Opinião: Funcionamento da democracia está sendo transformado pelo meio digital

Sandrine Cassini

  • Reprodução/NYT/Facebook

Com 16 milhões de seguidores, o 45º presidente eleito dos Estados Unidos, Donald J. Trump, continua a atacar multidões no Twitter. "Grave fraude eleitoral na Virginia, em New Hampshire e na Califórnia —então por que a mídia não fala desse problema?", ele lançou no dia 27 de novembro, afirmando que "milhões de pessoas" teriam votado ilegalmente. E de onde o ex-astro de reality show teria tirado essa informação? Mistério.

Até hoje, a imprensa americana não conseguiu desmascarar nenhum fraudador. Mas a verdade não importa. Donald Trump voltou a incendiar a internet, e suas mensagens foram "retuitadas", "curtidas" e comentadas por dezenas de milhares de pessoas. Durante a campanha, as falsas notícias a serviço de sua causa geraram mais audiência que os sites tradicionais de notícias, contribuindo para levá-lo ao cargo máximo.

Enquanto isso, na França, um outro candidato inesperado venceu as primárias da direita: François Fillon. Essa vitória não espantou muito seu braço direito, Pierre Danon, que viu crescer na internet a empolgação dos partidários do ex-primeiro-ministro. Tendo menor acesso à mídia tradicional do que Alain Juppé ou Nicolas Sarkozy, o deputado de Paris conduziu uma campanha subterrânea, fora dos circuitos tradicionais, falando a cada semana a um clube de 200 mil seguidores. Na primavera, ele elevou as apostas submetendo seu programa a uma votação. "As medidas receberam 75% de aprovação, e isso nos permitiu validá-las. No total, recebemos 600 mil votos vindos de uma centena de milhares de pessoas. É muita coisa. Quando eu via as pesquisas de intenção de voto, eu não me preocupava porque eu via o que realmente estava acontecendo", diz Danon.

Donald Trump, François Fillon, mas também Beppe Grillo na Itália, Bernie Sanders e Barack Obama: todos têm em comum o fato de saberem sentir o clima ao seu redor, atender às novas aspirações dos cidadãos e usar a internet para se destacarem. Depois do cinema, dos táxis e dos hotéis, é a vez da política de entrar no grande caldeirão da internet, levada por cidadãos com vontade de mudar as regras do jogo.

Nos últimos anos, o grande público, atiçado pelo Twitter, pelo Facebook e pelo Change.org, passou a querer ser ouvido, participar da vida da cidade e transformar as instituições existentes. Até que ponto a internet revolucionará nossas democracias?

A questão estará na pauta da Parceria por um Governo Aberto, uma jovem organização internacional presidida este ano pela França, que conta com 70 países e será realizada em Paris entre os dias 7 e 9 de dezembro. No centro dos debates entre chefes de Estado, ministros, coletividades, sociedade civil e ONGs estão: a transparência, o desenvolvimento sustentável e, sobretudo, o digital na vida pública. François Hollande, que pronunciará o discurso de abertura, fez questão de associar a França a essa iniciativa, para ter um local de trocas para discutir sobre a renovação democrática.

"Em um mundo educado, a sociedade civil tem vontade de se envolver. É preciso que o Estado e a sociedade civil aprendam a trabalhar juntos. Não podemos mais nos privar dessa inteligência coletiva", diz Henri Verdier, diretor interministerial do digital e do sistema de informação e comunicação do Estado (Dinsic), uma administração encarregada de guiar os grandes projetos informáticos do Estado e de cuidar da abertura dos dados públicos através do Etalab.

A relação entre o cidadão e seus representantes se torna direta. "Não podemos mais tomar decisões a portas fechadas, entre 15 especialistas. O digital contribui para a obsolescência dos partidos herdados do pós-guerra. Estamos vendo as consequências disso na desvitalização de um partido político como o Partido Socialista (PS)," explica o deputado do PS de Nièvre, Christian Paul, que trabalha há 15 anos com esses temas. "Antes, a comunicação era feita inteiramente por intermédio dos jornalistas. Trump mandou a Fox News pastar. Antes, era inimaginável para um republicano dispensar essa emissora", explica Nicolas Colin, ex-auditor de Finanças e cofundador da aceleradora The Family.

