridade para o presidente Mauricio Macri

A Argentina decidiu acabar com os números adulterados. Depois de publicar durante anos dados estatísticos distantes da realidade, ela revelou, na última quarta-feira (15), seus primeiros índices "confiáveis" sobre a inflação. Calculada segundo uma nova metodologia, a alta dos preços bateu em 4,2% em maio de 2016.

Quando chegou ao poder no dia 10 de dezembro, o presidente liberal argentino, Mauricio Macri, havia prometido transparência, para tranquilizar os investidores. Empresário e filho de uma das famílias mais ricas da Argentina, ele fez da reconquista dos mercados uma de suas prioridades.

No entanto, levará um tempo até ajustar que as coisas se ajustem. O governo da presidente de esquerda Cristina Kirchner havia se acostumado a manipular as estatísticas do país desde 2007.

Durante vários anos, o governo anunciou uma inflação de 10%, enquanto o Ministério do Trabalho encorajava um aumento salarial da ordem de 25%, um número mais próximo da realidade da alta dos preços.

Para se orientar, os investidores confiavam mais nos dados publicados pelos institutos econômicos privados. Segundo o índice Congresso —uma média dessas estimativas—, nos cinco primeiros meses de 2016 a inflação teria sido de 23,6%.

Condenado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) por suas publicações mentirosas, o Executivo havia corrigido em 2014 o índice dos preços, mas a instituição se manteve cética. Dessa vez, o governo não hesitou em apelar aos especialistas do Fundo para revisar sua metodologia.

Retração do PIB

O trabalho levou seis meses, um período durante o qual o Instituto Nacional de Estatísticas, o Indec, suspendeu qualquer tipo de publicação. Para o ministro do Orçamento e das Finanças, Alfonso Prat-Gay, essa "normalização" é um "momento muito importante".

"Não haverá ingerência do governo nos números do Indec", ele prometeu. Um sinal encorajador é o fato de que no final de fevereiro, o FMI tornou públicos três relatórios sobre a situação econômica do país em 2013, 2014 e 2015.

Essa grande faxina é consequência do acordo firmado no início do ano com os fundos abutres que há anos exigem o pagamento de seus títulos de dívida. Em troca de um cheque de US$ 4,65 bilhões (R$ 16 bilhões), a Argentina conseguiu com que eles abandonassem suas medidas cautelares, o que permitiu com que ela voltasse com tudo para os mercados financeiros.

Excluído desde 2001, ano em que anunciou o calote, o país conseguiu levantar em meados de abril US$16,5 bilhões.

"A demanda passava de 60 bilhões. Resultado: a Argentina se financiou em uma taxa bem melhor que o Brasil", observa Daniela Ordonez, economista da Euler Hermes.

Ao chegar ao poder, o governo havia prometido conter a inflação em 2016. O ministro do Orçamento e das Finanças esperava, em janeiro, levar a alta dos preços para 20 a 25% neste ano, 12%-17% em 2017, 8%-12% em 2018 e 5% em 2019, final do mandato de Macri.

Segundo o Indec, os dois setores que sofreram os maiores aumentos de preços em maio foram os de serviços, com +5,2%, e o de transportes, com +5,6%.

O impacto sobre o poder de compra dos argentinos tem sido ainda mais forte pelo fato de que Mauricio Macri tomou desde o início do ano uma série de medidas para reduzir o deficit orçamentário herdado do governo anterior. Ele cortou os subsídios para as contas de gás, de eletricidade e de água, aumentou as tarifas e demitiu vários funcionários públicos.

Tudo isso acabando com o controle de capitais, o que teve como efeito imediato fazer com que a moeda despencasse: agora um dólar vale quase 14 pesos, contra 9 um ano atrás.

"Vai se tornar cada vez mais difícil para os argentinos comprarem bens importados", ressalta Daniela Ordonez. "O principal risco é social: as greves e as manifestações vêm se multiplicando desde o início do ano, e o governo precisa lidar com um ambiente econômico complicado."

O Brasil, principal parceiro comercial da Argentina, está passando por uma grande recessão. Depois de mais de uma década de crescimento, o país dirigido por Macri poderá seguir o mesmo caminho. O Banco Mundial prevê uma retração do produto interno bruto (PIB) de 0,5% em 2016, com uma recuperação em 2017.

"Mas, no fundo, ninguém sabe nada", acredita Martine Durand, diretora de estatísticas da OCDE. "Ainda que sejam confiáveis, os novos números da inflação não dizem muito porque não há comparação possível. Levará tempo para ver com mais clareza."

No final de junho, o Indec comunicará números revisados do PIB, com dados sobre diversos anos.

Já os investidores estão tentando sentir o terreno.

"As empresas instaladas no Brasil estão indo para Buenos Aires, e há cada vez mais europeus indo e voltando para lá", conta Patrick Patelin, advogado associado do escritório CMS Bureau Francis Lefebvre.

Outro sinal é o fato de estar sendo organizado na capital argentina o próximo Fórum Econômico Mundial dedicado à América Latina.

"Ainda que todos os problemas não estejam resolvidos, a confiança está voltando", ele acredita.

Tradutor: UOL

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