Com 40% de mulheres, Farc colocam gênero na mesa de negociação do acordo de paz

Marie Delcas

  • Federico Rios Escobar/The New York Times

A paz na Colômbia também é um assunto de mulheres. "Nós, as mulheres insurgentes, lutamos como os homens. Uma vez assinado o acordo de paz, continuaremos a lutar contra a injustiça social e a defender os direitos das mulheres", explica a jovem comandante guerrilheira Manuela Marín.

Ela se prepara para abandonar o combate e voltar à vida civil. O acordo de paz definitivo entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc, extrema esquerda) e o governo de Juan Manuel Santos deverá ser assinado nas próximas semanas, após quase quatro anos de negociações.

"O acordo leva em conta a situação específica das mulheres e é algo inédito no mundo: nenhum acordo de paz nunca se preocupou com isso", afirma María Paulina Riveros, membro da equipe governamental de negociadores desde 2014.

"Quando as Farc foram criadas, em 1964, havia 48 homens e duas mulheres", lembra Marín. Hoje, 40% dos efetivos da organização armada são mulheres, milicianas ou combatentes. Dentro do Exército colombiano, a proporção não chega a 5%.

Mas a direção das Farc continua sendo masculina. A delegação de negociadores em Havana também. "Aqui, ao longo das negociações, as guerrilheiras tiveram um papel muito ativo", confirma Humberto de la Calle, chefe da equipe governamental.

Quando os representantes dos dois lados se sentaram à mesa de negociações no final de 2012, só havia homens, o que provocou indignação entre as organizações de mulheres na Colômbia. O governo nomeou duas mulheres em sua delegação, e uma subcomissão foi criada para tratar das questões de "gênero": na Colômbia, o termo há muito tempo entrou nos discursos de políticas públicas.

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"Perspectiva de gênero"

A subcomissão e seus doze membros iniciaram imediatamente seus trabalhos. Já negociado, o acordo sobre a "reforma agrária integral" foi examinado com minúcia. "Às vezes uma palavra muda muitas coisas. Especificar que os homens e as mulheres terão acesso à titularização das terras ou aos créditos agrários pode mudar a vida de muitas famílias camponesas", ressalta Riveros.

Todos os capítulos do acordo, portanto, levaram em conta a "perspectiva de gênero", sobretudo o capítulo sobre as vítimas do conflito armado. São muitas as mulheres que perderam um marido, um filho, vários filhos, suas terras ou tudo junto para a guerra. Também há as milhares de vítimas de violência sexual.

"No imaginário social, a guerra continua sendo um ato masculino, e as mulheres que pegaram em armas são estigmatizadas," lembra Riveros. "É preciso levar isso em conta durante a reincorporação das guerrilheiras à vida civil."

"Você conseguiria contratar uma guerrilheira como empregada doméstica?" Colocada no contexto de uma reportagem jornalística, a pergunta irrita Manuela Marín. "A mídia e seus donos estão enganados se acham que estamos considerando virar suas empregadas", garante a jovem. Dentro da subcomissão do gênero, os confrontos foram duros em alguns casos. O feminismo não elimina o ódio de classe.

"Nós tínhamos um objetivo em comum: o poder das mulheres, independentemente de sua condição social. As guerrilheiras foram muito cordiais comigo", afirma Juanita Millán, tenente da Marinha, única militar da subcomissão. "Entre Exércitos, é fácil se entender", ela diz.

"As Farc são um Exército, é verdade que muito hierarquizado, mas que na teoria pretende praticar a igualdade entre homens e mulheres", explica Riveros, encarregada dos direitos humanos no Ministério do Interior.

"Na resistência, todo mundo combate, todo mundo cozinha", conta Yadira, que entrou para as Farc quando ainda era menor de idade. "Evidentemente que há machismo. Não é fácil mudar os homens. Mas eu mesma nunca lavei a roupa de ninguém e não tive que servir a mesa de um marido para ter o que comer."

E seriam as guerrilheiras obrigadas a abortar, como contam as desertoras? "Uma mulher que entra para a resistência sabe com o que está se comprometendo. As guerrilheiras que engravidam em geral abortam por vontade própria. Infiltrar uma mulher grávida às vezes é impossível, e levar uma gestação até o fim dentro de uma unidade cercada pelo Exército colocaria em perigo todos os camaradas", justifica Alejandra Nariño, uma holandesa que entrou para as Farc em 2001.

"Por que a imprensa se interessa tanto pelo fato de que as guerrilheiras abortam? E as meninas que têm filhos aos 13 anos, não os choca?", questiona Marín. E alega que muitas vezes é para fugir dos maus tratos ou da violência sexual dentro da família que as adolescentes do campo se juntam à guerrilha.

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Abortos forçados

Um relatório da procuradoria, divulgado no dia 16 de julho, analisou os crimes sexuais cometidos pelas Farc. O documento denuncia a política de contracepção obrigatória e de abortos forçados praticada pela organização. Ele cita 232 casos de abusos sexuais cometidos contra menores dentro das Farc entre 1979 e 2014.

O procurador Jorge Perdomo revelou o testemunho de uma guerrilheira recrutada aos 10 anos de idade e estuprada pelo líder de sua unidade. Em Havana, as comandantes guerrilheiras Victoria Sandino e Antonia Sanín reagiram indignadas, alegando uma "armação" da procuradoria e uma vontade de "atacar o processo de paz".

"Por não conseguirem nos eliminar militarmente, o governo está tentando arruinar nossa reputação politicamente de qualquer jeito", se revolta Manuela Marín. "O procurador se baseia no testemunho de guerrilheiras que desertaram. Ele não quer saber por que outras tantas permaneceram na resistência? Ele acha que somos idiotas submissas?"

Suas camaradas reconhecem que "abusos podem ter sido cometidos", mas segundo elas, "a violência sexual nunca foi uma política da organização". O acordo de paz prevê a criação de uma comissão da verdade. Haverá muito trabalho pela frente.

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Tradutor: UOL

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