Mudar as coisas

Mas é sobretudo a maneira como se concebe a democracia e o pacto social que estão sendo revistos. "O digital muda a relação com os políticos, com as autoridades. O Estado precisa aceitar que existem aqueles que sabem mais do que ele. É por isso que se deve consultar e associar a sociedade civil às decisões, é a única maneira de se aplicar as reformas", acredita Isabelle Falque-Pierrotin, da Comissão Nacional Informática e Liberdades (CNIL).

Os cidadãos, que podem ser ativos sem muito esforço graças à internet, têm mostrado regularmente sua capacidade de mudar as coisas. Prova disso é o sucesso da plataforma de petições Change.org, que atrai entre 1 e 2 milhões de usuários por mês na França. "Existe uma vontade de agir. O objetivo de fato é produzir mudanças", conta Benjamin des Gachons, diretor da Change.org para a França. A Change.org conta com diversos casos de sucesso. Em 2015, por exemplo, Mélanie Doerflinger, jovem estudante de 20 anos, lançou um abaixo-assinado exigindo que a indústria revelasse a composição dos absorventes higiênicos internos e externos. Ela coletou quase 300 mil assinaturas e provocou uma conscientização pública. O Ministério da Saúde lançou na primavera duas enquetes públicas.

"É preciso expandir a forma de se tomar decisões", diz Axelle Lemaire. A secretária de Estado para a Informática, sendo coerente com seu próprio discurso, conduziu a primeira grande experiência de coprodução legislativa, com sua lei para uma República digital promulgada no outono. O texto inicial, antes mesmo de ser analisado pelo conselho ministerial, foi submetido aos internautas.

Foi um sucesso de audiência e de participação. A plataforma dedicada registrou 137 mil visitantes únicos, 8.500 contribuições e 147 mil votos. Cinco artigos vieram enriquecer o texto inicial, como as medidas que regulam as competições de esportes eletrônicos e a medida que autoriza a auto-hospedagem de dados. A secretária de Estado fala sobre as vantagens do processo, que ela espera que se popularize. "Esses trabalhos prévios permitiram remover as polêmicas inúteis do texto e é a única lei do mandato que foi aprovada em unanimidade", comemora Axelle Lemaire.

Já a prefeitura de Paris optou por confiar aos parisienses a gestão de 5% do orçamento da cidade. "Isso representa 500 milhões de euros entre 2014 e 2020, é mais do que em Nova York!", comemora Pauline Véron, secretária municipal encarregada de todas as questões relativas à democracia local. No início do ano, os parisienses propõem em um site dedicado um projeto que seja de seu interesse. A prefeitura analisa sua viabilidade técnica e seu custo. Em seguida as propostas são submetidas a votação e são incluídas no programa de investimentos da prefeitura. Nas ruas de Paris já surgiram paredes verdes, equipamentos de ginástica e espaços de trabalho compartilhados.

O temor de uma espécie de "uberização"

A coprodução da lei e a transparência dos processos estão longe de ser unanimidade. "Foi uma luta incessante conduzir essa lei", admite Lemaire, que encontrou pelo caminho a resistência de lobbies como do Medef (patronato), da Força Operária e de federações profissionais como a Tech in France, mais acostumadas a trabalhar nos bastidores com conselheiros ministeriais do que se mostrar publicamente.

A administração central, que se sentiu ameaçada, também foi totalmente contra. De maneira geral, nos corredores do poder, as pessoas não admitem, mas temem que surja uma espécie de "uberização", que destruiria tudo por onde passasse. "Pelo contrário, isso reforça a legitimidade do político, pois afinal é o político que decide. É importante o fato de que ele pode ser cobrado", retruca Axelle Lemaire.

