Análise: América Latina foi tomada por populismos de direita e de esquerda

Paulo A. Paranagua

  • Meridith Kohut/The New York Times

    11.jun.2012 - Eleitor segura bandeira em apoio a Hugo Chávez e observa multidão em comício em Caracas, Venezuela

    11.jun.2012 - Eleitor segura bandeira em apoio a Hugo Chávez e observa multidão em comício em Caracas, Venezuela

A eleição da filha do ditador Alberto Fujimori (1990-2000) à Presidência do Peru foi evitada por pouco: somente 40 mil votos separaram Keiko Fujimori, populista de direita, de Pedro Pablo Kuczynski, de centro-direita. Durante o segundo turno da eleição presidencial, no dia 5 de junho, os expatriados apoiaram em massa este segundo, com exceção de duas comunidades que somam milhares de eleitores: os peruanos que residem no Japão, que compartilham a ascendência japonesa dos Fujimori, e aqueles que foram morar na Venezuela. Uma curiosa convergência é o fato de que em um país dominado há 17 anos pelo populismo de esquerda do ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, a maioria dos expatriados peruanos tenha dado seus votos à populista de direita.

Se poucos observadores contestam o rótulo de "populista de direita" no caso de Keiko Fujimori, outros rejeitam o conceito de populismo em relação a forças de esquerda. Entre estes, estão conhecedores da América Latina, e não dos menores, como Alain Rouquié, ex-embaixador da França no Brasil e presidente da Casa da América Latina. Para eles, essa denominação seria pejorativa, ainda que o cientista político argentino Ernesto Laclau tenha reivindicado sua conotação positiva. O fato de que a maior parte dos populistas na Europa seja de extrema-direita faz com que a ideia seja considerada com cuidado.

No entanto, na América Latina o populismo tem uma tradição, tanto nas ciências humanas quanto nas estratégias políticas. Os três grandes clássicos são Getúlio Vargas no Brasil (1930-1945), o general Lázaro Cardenas no México (1934-1940) e o general Juan Perón na Argentina (1946-1955). Esses três líderes criaram movimentos políticos que sobreviveram a eles e marcaram por muito tempo seus países.

Após a crise de 1929, eles conseguiram canalizar a radicalização popular através de políticas sociais que melhoraram a vida dos assalariados e dos camponeses, inspirando-se no código trabalhista de Benito Mussolini. Embora a Cidade do México e Buenos Aires tenham se beneficiado muito com a recepção reservada aos republicanos espanhóis, esses três países fecharam as portas para os judeus da Europa (sob pretexto de que não se tratava de perseguição política, mas religiosa), ainda que alguns "Justos entre as Nações" tenham salvado a honra de seu país. Em compensação, Perón recebeu de braços abertos criminosos nazistas, ustase (organização croata de extrema-direita) e outros "colaboradores".

No século 20, a esquerda latino-americana não se confunde com o populismo, mas a natureza desse fenômeno híbrido, tão maleável quanto um camaleão, divide os militantes. Comunistas, socialistas e militantes de extrema-esquerda se organizaram contra os populistas e sua influência sobre o movimento sindical. Em 1980, quando o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva fundou o Partido dos Trabalhadores (PT), ele pretendia se diferenciar ao mesmo tempo do antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do partido trabalhista criado por Vargas e liderado por Leonel Brizola.

Em 1999, a ascensão do tenente-coronel Hugo Chávez ao poder na Venezuela dividiu a esquerda, como acontecera trinta anos antes com o regime do general Juan Velasco Alvarado no Peru (1968-1975). O reformista militar peruano causou perplexidade e depois a divisão da esquerda e da extrema-esquerda. Já o chavismo acentuou a fragmentação da sociedade venezuelana. A social-democracia local, o Ação Democrática, pilar da Internacional Socialista na América Latina durante as ditaduras militares, foi fragilizada, enquanto o Partido Comunista venezuelano (ou o que restava dele) aderia ao novo poder, impulsionado pelo aumento no preço do petróleo.

Uma tendência geral

No início dos anos 2000, tanto na América Latina como na Venezuela, era possível falar em "duas esquerdas" -- como fez Teodoro Petkoff, uma figura da esquerda venezuelana --e fazer a distinção entre reformistas e populistas. No Fórum Social Mundial de Porto Alegre, a concorrência e a rivalidade eram perceptíveis. Contudo, os chavistas acabaram atraindo-- e contaminando-- uma boa parte da esquerda latino-americana. Assim, o PT de Lula compensou a ausência de reformas estruturais com o apoio a Cuba e à Venezuela, e acreditou piamente na harmonia das cúpulas dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). A diplomacia se curvou perante a ideologia e a política afundou diante dos petrodólares.

O populismo continua sendo uma tendência geral da política latino-americana, que é incapaz de estruturar partidos coerentes e duradouros, que possam fazer alianças com bases programáticas. A tentação populista existe tanto à esquerda quanto à direita, como atestam os Fujimori ou o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe. No entanto, não foi toda a esquerda que cedeu aos apelos populistas, como mostram as coalizões governamentais de centro-esquerda no Chile e no Uruguai.

O fim do super ciclo das commodities não é a única causa das mudanças que vêm acontecendo na América Latina desde o final de 2015. As razões são propriamente políticas e particulares a cada país. Com a derrota do peronismo na Argentina e do chavismo na Venezuela, o eleitorado escolheu mover para o centro em vez de uma mudança de 180 graus. Ao contrário do que alegam os perdedores, não é o advento de uma direita dura, e muito menos a volta das ditaduras. As eleições estão sendo decididas no centro e portanto pressupõem alianças, negociações para chegar ao indispensável consenso. Recusar a alternância e as convergências é negar as realidades eleitorais ou institucionais. Os populistas ignoram o Estado de direito e as regras elementares da democracia.

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Tradutor: UOL

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