Em Calais, quase 10 mil imigrantes estão em um beco sem saída

Maryline Baumard

  • PHILIPPE HUGUEN/AFP

O Estado convenceu a maioria dos exilados a permanecer na França, mas o sistema de acolhimento é muito insuficiente

Ashraf tropeça, antes de recuperar seu equilíbrio no último momento. Não é a primeira vez que seus pés esbarram no emaranhado de cordas que estendem as lonas das tendas. "Na semana passada acrescentamos a nossa", se desculpa o jovem sudanês. "Agora ficou difícil de passar." Mas seu "bairro" da "selva" de Calais (Pas-de-Calais) não está mais superpovoado que o resto dessa favela onde se amontoam quase 10 mil imigrantes. "O equivalente a uma pequena cidade da Bretanha", suspira Yannick Le Bihan, diretor da Médicos do Mundo-França.

Oficialmente, a administração regional contou 6.900 pessoas no local; já as associações registraram 9.000 pessoas em meados de agosto. A "selva" nunca teve uma população como essa. Nunca os exilados estiveram tão espremidos, já que agora estão amontoados em uma zona dividida em duas depois que a metade norte foi evacuada pela administração em fevereiro. E embora o limite de saturação já pareça ter sido atingido, não param de chegar pessoas, como Raban, um outro jovem sudanês que, assim que deixa sua bolsa no chão, se põe a procurar um par de sapatos, uma vez que os seus não sobreviveram à travessia a pé da fronteira alpina entre Vintimille e Menton (Alpes Marítimos).

As pequenas tendas baixas, substituídas por cabanas de madeira pelas associações no inverno passado, voltaram com tudo, apertando-se nos últimos metros quadrados livres. E do lado de dentro dos abrigos, as vagas agora são muito valorizadas. "É preciso se contentar com o que se tem, não podemos construir mais porque a polícia tem ordens de nos impedir que entremos com materiais", lamenta Le Bihan. Além dessa mudança de dimensões e da densidade alarmante do lugar, a "selva" mudou de função. Ela não é mais somente a antecâmara do Reino Unido, mas sim um lugar de espera para imigrantes que querem em sua maioria permanecer na França.

Os sudaneses, que antes iam em massa para o Reino Unido, agora querem se estabelecer do lado de cá do Canal da Mancha. Como muitos deles deixaram suas impressões digitais na Itália, eles estão sujeitos a uma decisão de transferência para esse país, em virtude dos acordos de Dublin. Os retornos para a Itália não se aplicam a Calais, mas a regra obriga esses solicitantes de asilo "dublinados" a esperarem seis meses antes de poderem entrar com novo pedido na França. Então eles aguardam ali, dentro de sua comunidade, até o final do prazo.

Além disso, alguns deles vão para a França para se abrigarem em um centro de acolhimento e de orientação (CAO), mas muitos deles tentam evitá-los porque certas regiões operam deportações para a Itália. "Diante dessa situação, é de se pensar que haveria menos gente em Calais se a França acabasse com os acordos de Dublin que fazem com que tanto a administração quanto os imigrantes percam um tempo absurdo", observa Vincent de Coninck, responsável pela região Norte na Caritas-França.

Asilo na França

Uma semana depois de sua chegada, Ashraf não desistiu de ir encontrar um tio em Manchester. "Mas se eu não conseguir, talvez faça como os outros", ele observou. "Veremos". Já Abdullah é afegão e adotou outra estratégia. Sentado em um canto sombreado por arbustos que acompanham o caminho da "selva", o estudante de agronomia conta ter passado um mês e meio neste verão em Paris sem conseguir entrar com seu pedido de asilo. Ele espera hoje que a região de Hauts-de-France lhe reserve um destino melhor.

"Disseram que os pedidos de asilo eram processados mais rápido aqui", ele diz. Não há tanta certeza disso, uma vez que agora o ritmo do registro dos pedidos em Calais se alinhou com o resto da França. "Eles admitem abertamente que a plataforma de pedidos de asilo de Calais tem um objetivo: tornar-se tão ruim quanto a de Paris, para evitar as chegadas em massa de solicitantes à 'selva',", lamenta Vincent de Coninck.