Para os entusiastas da tecnologia, o digital promete um mundo mais democrático. Mas o risco de ver esse novo mundo se transformando em um pesadelo está ao alcance de um clique. "O Daesh (acrônimo árabe da organização Estado Islâmico) não existiria sem a internet. Há 25 anos, os discursos de Alain de Benoist, o filósofo de extrema-direita, estavam confinados às páginas da [revista] "Rivarol". Hoje, eles podem ser encontrados online", lembra Benoît Thieulin, diretor da escola de comunicação do Sciences Po.

Além disso, os populistas foram os primeiros a embarcarem nessa onda de ferramentas eficazes e baratas. Na Itália, o Movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo se tornou a principal força de oposição italiana, fragilizando o presidente do conselho, Matteo Renzi, primeiramente graças à internet. O blog do ex-comediante de rabo de cavalo grisalho é um dos mais visitados da Itália. Sua conta no Twitter tem 2 milhões de seguidores e seu partido não recua diante de nenhum método de poucos escrúpulos, propagando informações falsas, se necessário.

Por enquanto, o ciberespaço ainda se limita a consolidar as opiniões dos convictos, em vez de representar a sociedade como um todo. "A dificuldade é fazer com que as pessoas se interessem pela coisa pública. As ferramentas só ampliaram um interesse que já existia antes, e que afeta uma comunidade de mais idade, que possui tempo. Paralelamente, estamos vendo crescer uma demanda de verticalidade cada vez mais forte, com a ideia do homem forte, que anda de mãos dadas com o populismo, sobretudo entre as camadas mais pobres. É o fenômeno Trump", diz Thierry Vedel, pesquisador do Cevipof.

Esse fenômeno se amplifica na Web, onde predomina a emoção. "Na internet, os eleitores estão com os nervos à flor da pele, e seus sentidos estão hipertrofiados. O que compensa é não estar no hipercontrole", diz Nicolas Colin. Durante a campanha americana, os internautas não ressentiram Donald Trump por suas opiniões e afirmações absurdas. Na França, os políticos parecem mais temerosos. François Fillon não faz suas próprias postagens no Twitter. "É arriscado demais. Às vezes você está cansado e comete uma gafe", acredita Pierre Danon.

E como fazer da internet um espaço realmente democrático? "É preciso ir além dos geeks. Fazer consultas é uma verdadeira habilidade, que deve ser adotada pelas autoridades públicas", diz Falque-Pierrotin. Ela assumiu a função de sensibilizar os mais velhos sobre as questões de privacidade e dados pessoais, domínio que a priori é totalmente estranho a eles.

Mais complicada é a concorrência que emerge entre sufrágio universal e democracia participativa. Não é fácil definir as novas fronteiras de responsabilidade. "Em Paris, as pessoas se divertem com microprojetos, mas não se pede aos parisienses que eles se pronunciem a respeito do fechamento das vias às margens do rio", observa Thierry Vedel. De fato, a prefeitura consultou os cidadãos diretamente sobre um remodelamento dessas vias, mas não sobre seu fechamento definitivo, que hoje é alvo de polêmica. No site da prefeitura de Paris, os internautas se queixam. Mas na verdade eles foram consultados. "Essa decisão estava no programa de Anne Hidalgo. Não íamos fazer os parisienses votarem duas vezes", diz Pauline Véron, secretária municipal.

Uma coisa é certa, apesar dos riscos e das dificuldades: a internet está mudando as coisas. "As instituições democráticas atuais vêm do século 19, quando a maioria das pessoas era analfabeta, escrevia-se a pena e andava-se de cavalo. As mudanças induzidas pelo digital são grandes. No entanto, elas não entraram nas instituições", explica Benoît Thieulin. O cidadão 3.0 não irá mais passar cheques em branco de cinco anos.

 

Tradutor: UOL

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