Em contraste ao resto da Coreia do Norte, Pyongyang demonstra riqueza

Philippe Mesmer

  • Ed Jones/ AFP

    Passageiros deixam estação de metrô em Pyongyang, Coreia do Norte

    Passageiros deixam estação de metrô em Pyongyang, Coreia do Norte

A mensagem foi clara. O ministro das Relações Exteriores sul-coreano, Yun Byung-se, afirmou na sexta-feira (23), na tribuna da ONU, que seu país não ajudaria a Coreia do Norte com as vítimas das enchentes que devastaram a pobre província de Hamgyong do Norte (nordeste) no começo do mês. O balanço dessa catástrofe foram 538 mortos e dezenas de milhares de casas destruídas. "Pyongyang teria gasto US$200 milhões (cerca de R$648 milhões) este ano com testes nucleares e tiros de mísseis", afirmou Yun, em um exemplo da linha dura adotada por Seul em relação ao Norte. "Essa soma teria sido suficiente para ajudar as zonas afetadas."

O Programa Alimentar Mundial local forneceu o suficiente para alimentar 140 mil pessoas. As autoridades da Coreia do Norte garantem que está sendo feito de tudo para auxiliar as vítimas. "O Estado está mobilizado", afirma Ri Ki Song, economista da academia de ciências sociais. "O objetivo é reconstruir as casas, as estradas e as ferrovias até o inverno."

Enquanto na ONU a possibilidade de novas sanções econômicas vem sendo cogitada desde o quinto teste nuclear realizado no dia 9 de setembro, a capital norte-coreana fervilha. Há cada vez mais carros na cidade. Em frente à estação ferroviária central se espremem os táxis de cinco empresas, sendo os azuis de uma filial da companhia aérea Air Koryo, que dividem o mercado. Os habitantes da capital, a maioria deles dona de um celular, frequentam os restaurantes --como pizzarias e cervejarias alemãs-- e os supermercados, sobretudo o de Kwangbot, aberto em janeiro de 2012, que oferece produtos alimentícios, inclusive vinhos italianos, peças de vestuário... Nas sacadas dos prédios, se multiplicam os painéis solares, para compensar os cortes de energia elétrica.

Fim dos domingos

"É possível encontrar cada vez mais produtos coreanos que substituem os da China", elogia um morador, em frente aos chocolates da marca local Kumkup, esquecendo que muitas empresas possuem capital chinês. Em cada esquina, cartazes lembram que o país está engajado em uma "luta de 200 dias" desde o 7º Congresso do Partido do Trabalho, organizado em maio. Essa nova "luta" lembra aquelas dos anos 1970 e 1980 decididas por Kim Il-sung, avô do atual líder, Kim Jong-un.

Desta vez, trata-se de realizar as metas do primeiro ano do plano quinquenal definido durante o congresso para criar um "gigante econômico socialista" que "produz e responde de maneira autônoma às necessidades da defesa, da construção econômica e da melhoria da vida cotidiana do povo". Ele confirma o byungjin noson, a "linha do paralelismo" afirmada por Kim Il-sung em 1962 e que coloca o desenvolvimento econômico no mesmo plano que o reforço da defesa.

Na prática, essa "luta" equivale ao fim dos domingos e feriados, especialmente para o Exército que tem realizado as grandes obras. No dia 15 de setembro, quando o país prestava uma homenagem aos ancestrais para a tradicional festa do Chuseok, centenas de militares quase sem máquinas e visivelmente exaustos trabalhavam no canteiro de obras do novo complexo da Avenida Ryomyong, que deverá contar com um edifício de 70 andares, "o mais alto de nossa República", segundo a mídia local.

Esse bairro residencial deverá ser concluído em outubro. Ele será reservado aos cientistas, pois a prioridade também é desenvolver o saber científico e tecnológico. O imponente Museu de Ciências e Tecnologia, inaugurado em abril na ilha de Ssuk, no coração da capital, é prova disso. O prédio tem o formado de um átomo, lembrando que Pyongyang se declarou, em 2013, uma potência nuclear e assim pretende continuar.

Em toda parte o visitante é convidado a saudar as inovações que seriam responsáveis pelos sucessos demonstrados. "Graças a novas sementes e novas técnicas, a produção aumentou 20% este ano", ressalta Kim Yong Ho, vice-presidente da fazenda cooperativa de Jangchong, instalada no subúrbio da capital e apresentada como um modelo a ser reproduzido em escala nacional, com suas casinhas charmosas de reboco branco e suas 665 estufas.

A relativa opulência de Pyongyang contrasta com os sinais de pobreza do campo, onde as estradas são caóticas e o transporte muitas vezes é feito através de carroças puxadas por bois. No entanto, ela mostra que a tímida liberalização iniciada nos anos 2000 e acelerada pelas reformas de 2012 e 2014, além do desenvolvimento de uma economia mais ou menos oficial, está surtindo efeito.

Ela também põe em dúvida os efeitos das sanções internacionais.

Ri, que não nega a existência de certos problemas, cita a propaganda oficial, segundo a qual a "pressão estimula o espírito do povo coreano, que continua cheio de autoconfiança".

O impacto das sanções seria atenuado pela dependência da economia da Coreia do Norte em relação à China, tradicional aliada, com quem ela realiza 90% de seu comércio e que continua reticente em aplicá-las, às vezes por razões políticas.

Em agosto de 2016, Pequim aumentou as importações de carvão norte-coreano em 27,5%, após o anúncio sobre a ativação do sistema americano antimíssil THAAD na Coreia do Sul, em julho. No entanto, segundo o Banco da Coreia, estabelecimento central sul-coreano, o PIB da Coreia do Norte caiu 1,1% em 2015, após um crescimento de 1% em 2014. Uma das causas seria a queda do preço do carvão, seu principal recurso de exportação, e a desaceleração observada na China.

Tradutor: UOL

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