Execuções crescem nas Filipinas após presidente dar aval para população matar traficantes

Harold Thibault

  • Erik De Castro/Reuters

O presidente filipino incentiva a polícia e os cidadãos a atacarem os traficantes, levando a um número crescente de execuções

Recém-eleito à presidência das Filipinas e ainda sem ter assumido o cargo, Rodrigo Duterte lançou no dia 4 de junho um apelo explícito a favor do assassinato de traficantes de drogas. "Sintam-se livres para contatar a polícia, ou façam vocês mesmos caso tenham uma pistola, vocês têm meu apoio", não hesitou em declarar "Digong", como é chamado pelo povo. Diante das câmeras de TV, ele ainda acrescentou: "Vocês podem matá-los. Atirem neles e lhes darei uma medalha."

Seu convite foi ouvido, e o sangue começou a correr desde sua posse no dia 30 de junho, no palácio presidencial de Malacañang. A rede de TV ABS-CBN contou 603  mortes violentas de dependentes de drogas ou de vendedores desde que ele assumiu o cargo, sendo 211 abatidos por matadores não identificados, e os outros pela polícia.

O ex-prefeito de Davao já havia se destacado ao longo de suas duas décadas no comando da principal cidade da ilha de Mindanao, no sul do arquipélago, ao deixar que um esquadrão da morte agisse ali.

Esses métodos agora estão sendo aplicados em nível nacional. Na cidade de Dasmariñas, ao sul de Manila, os policiais encontraram, na terça-feira (2), um corpo crivado de balas, com as mãos e os tornozelos amarrados com fios de plástico, e um bilhete ao lado: "Pusher ako", ou "Sou traficante."

Alguns deles foram mortos por policiais, que têm atirado com mais facilidade desde que o presidente lhes disse para não hesitarem em matar. "Teve sua retórica extremamente tóxica durante a campanha, e depois o seu apoio. Nada mais incentiva a polícia a demonstrar autocontrole. É um cheque em branco que ela tem", denuncia Phelim Kine, vice-diretor para a Ásia da Human Rights Watch.

Não se passa um dia sem que a imprensa local relate uma execução. Na quarta-feira, perto de Cebu, a polícia matou quatro pessoas suspeitas de participar do tráfico que haviam atirado contra ela. O Estado pede resultados a seus policiais.

Os bônus que até então eram reservados aos informantes agora estão sendo distribuídos aos agentes, dependendo do volume das apreensões; eles aumentaram 1,9 euro (R$ 6,70) por grama de cocaína, de heroína, de ketamina ou de "shabu". Este último é o nome filipino para metanfetamina, que tem devastado as grandes cidades da Ásia e que está na mira de Duterte.

Outras pessoas têm sido vítimas de misteriosos assassinos. Na cidade de San Antonio, dois homens encapuzados de moto mataram um motorista de riquixá de 40 anos na noite de quarta-feira. Kine chama atenção para o risco de que essas execuções tenham mais a ver com acertos de contas entre gangues, disfarçados de campanha anti-drogas.

Usuário, não traficante

Ainda na quarta-feira, perto de Cebu, um indivíduo que havia se apresentado à polícia, como lhe aconselharam as autoridades, foi morto enquanto jogava mahjong. A foto de um outro homem, Michael Siaron, encontrado morto no dia 23 de julho, rodou a imprensa e as redes sociais filipinas. Ali é possível ver sua mulher, Jennilyn Olayres, abraçando seu corpo, também ao lado de um pedaço de papelão com as palavras "Sou traficante".

Desde então a família de Siaron vem insistindo que embora fosse de fato dependente, ele nunca foi vendedor de drogas. Para sobreviver, ele trabalhava como motorista de riquixá e fazia outros bicos nas ruas. No dia 9 de maio, ele votou sem hesitar em Duterte.

O presidente ironizou a história chamando-a de "melodramática" e diz ter entrado em uma "guerra". O novo líder de Manila repete que os grandes traficantes do país têm ligações com a China vizinha e que eles fazem negócios com o cartel mexicano de Sinaloa. A maior parte das vítimas têm em comum sobretudo o fato de usarem chinelos de dedo, sinal de pobreza.

Esse terror tem levado os usuários de drogas a se entregarem, por medo de sofrerem o mesmo destino. No total, 114.833 dependentes de drogas e pequenos traficantes se apresentaram à polícia desde que Duterte se tornou presidente, segundo números oficiais.

Ainda que nem todos tenham sido presos, os presídios já estão lotados. Em Quezon, um bairro de Manila, 3.800 detentos se amontoam em um presídio construído para acolher 800 deles. De fato, o índice de criminalidade caiu oficialmente 13% em um mês.

Esses métodos radicais têm preocupado o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, cujo diretor, Yuri Fedotov, condenou na quarta-feira "o aparente apoio a execuções extrajudiciais" por parte das autoridades filipinas. Já uma senadora e ex-ministra da Justiça, Leila de Lima, está tentando montar uma comissão de inquérito, por considerar que seu país não vencerá uma guerra contra as drogas com mais violência.

Essa oposição só deixa o presidente mais confiante em sua retórica. Ele já havia vencido a eleição presidencial apresentando-se como um homem só diante de um sistema entravado, discurso que ele voltou a repetir em sua guerra contra as drogas. "Para acabar com o problema, preciso bloquear o mercado para eles. Antes disso, preciso exterminar o aparelho", disse Rodrigo Duterte na quarta-feira.

Eleições nas Filipinas têm violência e mortos

  •  

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos