Nos EUA, dois candidatos menores espreitam liderança de Hillary e Trump

Corine Lesnes

Delegados são quem elege presidente dos EUA; entenda o processo

O libertário Gary Johnson está de olho no eleitorado republicano e a verde Jill Stein no da esquerda democrata

Para os partidos pequenos americanos, a eleição presidencial de 2016 está sendo uma bênção. Os verdes, assim como o movimento libertário, esperam capitalizar as reservas suscitadas por Hillary Clinton e Donald Trump em seus respectivos lados.

Jill Stein, a candidata dos verdes, não consegue acreditar. Em 2012, ela obteve 469.501 votos na eleição presidencial, ou seja, 0,36% dos votos. Quatro anos depois, ela está com 6% das intenções de voto para a eleição de 8 de novembro, um número duas vezes maior que o melhor resultado jamais registrado pelo Partido Verde em uma corrida nacional (2,7%, o desempenho de Ralph Nader na eleição de 2000).

Do outro lado do cenário, Gary Johnson, 63, o candidato libertário, está com 10% a 12% das intenções de voto, um desempenho igualmente inesperado para um partido que havia obtido somente 1% dos votos em 2012.

"É o momento certo para ser o candidato de um terceiro partido", repete Johnson, que de 1995 a 2003 foi o governador republicano do Novo México.

Ainda mais significativo é o voto dos jovens. Segundo uma pesquisa da McClatchy-Marist publicada no dia 5 de agosto, os eleitores com menos de 30 anos são os mais interessados em uma candidatura que fuja do bipartidarismo, base da vida política americana: 23% deles optarão pelo candidato libertário e 16% pela representante verde. Donald Trump chega em último (9%) e Hillary Clinton lidera, com 41%.

Dominick Reuter/Reuters
A candidata Jill Stein, do Partido Verde, em comício em Filadélfia, na Pensilvânia

"Jill, não Hill"

Jill Stein, 66, recebeu a nomeação oficial de seu partido no sábado (6), na convenção nacional do Partido Verde em Houston, Texas, ao lado de seu vice, o militante dos direitos humanos Ajamu Baraka. Sem fogos de artifício, mas aos gritos de "Jill, não Hill", "Hill" sendo Hillary Clinton, a candidata democrata detestada pelos anti-belicistas, anti-fracking e anti-Wall Street.

Julian Assange, que Stein chama de "herói", discursou através de uma videoconferência para lembrar o papel exercido pelo WikiLeaks na publicação dos telegramas diplomáticos do departamento de Estado em 2010 e 2011.

Com seus cabelos grisalhos bem curtos, Jill Stein nasceu em Chicago, filha de uma família de judeus russos que fugiram das perseguições na Rússia. Formada em Harvard, ela exerceu a medicina durante 25 anos na região de Boston. Ela explicou estar cada vez mais preocupada com as causas sociais e ambientais dos problemas de saúde.

"A política é a mãe de todas as doenças", ela acredita. Ela saiu do Partido Democrata quando seus representantes rejeitaram uma reforma do financiamento político em Massachusetts.

Jill Stein propõe o fim da dívida estudantil e a redução pela metade dos gastos militares. Desde o fim das primárias, ela vem cortejando assiduamente os partidários do senador de Vermont Bernie Sanders, que se recusam a apoiar a ex-secretária de Estado.

O principal deles, o filósofo-rapper Cornel West, que apareceu na convenção de Houston para explicar por que entre a "catástrofe neofascista" Donald Trump e o "desastre neoliberal" Hillary Clinton ele escolheria "a única progressista" Jill Stein.

E pode a candidatura da médica ecologista atrapalhar as chances de Hillary? Em 2000, o vice-presidente Al Gore foi declarado derrotado por 537 votos na Flórida, Estado onde Ralph Nader havia conseguido 97 mil votos.

A menos de três meses da eleição, as pesquisas apontam que a grande maioria dos partidários de Bernie (9 entre 10) irão apoiar a candidata democrata. Stein suscitou diversas controvérsias até entre a esquerda, sobretudo em dezembro de 2015, quando ela se encontrou com Vladimir Putin em Moscou.

George Frey/Getty Images/AFP
Gary Johnson, o candidato libertário, participa de comício em Salt Lake City (Utah)

Gary Johnson, o libertário, parece mais "perigoso" para Trump do que Jill Stein é para Hillary Clinton. Ele possui uma verdadeira experiência de governador, reeleito com folga no Novo México, e escolheu como vice um outro ex-governador, o democrata Bill Weld, 71, do Massachusetts,.

Johnson é uma figura à parte. Especialista em triátlon, ele fincou a bandeira do Novo México no topo do Everest. Ele cultiva o estilo anti-Trump com uma palavra de ordem inspirada no slogan do magnata dos cassinos, mas em vez de devolver a "grandiosidade" aos Estados Unidos, é sua "sanidade" que ele propõe restaurar ("Let's make America sane again").

Ele também está tentando seduzir os apoiadores de Bernie Sanders, com quem acredita estar de acordo sobre 75% dos temas, tais como casamento gay, direito ao aborto e o fim das intervenções militares em outros países. Ele também é um grande partidário da legalização da maconha (ele afirmou que não fumaria durante a campanha e que abriria mão da cannabis caso fosse eleito presidente).

Gary Johnson, que está começando a tirar vantagem das deserções republicanas, está de olho em uma vaga no primeiro debate presidencial, que acontecerá no dia 26 de setembro. A ideia não é totalmente absurda.

É preciso obter 15% das intenções de voto em cinco pesquisas para ser convidado pela comissão organizadora. Seria a primeira vez desde Ross Perot, em 1992, grande divisor dos votos republicanos, empresário que permitiu que Bill Clinton se destacasse.

Tradutor: UOL

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