Nos últimos dois anos a política do Ministério do Interior para Calais tem se baseado em dois pilares. De um lado, as autoridades trabalharam para incentivar os imigrantes a pedirem asilo na França em vez de tentarem chegar à Inglaterra; de outro, elas trabalharam para desafogar a "selva" levando grande parte dos imigrantes para outros lugares na França, em centros de acolhimento e de orientação. Após um início difícil, os exilados de Calais ouviram o recado e agora estão respondendo em massa a ele. Mas como o Estado não consegue dar conta de sua política, esse entusiasmo está gerando novos problemas.

Além do fato de que o registro dos pedidos de asilo e as ofertas de abrigo para solicitantes de asilo, ainda que inscritas na lei, são insuficientes, agora as pessoas estão correndo para os centros de acolhimento e de orientação da Bretanha, do Sul e do Leste. Na véspera de cada partida para um desses centros, os imigrantes dormem na calçada da rua de onde saem os ônibus, para terem uma chance de encontrar vaga. Boa parte deles é afugentada pela polícia e enviados de volta para a selva no momento da partida. O anúncio feito no dia 10 de agosto pela ministra da Habitação, Emmanuelle Cosse, de que o número de vagas nos CAO passaria de 2.000 para 5.000 no final de setembro está demorando para se concretizar. Desde o dia 1º de agosto, houve somente 366 partidas para os CAO. Desde o início da implantação do sistema, no dia 27 de outubro de 2015, 5.413 imigrantes fizeram essa escolha.

Na "selva" superpovoada, depois que um sudanês foi esfaqueado por afegãos, na noite de 22 de agosto, o medo tem dominado entre os mais jovens. Em frente à sua tenda, Saleh, um eritreu de 17 anos, lava sua roupa olhando sem parar à sua volta. "Estou aqui há dois meses, mas hoje estou com medo. Os sudaneses e os afegãos se detestam, e como agora houve uma morte, estou com medo das vinganças. Éramos em cinco amigos na barraca e agora fiquei sozinho, porque dois deles foram para a Inglaterra e dois para a Alemanha. Eu vou tentar novamente os caminhões, mas já quebrei o braço e tenho medo de sofrer outro acidente", resume o rapaz. Assim como muitos outros menores de idade, Salah sobrevive no lugar tentando se deslocar o mínimo possível.

"Confissão de impotência"

Na selva, abatida pelo calor do final de agosto, a vida passa em câmera lenta. Somente o centro Jules-Ferry, onde as pessoas comem, tomam banho e recebem cuidados médicos, teve um crescimento de atividade, aumentando o número de refeições servidas e tentando se adaptar à demanda. "Nós servimos entre 3.500 e 4.000 cafés da manhã, e o mesmo tanto de refeições às 15h. Se for preciso podemos aumentar esse número", afirma o diretor do centro, Stéphane Duval, que faz questão de que ninguém espere por mais de meia hora para ser servido, e que acaba de criar uma fila especial para as pessoas vulneráveis e os menores de idade.

"É claro, o Estado faz coisas em Calais. Não estamos dizendo que não", afirma Vincent de Coninck. "Mas gostaríamos que sua ação fosse mais antecipada, mais bem dimensionada", acrescenta Yannick Le Bihan. "Que o governo parasse de correr atrás dessa situação que está sempre mudando". Em pleno verão, os pontos de água dessa cidade com uma dezena de milhares de habitantes estão sempre ocupados, as latrinas não são mais suficientes para a população, e a falta de privacidade dá lugar a todo tipo de tensões.

"Ou esse governo não tem ideia da gravidade da situação, ou ele não sabe mais o que fazer e sua inação é uma confissão de impotência", diz com impaciência a prefeita de Calais, Natacha Bouchart. Já o Ministério do Interior, assim como a governadora de Pas-de-Calais, Fabienne Buccio, afirmam que estão "no caminho certo".
 

Tradutor: UOL

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