Assessor de Trump é uma de suas ligações com a Rússia de Putin

Isabelle Mandraud

  • Gerry Broome/AP

O candidato republicano e seus assessores mantêm relações de negócios com a Rússia

Começou já com a primeira pergunta feita por um jornalista da rede de televisão Zvezda, que pertence ao Ministério da Defesa russo: "Algumas pessoas nos Estados Unidos acham que o senhor é um cara mau por ser amigo da Rússia. É isso mesmo?"

"Sem comentários", respondeu Carter Page com um sorriso nervoso.

Convidado na quinta-feira (7) pela Nova Escola de Economia de Moscou para uma palestra sobre "a evolução da economia mundial", o assessor de política externa de Donald Trump se ateve à sua linha, que consiste em não dizer nada que possa alimentar mais os questionamentos sobre as perturbadoras ligações que surgiram entre o candidato republicano à eleição presidencial americana e a Rússia de Vladimir Putin.

Lobista reconhecido

"No comment", repetiu Page, questionado sobre possíveis contatos de alto nível durante sua visita, enquanto seu discurso era transmitido ao vivo pelo Katehon, um think tank dirigido pelo oligarca russo ultraortodoxo Konstantin Malofeev, pelo assessor econômico de Vladimir Putin, Serguei Glaziev, e ainda pelo ideólogo nacionalista e defensor do eurasismo, Aleksandr Dugin, que promoveu pelo Twitter seu convidado americano.

Nomeado em março para a equipe dos conselheiros de Trump, Page, de 44 anos, não é totalmente desconhecido na Rússia.

Enviado a Moscou em 2004 para abrir um escritório do Merril Lynch, quatro anos depois de ter sido contratado pelo banco de investimentos americano, Page criou ali sólidas relações de negócios.

Ele assessorou, entre outros, a gigante do petróleo Gazprom em uma de suas maiores operações financeiras, a compra por US$ 7,4 bilhões do Sakhalin 2, um campo de hidrocarbonetos no mar de Okhotsk, da Shell, em 2007. Nessa época, Vladimir Putin havia começado a restabelecer o controle estatal do grupo parcialmente privatizado nos anos 1990.

Pouco após sua nomeação à equipe de campanha do candidato republicano, o conselheiro de Trump contou à agência Bloomberg ter recebido em sua caixa de entrada inúmeras mensagens "positivas" de seus contatos russos. "Tanta gente que conheço e com quem trabalhei foi duramente afetada pelas sanções", ele declarou.

Provavelmente ele também, pois Page, que voltou a Nova York em 2007 para montar sua empresa Global Energy Capital, ainda está entre os acionistas minoritários da Gazprom, que faz parte da lista de empresas russas sob sanções americanas após a anexação da Crimeia e o início do conflito armado no leste da Ucrânia.

O banqueiro não é o único elo que liga Trump à Rússia de Putin. Paul Manafort, recrutado ao mesmo tempo em que Page para organizar sua campanha, também possui sólidas conexões com o "mundo russo" caro ao líder do Kremlin. Lobista reconhecido, ele assessorou Viktor Yanukovitch, sem no entanto conseguir recuperar a imagem do ex-presidente ucraniano que hoje está refugiado na Rússia.

Segundo o site da revista "Slate", Richard Burt, um veterano da administração Reagan que também começou a assessorar Trump, faria parte do conselho de administração do Alfa Bank, um grande banco comercial russo e também teria um pé na Gazprom através de um fundo de investimentos.

Em um longo artigo dedicado a Trump com o título "A marionete de Putin", a "Slate" descreveu os posicionamentos críticos de Burt sobre a Otan, que é a favor de uma cooperação mais "realista" com a Rússia.

Hackers

Um outro homem também aparece implicitamente nas redes de Trump: Felix Sater, um judeu russo imigrante de terrível reputação, hoje em problemas com a Justiça americana por suas supostas ligações com a máfia.

No dia 17 de maio, o "Washington Post" descreveu, com base em depoimentos do interessado, a chegada de Sater "à órbita" do magnata candidato, através de sua empresa Bayrock Group, que possui seus escritórios na Trump Tower.

"Documentos provam que Trump, em 2005, fechou um contrato de um ano com o Bayrock Group para desenvolver um projeto na capital russa," descreve o jornal. "Sater disse que havia conhecido um grupo de investidores russos interessados", inclusive "para um arranha-céu de luxo". O bilionário candidato teria lhe pedido para acompanhar seu filho durante uma viagem de prospecção a Moscou. Trump afirma que nem reconheceria o interessado se o visse pela frente.

Essas relações alimentaram outras suspeitas, ainda mais graves, após o hackeamento do Comitê Nacional Democrata, o órgão do partido da candidata rival Hillary Clinton, e da Fundação Clinton.

A empresa de cibersegurança CrowdStrike, que revelou esse hackeamento, durante o qual dados compilados sobre Trump foram roubados, o atribuiu a dois grupos de hackers ligados ao governo russo. A operação em seguida foi reivindicada por um hacker que atende pelo pseudônimo de "Guccifer 2.0". O Kremlin, por sua vez, negou qualquer envolvimento.

O próprio candidato à eleição presidencial americana foi várias vezes para a ex-URSS, a partir de 1987, e depois à Rússia, chegando a organizar em Moscou o primeiro concurso de Miss Universo em novembro de 2013. "Vocês acham que o Putin virá?", ele perguntou no Twitter. "E se vier, será que ele vai virar meu novo melhor amigo?"

Deslumbrado com a perspectiva de lucrativos contratos para a construção de hotéis de luxo, Trump afinal não os obterá. Mas ele mesmo fez algumas amizades no país, e dois websites foram criados para promover sua candidatura, em russo. Através da mídia, Donald Trump e Vladimir Putin trocaram amabilidades, ainda que os dois aparentemente nunca tenham se encontrado.

"Um homem forte", disse o americano a respeito do presidente russo; "um homem brilhante e notável", devolveu Putin a respeito de Trump, mas assegurando que o Kremlin "trabalharia com qualquer futuro presidente americano".

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Tradutor: UOL

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