Eleição presidencial na França em 2017 deve ser marcada pela rejeição

Gérard Courtois

  • Dominique Faget/AFP

Primária dos verdes, primária da direita, primária dos socialistas (e associados), campanha presidencial e campanha legislativa. Estamos agora à beira de dez meses de debates e de disputas políticas. O final dessa longuíssima sequência eleitoral é conhecido: o próximo presidente da república francesa será escolhido em maio de 2017 e a Assembleia Nacional será renovada em junho. Mas essa é a única certeza.

Quanto ao resto, a situação nunca se mostrou tão imprevisível como agora para eleições do tipo. O clima pesado que se instalou no país nos últimos meses contribuiu bastante para isso. Os atentados jihadistas de Paris, de Nice e de Saint-Etienne-du-Rouvray não somente traumatizaram os franceses, abalaram a sociedade, reviraram a hierarquia das preocupações e das expectativas ao colocarem o combate ao terrorismo como prioridade, como também puseram a campanha que começará sob a ameaça de novos massacres, cujas repercussões que eles podem desencadear são impossíveis de se imaginar.

A incerteza sobre as candidaturas à eleição presidencial evidentemente contribui para a confusão. É verdade que a de Marine Le Pen, representando a Frente Nacional, já está certa. Da mesma forma, Jean-Luc Mélenchon há meses se autoproclamou porta-bandeira da esquerda radical e "insubmissa". Mas nenhum outro candidato está confirmado ainda. É o caso da direita, onde o resultado da primária destinada a decidir sobre os candidatos está longe de resolvido. Por enquanto, nada garante que Alain Juppé ainda tenha a opinião pública a seu favor, nada assegura a Nicolas Sarkozy, independentemente de sua determinação, uma vitória direta, e nada descarta definitivamente que o duelo anunciado entre os dois seja contrariado por François Fillon ou por Bruno Le Maire. Ainda que civilizado pelo procedimento das primárias, esse tipo de confronto pode ser mortal, algo que o passado já mostrou.

Pelo menos a direita conhece seus candidatos à candidatura. Mas não é o caso da atual maioria. Independentemente das ambições declaradas —Arnaud Montebourg para seu próprio partido, Benoît Hamon, Gérard Filoche e Marie-Noëlle Lienemann para os rebeldes socialistas, Cécile Duflot, Yannick Jadot e Michèle Rivasi para os verdes--, ou das veleidades de um ou outro, entre eles Emmanuel Macron, tudo permanecerá em suspenso, até o final do outono, dependendo da decisão de François Hollande de se candidatar à reeleição ou não. Ninguém duvida que ele queira conduzir esse último combate, contanto que este já não esteja perdido de antemão. Mas esta condição está longe de ser preenchida.

Mas não é só isso. O que se pode perceber da atitude dos franceses torna o cenário ainda mais indecifrável. De fato, mais do que nunca, o momento é de desconfiança, de saber somente em quem "não votar". François Hollande é a principal vítima disso, evidentemente. Exceto por um surto de popularidade tão impressionante quanto fugaz após os atentados parisienses de janeiro de 2015, ele vem sofrendo de um descrédito sem precedentes, sedimentado ao longo de quatro anos. Imediata e quase visceral à direita e à extrema-direita, essa rejeição se tornou maioria entre a esquerda, inclusive entre seus eleitores de 2012. No fim de semana passado, sua ex-ministra da Habitação, Cécile Duflot, resumiu em uma palavra ("abandono") o mandato de Hollande, antes de acrescentar: "É tarde demais para ele recriar uma relação de confiança com seu eleitorado". Já o ex-ministro da Economia, Arnaud Montebourg, acrescentou uma segunda palavra ("repúdio") para explicar por que para ele era "impossível, assim como para milhões de franceses, apoiar o atual presidente da República". Resta saber se essa rejeição é irremediável.

Efeito "tudo menos Sarkozy"

O chefe do Estado não é o único a sofrer desse mal. Seu antecessor, Nicolas Sarkozy, foi vítima de um fenômeno parecido em 2012, quando muitos eleitores, e não somente da esquerda, votaram contra ele, mais do que a favor de François Hollande. Há quem diga que esse é um fenômeno clássico, especialmente para presidentes em final de mandato. Provavelmente, mas em seu caso é algo exacerbado. Portanto, para ele o desafio das primárias será frustrar o efeito "Tudo menos Sarkozy" que seus adversários certamente invocarão. Muito dependerá do eleitorado que se mobilizará nos dias 20 e 27 de novembro. Embora o ex-presidente possa contar com a confiança do núcleo duro de seu eleitorado, que permaneceu fiel a ele apesar de todas as dificuldades, ele precisará desarmar as persistentes reservas dos demais, caso decidam votar em massa.

Já Marine Le Pen continua exercendo um efeito repulsivo, de certa forma estrutural, sobre uma grande maioria de franceses. Todos os esforços realizados por ela nos últimos cinco anos para tornar seu partido mais consolidado e respeitado até o momento não mudaram grande coisa. Segundo a última pesquisa da Sofres para o "Le Monde", a Frente Nacional continua representando "um perigo para a democracia" na visão de uma grande maioria de franceses (56%), incapaz de participar de um governo (54%), enquanto sua presidente é considerada por quase metade (47%) como a representante de uma "extrema-direita nacionalista e xenófoba". Em suma, ela não escapa muito mais que líderes de esquerda ou direita da desconfiança generalizada contra a classe política.

Se continuar assim, se os candidatos não encontrarem o meio, a linguagem, as propostas para voltarem a falar da França e do mundo aos franceses de maneira convincente e para devolverem sentido às suas ações, a campanha que vai começar corre um forte risco de ser o resumo deletério dessas frustrações, resultando em uma decisão entre todas essas rejeições. Essa é a principal incógnita e desafio dos próximos meses.

Tradutor: UOL

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