A Flórida é o Estado prioritário para Donald Trump

Nicolas Bourcier

  • Carlo Allegri/Reuters

    Eleitor de Donald Trump participa de comício em Pensacola, na Flórida

    Eleitor de Donald Trump participa de comício em Pensacola, na Flórida

Republicanos e democratas gastam milhões de dólares na disputa pelo "Sunshine State"

Os especialistas haviam previsto que essa seria a batalha das batalhas. Com a impressionante virada nas pesquisas desde que o FBI reabriu de surpresa o caso dos e-mails de Hillary Clinton, a Flórida de repente voltou não somente a ser o alvo prioritário dos candidatos, como também o "swing state" mais revelador das relações de força entre os dois lados.

De um lado, a ex-secretária de Estado e o poderoso aparelho democrata, com seus 82 comitês de campanha espalhados pelos quatro cantos do "Sunshine State", seus comícios intermináveis orquestrados por especialistas, coreografados à perfeição, tendo a seu lado os grandes nomes do partido unidos em torno dela, de Barack Obama a Al Gore, passando por Bill Clinton e até mesmo a cantora pop latina Jennifer Jopez, que fez um show de graça em Miami.

Do outro, o imprevisível Donald Trump, sua multidão de seguidores raivosos e seus 30 Q.G.s abertos há apenas algumas semanas por um partido republicano quase ausente dos palcos por onde passa seu orador.

São dois estilos e duas estratégias que remetem à imagem de uma campanha da Flórida conduzida em dois universos paralelos. Dois mundos distintos que, a menos de quatro dias da eleição presidencial, colocam os dois candidatos em uma disputa cada vez mais acirrada.

O candidato bilionário, para quem um revés nesse swing state, que é o mais importante da eleição presidencial, selaria sua derrota, segundo a média das pesquisas efetuadas pelo RealClearPolitics teria uma ligeira vantagem de 0,7% depois de ficar atrás de sua rival durante semanas. Em 2012, o candidato republicano Mitt Romney perdeu o Estado com menos de um ponto de diferença.

"As pesquisas na Flórida são de uma grande complexidade considerando o corpo eleitoral que é um caldeirão, são mini-Estados Unidos, tão dividida quanto o país", ressalta Stephen McNamara, professor da Universidade do Estado da Flórida e ex-conselheiro do governador republicano Rick Scott.

"É preciso olhar como os partidos ocupam o terreno, a formidável eficácia da máquina democrata que freta os ônibus e percorre as cidades, e o engajamento da base republicana, até disciplinada em apoio a seu candidato apesar das tensões e que tem procurado sobretudo limitar os danos.

Os democratas, que desde cedo entraram na batalha, uniram suas forças há vários meses para incentivar as pessoas a irem às urnas. Um esforço metódico, bairro por bairro, baseado no modelo criado em 2008 pelas equipes de campanha de Barack Obama e articulado em torno dos "neighbour teams", que são as equipes locais que sobem em uma plataforma coletiva as informações a respeito dos eleitores registrados.

Desde o verão Hillary já tinha 14 comitês de campanha. A equipe de Trump tinha somente um. A título de comparação, o candidato Mitt Romney contava com 23 Q.G.s na Flórida antes mesmo da convenção republicana do verão de 2012.

De 200 militantes pagos, enviados em agosto pelo centro de operações democrata instalado no Brooklyn, as equipes que vieram ajudar as tropas locais passaram para quase 1.000 profissionais nas últimas semanas, de duas a três vezes mais que os republicanos. "Nós temos os melhores grassroots teams (militantes de base) de todo o país", retruca Deborah Tamargo, coordenadora regional do Partido Republicano, baseado em Tampa. "O número deles não para de aumentar, assim como as somas injetadas em publicidade."

"Incentivar o voto"

Em meados de agosto, Hillary Clinton e seus aliados haviam gasto US$ 22 milhões em inserções na TV nas emissoras da Flórida, ante o US$ 1,6 milhão de Donald Trump. Foi só no final de setembro que o empresário passou a investir maciçamente na Flórida para recuperar o atraso.

Só na semana de 18 de outubro, o lado de Hillary injetou US$ 139.001 em publicidade, e o de Donald Trump US$ 128.309. Ou seja, respectivamente 23% do orçamento da campanha nacional dedicada à televisão para os democratas, e 27% para os republicanos.

Foi esse arranque e o retorno inesperado do caso dos e-mails que levaram a campanha de Hillary a triplicar, na quarta-feira (2), os gastos com publicidade na Flórida, passando de US$ 2,4 milhões para US$ 7,4 milhões.

Em um dos cinco comitês de campanha democratas de Tampa, uma modesta casa térrea de um quarto repintada, Mark Nash desliga o telefone com um grande sorriso. Aos 52 anos de idade, esse consultor e candidato a uma cadeira na administração do condado local acaba de dar seu último telefonema do dia.

"Nosso alvo são só as pessoas que podem vir a votar no partido democrata", ele diz, referindo-se aos eleitores registrados nas listas eleitorais e cuidadosamente levantados pelo partido. E acrescenta: "O intuito é incentivar as pessoas a irem votar e recuperar aquilo que chamamos de 'coalizão Obama', essa mobilização dos jovens millennials, de mulheres e minorias que permitiu vencer as últimas eleições."

"Anos de atraso"

De fato, a votação antecipada é um indicador importante na Flórida. Autorizados a votar a partir de 24 de outubro, quase 25% do eleitorado enviou pelo correio ou depositou em uma urna de votação sua cédula em menos de cinco dias. Segundo uma contagem da Associated Press, da CNN e do "Politico", a tendência por ora seria favorável ao campo democrata, sobretudo por efeito de um aumento dos votos femininos.

Embora os republicanos tivessem tradicionalmente a vantagem dos votos antecipados, os últimos dados apontam que sua vantagem está menor que quatro anos atrás. Segundo eles, os democratas também possuem uma vantagem de 7% entre os novos eleitores, dado característico de uma mobilização do eleitorado hispânico, que representa 15,6% dos 12,7 milhões de eleitores da Flórida.

"O engajamento deles está nitidamente superior ao dos anos anteriores", afirma Daniel Smith, professor de ciências políticas na Universidade da Flórida.

Já Franck Giorgio dá de ombros. "Tanto faz as estatísticas e as pesquisas, veremos de fato no dia da votação", diz esse veterano da guerra do Vietnã em uma gargalhada ruidosa.

Republicano e patriota, como ele mesmo se define, o alegre septuagenário percorre há várias semanas os bairros periféricos de Tampa ao volante do velho Cadillac de sua família. Ele tem feito o porta-a-porta juntamente com seus colegas de partido, "mais de 70 casas por hora", ele conta. Assim como no caso dos democratas, Franck Giorgio e seus colegas só vão atrás dos eleitores registrados nas listas do partido: "Tentar converter as pessoas do campo adversário é perda de tempo."

Ele mesmo reconhece que os republicanos têm "anos de atraso em comparação com a organização democrata". Mas acrescenta: "Nós temos gás e a incrível mobilização das multidões durante os comícios". São dois estilos e dois mundos distintos.

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Tradutor: UOL

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