Após atentado com homem-bomba, cidade alemã não quer ceder ao ódio contra refugiados

Cécile Boutelet

  • Michaela Rehle/Reuters

    Polícia isola área onde um homem matou pessoas a tiros próximo a Ansbach, no norte da Baviera, na Alemanha

    Polícia isola área onde um homem matou pessoas a tiros próximo a Ansbach, no norte da Baviera, na Alemanha

Os habitantes da tranquila cidade da Baviera estão chocados com o primeiro atentado suicida jihadista em solo alemão

Naquela tarde, Moritz colocou ao pé do muro um vasinho de flores, no local onde a Pfarrstrasse forma uma esquina. Ele tomou o cuidado de deixar ao lado um regador azul, acompanhado de uma mensagem: "Não deixe a humanidade secar." Foi lá, em pleno coração do centro antigo da cidade de Ansbach, que um refugiado sírio de 27 anos se explodiu, no domingo (24), assinando o primeiro atentado suicida com motivação jihadista em território alemão. Quinze pessoas ficaram feridas no ataque, que visava perpetrar um banho de sangue entre os 2.500 espectadores de um show ao ar livre. Em frente à flor de Moritz, colocado no chão contra uma cadeira, um outro cartaz dizia: "Vocês não terão o meu ódio."

Moriz adiou suas férias por causa do atentado. "Entre as vítimas de domingo, havia pessoas em estado de choque. Elas não podiam esperar três semanas para que cuidassem delas", conta esse assistente social especialista em situações de crise. Ele relata que algumas jovens que estavam no show de domingo à noite achavam que iam morrer. "Elas estavam no colégio de Ansbach que testemunhou o ataque a machadadas de um aluno louco em 2009, e de repente imagens terríveis lhes voltaram à memória. Ansbach, nossa ilhota de tranquilidade em tempos normais, voltava a ser vítima de uma violência cega."

"Por que Ansbach?", se perguntaram muitos habitantes, três dias depois do atentado. E por que a Baviera foi alvo, em menos de uma semana, de três ataques violentos, dois deles perpetrados por refugiados que juraram lealdade ao Estado Islâmico (EI)? Sob o Sol de julho, a próspera cidadezinha de 40 mil habitantes, de desemprego quase inexistente, se recusa a abandonar sua alegria de viver. O impecável centro da cidade ressoa com conversas alegres e risadas nas mesas dos cafés. Mas uma certa ansiedade veio à tona. "Minha mãe não para de me ligar quando estou fora de casa. A gente hesita um pouco em sair para manifestações públicas", conta Maria, estudante de 17 anos.

Refugiado sírio provoca explosão e deixa feridos na Alemanha

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E tem os comentários agressivos na internet. O debate sobre os refugiados, que havia se acalmado desde que o número de chegadas diminuiu consideravelmente na Alemanha, voltou a se inflamar. "Falamos muito sobre isso em casa, na hora do jantar. Mas me recuso a generalizar todos os refugiados pelo que aconteceu", diz Maria. Seus amigos concordam. A Baviera, rural e conservadora, é a terra da CSU (União Social-Cristã), que encabeça as críticas contra a política de acolhimento de Angela Merkle, ainda com grande apoio na Alemanha.

Manifestação pela tolerância

Teria a opinião pública mudado? "O clima virou há muito tempo. Depois do ano novo em Colônia, acabou esse entusiasmo meio ingênuo vivido em setembro de 2015 na ferroviária de Munique, quando os refugiados foram recebidos com ursinhos de pelúcia", acredita Stefan, 40. "Isso não quer dizer que tenhamos passado para o ódio." Em Ansbach, uma mobilização se organizou sobretudo entre os jovens, apesar de estes terem sido claramente o alvo do atentado de domingo. Na segunda-feira, uma centena de pessoas se reuniu para se opor a uma manifestação contra refugiados composta por cerca de 50 neonazistas. Na noite de terça-feira, cerca de 20 alunos do colégio Theresien organizaram um protesto contra a violência e a favor da tolerância.

O apartamento de Ahmed Ash-wan se encontra perto da fortaleza medieval da cidade. O jordaniano chegou a Ansbach em 2013, através de um intercâmbio com a universidade germano-jordaniana de Amã. Há um ano ele vem ajudando os refugiados que abandonaram os estudos ou que querem iniciar uma carreira. "Não senti nenhuma agressividade contra mim desde que cheguei a Ansbach. E mesmo depois do atentado, meus vizinhos continuam a me cumprimentar. As pessoas aqui são instruídas, elas sabem diferenciar as coisas." E as redes sociais? "Sempre existe ódio na internet, seja contra os refugiados ou a respeito de futebol", ele relativiza.

Muitos refugiados o procuraram nos últimos dias. "Eles estão com medo de perder o visto. Mas eles podem contribuir muito para a Alemanha", ele explica. Ao mesmo tempo, Ahmed se espanta com a falta de controle das autoridades sobre as pessoas que chegaram no último ano. Em seu computador, ele mostra uma página da internet em árabe onde sírios, que se mostram como ex-combatentes do regime de Bashar al-Assad, postaram fotos de si mesmos morando na Alemanha, depois de se declararem refugiados. "É preciso saber o que as pessoas têm na cabeça. Ajudar não é só fornecer um teto e comida. Essas pessoas têm um passado, problemas, mágoas, e provavelmente há entre eles outros terroristas. A Alemanha precisa saber mais sobre eles. Merkel é uma pessoa boa, mas às vezes acho que seu slogan 'Wir schaffen das' ('Nós vamos conseguir') precisa de um plano de verdade."

Em Ansbach, muitos dizem o mesmo. E acreditam que demorou-se demais para tomar providências. A CSU, que atualmente está reunida em congresso, anunciou "o fim da trégua" sobre a questão dos refugiados. Ela exige do governo um reforço drástico da vigilância sobre os centros de acolhimento e uma simplificação no processo de deportação em caso de delitos. Dentro do partido de esquerda radical Die Linke, o tema da segurança também surgiu. Angela Merkel, cuja ausência nos locais dos atentados na última semana tem motivado inúmeros comentários, era esperada na quinta-feira para uma coletiva de imprensa.

Tradutor: UOL

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