Os destinos cruzados de refugiados da África e Oriente Médio para chegar à Europa

Maryline Baumard

  • Gabriel Bouys/AFP

    26.mai.2016 - Refugiados esperam a bordo do navio de resgate "Aquarius" no porto de Cagliari, Itália, dois dias depois de serem resgatados perto da costa da Líbia

    26.mai.2016 - Refugiados esperam a bordo do navio de resgate "Aquarius" no porto de Cagliari, Itália, dois dias depois de serem resgatados perto da costa da Líbia

Venham eles da África ou do Oriente Médio, os imigrantes passam pelas mesmas dificuldades no Mediterrâneo

Barulho insuportável, cheiro nauseante de gasolina, trilhas de vômito no chão... Quando a embarcação de salvamento do navio Aquarius se aproxima, na última segunda-feira (18), do bote inflável onde se amontoam 136 imigrantes, ela entra em um outro mundo: um lugar que a morte tentou invadir.

Ali, como mostra o sal em seus joelhos, homens choraram enquanto jogavam para fora a noite inteira a água das ondas que entrava; mulheres rezaram e gritaram enquanto abraçavam seus filhos para preservá-los. Na segunda-feira às 7h30 da manhã, enquanto as equipes de resgate da SOS Méditerranée, a ONG de salvamento em mar que fretou o Aquarius, já estavam em ação, distribuindo coletes salva-vidas, os gritos noturnos se estendiam pelo mar.

No entanto, as 27 mulheres e 6 crianças logo foram retiradas, uma delas em estado de coma por ter respirado gasolina. Quando Merline, uma jovem camaronesa de 27 anos, chegou à ponte do Aquarius, ela cambaleou, pois não sentia mais seus pés que foram esmagados por um homem que se sentou sobre ela desde a partida nas praias líbias, por volta da meia-noite.

Pouco tempo e muitas lágrimas depois, a consciência de estarem vivos foi aos poucos se reinstalando entre os sobreviventes. "Os coiotes nos haviam dito que a travessia duraria de duas a três horas. Depois de quatro ou cinco horas, ainda estávamos no meio do mar e não tinha mais gasolina. Entramos em pânico. Todo mundo viu a morte de perto", conta Aker, 34, marido de Merline.

Naquele momento, ele se arrependeu de ter decidido partir, motivado por seu casamento com uma mulher de uma etnia diferente da sua, e consequente exclusão. "Ao mesmo tempo, eu não podia dar meia-volta. Na Líbia, eu havia pago o coiote assim que cheguei: 800 euros para mim, 900 para minha mulher", ele justifica, para tentar exorcizar seu medo.

Após quatro dias de tempestade, a chegada do bote de Merline e de seu marido marcou a volta dos imigrantes ao Mediterrâneo. Segunda-feira não foi um novo recorde, só lembrou que a temporada de migrações atingia seu auge nessa rota onde mais de 2.800 pessoas já morreram em 2016.

Desde outubro de 2014 e o fim do "Mare Nostrum", a operação italiana de resgate no Mediterrâneo, o socorro do Estado não existe mais e a maior parte do trabalho fica a cargo das ONGs. Elas posicionam seus barcos o mais perto possível das águas territoriais líbias, para recuperar rapidamente os botes à deriva.

Já os navios da Frontex ou da operação "Sophia", contra os coiotes, adotaram outras estratégias que correspondem às suas missões.

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Em alto-mar, a leste de Trípoli

Então a SOS Méditerrannée está sempre vigilante a bordo do Aquarius para ir se adaptando. Hoje, as equipes de resgate estão preocupadas: "Nos últimos resgates, os imigrantes não tinham mais celulares para pedir socorro, como acontecia antes", diz alarmado Albert Mayordomo.

O salvamento do bote de Merline, assim como do anterior, no dia 11 de julho, foi lançado depois que o Aquarius os viu, e não por causa de um pedido de socorro. Isso complica em muito o trabalho e aumenta os riscos.

De fato faltam navios de salvamento na área. Então, para otimizar as forças em torno de Trípoli, a Maritime Rescue Coordination (MRCC) de Roma, o centro encarregado dos resgates, todos os dias organiza um verdadeiro balé, tentando levar em conta o maior número de considerações possível.

Assim, a Médicos Sem Fronteiras (MSF), a mais presente na região, tem por princípio não efetuar transferências nem aceitá-las a partir de barcos militares, para preservar sua independência. No entanto, essa é uma regra que a ONG aceita deixar de lado "caso não exista outra solução ou caso prejudique a atividade de salvamento no mar". Como a SOS Méditerranée não tem essa reserva, foi seu navio que salvou sobreviventes recolhidos por um navio de guerra na segunda-feira.

Depois de lhe passar a missão de prestar socorro aos passageiros do bote de Merline, a MRCC de Roma de fato pediu ao Aquarius que aceitasse a bordo 112 migrantes recolhidos em uma embarcação italiana. Mal foi efetuada essa transferência, um novo chamado da MRCC enviou o Aquarius para investigar um barco de madeira que poderia conter 500 pessoas a algumas dezenas de milhas de lá.

"Logo descobriram que era um barco pesqueiro", explica o capitão Alexander Moroz, a quem Roma pediu que se dirigisse a oeste de Trípoli para transferir seus 248 migrantes para o Dignity-I, o navio da MSF, antes de voltar a se posicionar no leste da capital líbia, onde ele é o único barco fretado por uma ONG.

Em seguida o Dignity-I conseguiu avançar para o porto de Pozzalo, na Sicília, com 431 migrantes a bordo, sendo uma dezena de sírios. É cedo demais para dizer se a presença desse pequeno grupo é um sinal precursor do retorno dos refugiados sírios para o Mediterrâneo central após o acordo entre UE e Turquia do dia 20 de março. As nacionalidades nessa rota são as mais diversas.

Merline e seu marido camaronês não são casos isolados. Muitos cidadãos da África francófona estão atravessando o Mediterrâneo neste verão. Desde o dia 21 de abril, entre as 8.023 pessoas recolhidas pelo Dignity-I e pelo Bourbon-Argos, os dois navios fretados pela MSF, bem como pelo Aquarius, camaroneses, malineses e marfinenses vêm chegando misturados a cidadãos de país com maior probabilidade de ganharem asilo como a Eritreia, o Sudão e a Somália.

Merline viajou ao lado de Asmenam, uma eritreia de 22 anos, que estava indo "buscar uma vida em paz em qualquer lugar da Europa". As duas tinham certeza de que independentemente das condições de vida na Europa, elas não seriam piores do que aquelas que elas já haviam vivenciado. No entanto, uma delas terá chances de obter o asilo e a transferência para outro país a partir de um centro de acolhimento ("hot spot"). A outra, não.

Tradutor: Lana Lim

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