Sírios na Turquia temeram deportação após tentativa de golpe de Estado

Benjamin Barthe

  • Bulent Kilic/AFP

    Policiais militares na região de Uskudar durante tentativa de golpe

    Policiais militares na região de Uskudar durante tentativa de golpe

O fracasso do golpe contra Erdogan tranquilizou os refugiados, convencidos de que sofreriam com a junta militar

No sábado (16), após o golpe de Estado fracassado na Turquia, um jovem sírio, Mohamed Kaakat, prestou um grande serviço à polícia de Ancara. Esse ex-soldado do Exército regular, que servia em seu país dentro de uma unidade de blindados antes de desertar e se juntar à rebelião, levou até sua base um tanque abandonado bem no meio da capital turca pelos golpistas.

Sua aventura, imortalizada por uma selfie tirada de dentro do blindado, logo se propagou pelas páginas do Facebook de seus compatriotas exilados na Turquia, alçando-o ao patamar de "battal" (herói).
 
Essa repentina popularidade ilustra o alívio sentido pelos 2,7 milhões de sírios refugiados nesse país, desde o fracasso do golpe de Estado. Isso porque na noite de 15 de julho, quando os conspiradores anunciaram ter tomado o poder, uma angústia se abateu sobre a comunidade.
 
"Acho que naquele momento todos nós morremos de medo", resume Assad al-Achi, diretor de uma ONG humanitária síria instalada em Gaziantep, no sul da Turquia. A primeira coisa que pensei foi: "Onde está meu passaporte?"
 
Centenas de milhares de sírios logo se imaginaram voltando para o caminho do éxodo, ou senão sendo enviados de volta para seu país pela junta militar que pretendia assumir o comando do país. Na cabeça deles, aqueles que queriam derrubar o presidente Recep Tayyip Erdogan, esse inimigo declarado do regime de Bashar al-Assad que lhes havia aberto as portas de seu país, teriam necessariamente uma política diferente sobre a questão síria.
 
"Nós recebemos uma lição"
 
"Pensei comigo mesmo: 'khalass!' ("é o fim"), vou voltar para Aleppo", conta Said Eido, um ativista dos direitos humanos. "Os generais nunca teriam permitido que continuássemos nosso trabalho. Se vamos arriscar nossa vida, que seja em nosso país."
 
"Tivemos a experiência do golpe de Estado de 2013 no Egito", diz Noura al-Jizawi, membro da Coalizão Nacional Síria, o principal partido anti-Assad. "Os refugiados pagaram caro e o novo governo se aproximou de Damasco."
 
Em Gaziantep, que abriga 300 mil sírios dos 2 milhões de habitantes da região de Aleppo, a noite de 15 de julho se passou sem violência. Assim que se soube do golpe de Estado, a prefeita, Fatma Sahin, uma figura do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), partido islâmico conservador do presidente Erdogan, enviou caminhões basculantes para bloquear a grande base militar vizinha, suspeita de participar do complô.
 
Mas as notícias de Istambul, de ares tristemente familiares, com tiros de soldados contra manifestantes e bombardeios por helicópteros, tiraram o sono da maior parte dos sobreviventes do inferno sírio. "Achamos que a guerra civil ia voltar para nós, já que nenhum outro país facilitou nossa vida como a Turquia", diz Farès Diba, um morador de Aleppo que abriu uma agência de produção audiovisual.
 
Passadas essas horas dramáticas, os sírios de Gaziantep voltaram a respirar. Alguns deles, tomados pela febre nacionalista que se abateu sobre o país, chegaram a ir protestar na praça central, que assim como todas as grandes esplanadas da Turquia todas as noites tem sido palco de manifestações a favor do presidente Erdogan.
 
"Se tivessem me oferecido a nacionalidade turca antes do golpe do Estado, eu teria recusado. Mas hoje eu aceitaria de bom grado", exclama Jamal Jneid, membro do Conselho Revolucionário de Aleppo, referindo-se ao plano do presidente turco de naturalizar uma pequena parte dos refugiados. "Nós recebemos uma lição. Os turcos nos mostraram como se salva uma democracia", diz Said Eido.
 
Os expurgos em massa que estão sendo efeitos entre o Exército, os públicos e a mídia não chamam muito sua atenção. A maioria deles os considera isso como medidas de salvação pública e são raros os que veem ali um abuso autoritário.
 
Os refugiados estão mais preocupados com o impacto do golpe fracassado sobre a política de Ancara na Síria. Será que a demonstração de força de Erdogan vai levá-lo a desistir da reorientação diplomática que havia esboçado nas últimas semanas, ao iniciar uma reaproximação com a Rússia, protetora de Bashar al-Assad, e lançando sinais de paz na direção de Damasco?
 
No dia 13 de julho, o primeiro-ministro turco, Binali Yildirim, havia anunciado que queria "desenvolver boas relações" com a Síria. Essa declaração surpresa, que veio após um acordo de reconciliação com Israel, foi analisada como reveladora do isolamento diplomático de Ancara e do fracasso de sua política de confrontação com Damasco.
 
"Uma troca"
 
"O Estado turco está saindo fortalecido da crise. Ele desmascarou seus inimigos, por que ele estenderia a mão para um regime tão frágil quanto o de Damasco?", ressalta Zakaria Malahifji, conselheiro político de uma brigada rebelde de Aleppo. "A reaproximação com Moscou é simplesmente estratégica, está sendo feita para influenciar Washington enquanto não é escolhido o próximo presidente americano", alega Basel al-Junaidy, diretor do think tank Orient Policy Center. "Quanto ao regime sírio, ele não tem muito a oferecer. Ancara não teria nada a ganhar tirando-o de seu isolamento."
 
Já outros observadores sírios acreditam que o plebiscito que o presidente turco organizou lhe dá a legitimidade necessária para negociar uma virada diplomática complicada. "Não ficaria surpreso de ver Binali Yildirim em Damasco daqui a alguns meses", conta um analista sob condição de anonimato. "A prioridade dos turcos é impedir que os curdos sírios tomem controle da zona de fronteira. A oposição síria, infelizmente, não pode ajudá-los nesse sentido. Poderia haver ali uma troca. Os turcos soltariam as brigadas do leste de Aleppo, que estão cercadas, e em troca o regime de Assad passaria à ação contra os curdos."
 
Para os líderes dos grupos armados, que estão usando Gaziantep como base de apoio, um pacto como esse seria um ultraje. Nesse caso hipotético, eles não teriam outras alternativas senão engolir seu orgulho.
 
Segundo um membro da comunidade síria muito bem informado, pelo menos sete refugiados, que criticaram Erdogan na imprensa ou nas mídias sociais nos últimos dias, receberam uma notificação de expulsão, dando-lhes quatro dias para deixar o país. A hospitalidade turca tem seus limites.
 

Tradutor: UOL

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