Chamada de "Pocahontas" por Trump, senadora democrata se firma como sua maior opositora

Stéphane Lauer

  • Justin Sullivan/Getty Images/AFP

    Elizabeth Warren, senadora democrata pelo Estado de Massachussetts

    Elizabeth Warren, senadora democrata pelo Estado de Massachussetts

A senadora democrata de Massachusetts não está disposta a se calar. Defensora fervorosa dos consumidores e da regulação financeira, ela se tornou uma das líderes da oposição

A "Pocahontas" está mais do que nunca no caminho da guerra. Esse é o apelido que lhe foi dado por Donald Trump durante a campanha presidencial. Elizabeth Warren, a senadora democrata de Massachusetts, inimiga declarada dos excessos de Wall Street e detratora incansável da misoginia e dos discursos de conotação racista do bilionário, já havia se destacado como uma das principais adversárias do futuro presidente americano.

O apelido surgiu em maio, em uma das tiradas do candidato republicano pelo Twitter. Algumas horas antes, mais uma vez, Warren havia acertado na mosca ao ironizar o fato de que o magnata do setor imobiliário suscitava mais entusiasmo entre a Ku Klux Klan do que entre a liderança do Partido Republicano, uma reação provocada pelo apoio da organização supremacista branca à candidatura de Trump.

Irritado, o bilionário retrucou chamando a senadora de "Pocahontas", em referência ao sangue indígena que corre em suas veias. Nos anos 1980, a jovem de fato se declarou como "minoria ameríndia" em suas fichas de inscrição para a universidade. E, em 2012, ela fez de suas origens cherokee e delaware um argumento de campanha para conquistar o posto de senadora de Massachusetts, sendo chamada de delirante e oportunista por seu adversário, o republicano Scott Brown. Em vão: os eleitores escolheram a democrata, que se tornou a primeira senadora mulher do Estado.

Desde o episódio "Pocahontas", as relações com Trump nem de longe se acalmaram. Warren, 67, que está em um Partido Democrata atordoado desde a derrota de Hillary Clinton, se afirma como uma das líderes da oposição. Cada decisão do magnata, cada uma de suas declarações é avaliada, comentada e criticada pela senadora, que prometeu não deixar passar nada nos próximos quatro anos.

Especialista em grandes endividamentos

Nos últimos dias, ela concentrou seus ataques no conflito de interesses ao qual o novo presidente se encontra exposto. No dia 1º de dezembro, ela pediu uma investigação oficial sobre o Trump International Hotel que acaba de ser inaugurado a dois passos da Casa Branca.

O contrato de locação, assinado em 2013 entre a Trump Organization e a agência encarregada do patrimônio do Estado federal, estipula que "nenhum membro do Congresso ou representante eleito (...) está autorizado a deter ações ou participação nesse contrato ou a se beneficiar dele". E Warren ressalta que isso geraria uma situação na qual "o presidente eleito se tornaria ao mesmo tempo proprietário e locatário" desse hotel, acrescentando que "um cenário como esse representa um conflito de interesses inadministrável".

Anteriormente a senadora já havia comprado briga ao denunciar a influência dos lobbies e de Wall Street sobre a equipe de transição presidencial. "Vocês haviam prometido que não ficariam nas mãos de 'interesses particulares e dos lobistas que corromperam nossos políticos há muito tempo' e que vocês iam 'drenar o pântano' em Washington", ela afirmou em uma carta virulenta endereçada a Trump, pedindo para que ele "se separasse dessa equipe".

Esse é um conselho que Trump teve o cuidado de não seguir, ao nomear Steve Mnuchin como secretário do Tesouro. Warren logo chamou o ex-banqueiro do Goldman Sachs e ex-diretor de fundos especulativos de "Forrest Gump da crise financeira."

No entanto, a violência do debate político não era a primeira escolha de Elizabeth Warren. Com seu ar de professora primária, óculos de aro fino e rígido corte de cabelo, essa nativa de Oklahoma City inicialmente preferiu o universo discreto do direito e da docência universitária. Depois de um doutorado obtido em 1976 pela faculdade de direito de Rutgers, em Nova Jersey, ela passou no exame da ordem dos advogados, seguiu uma carreira acadêmica no Texas e depois, a partir de 1992, em Harvard, onde durante muito tempo foi a única professora a ter estudado antes em uma universidade pública.

Para entender sua trajetória e suas escolhas políticas, é preciso olhar para sua infância. Ela tinha 12 anos quando seu pai, Donald Herring, funcionário da loja de departamento Montgomery Ward, sofreu um ataque cardíaco. Embora ele tenha se recuperado, Elizabeth viu sua mãe se afundar em dívidas com as contas de hospital. Como esta não era suficientemente confiável na visão dos órgãos de crédito, para garantir um mínimo de renda ela aceitou um emprego mal pago na Sears, enquanto Elizabeth, com 13 anos, já fazia bicos no restaurante de sua tia.

Dessas dificuldades que passou na juventude, ela guardou um interesse particular pelo problema dos grandes endividamentos. Enquanto professora da faculdade de direito do Texas, ela se lançou em um minucioso trabalho para tentar entender quem são os americanos que abrem falência pessoal e o que os leva a isso. Depois de entrevistar dezenas de juízes e advogados, além de estudar centenas de casos, ela constatou que essas pessoas não eram esses irresponsáveis retratados pelos conservadores.

A maioria delas eram membros da classe média que, por motivos de doença, desemprego ou divórcio, acabaram caindo em um círculo vicioso do qual os desonestos órgãos de crédito se aproveitaram vergonhosamente. Seu trabalho e suas convicções atraíram para si a inimizade de seus colegas, que acreditavam que ela dava importância demais ao social e não o suficiente para os próprios princípios do direito. "Escrever leis baseadas em uma teoria abstrata em vez de partir da realidade é um empreendimento perigoso", respondeu Warren.

"Ninguém faria isso no meu lugar"

Seu primeiro contato com a política foi em 1995, quando o presidente da comissão de leis do Congresso, o democrata Michael Synar, lhe pediu para redigir um relatório sobre as falências pessoais. Ela inicialmente se mostrou reticente, por temer que seu trabalho fosse esmagado pelos lobbies. Seu mentor lhe prometeu que, se ela se empenhasse a fundo, ele cuidaria de passar suas ideias para o plano político.

Mas Synar morreu de câncer um ano depois. A futura senadora cogitou desistir. "Eu tinha uma escolha a fazer. Voltar para o mundo acadêmico ou mergulhar na política. Eu achava que se eu não fizesse isso, ninguém faria no meu lugar", ela explicou em uma entrevista ao "Boston Globe", em 2012.

Seu trabalho deu origem a um calhamaço de 1.300 páginas, submetido ao Congresso em 1997, que permaneceu amplamente ignorado. Em 2005, George W. Bush até mesmo endureceu a lei sobre a falência pessoal. Mas, três anos mais tarde, o cenário mudou, com o mundo inteiro abalado pela crise financeira. As certezas do passado sobre as vantagens de um sistema totalmente desregulado foram pelos ares.

Warren imediatamente foi escolhida por Harry Reid, líder da maioria no Senado, para participar de uma comissão de controle do Congresso sobre a implantação do plano Paulson, que supostamente salvaria a economia americana. Foi o início de uma influência política que não parou mais de crescer. 

Desde então ela só tem uma obsessão: criar uma agência de proteção dos consumidores vítimas de comportamentos predatórios do mercado financeiro, que, durante anos, distribuiu empréstimos hipotecários e cartões de crédito como se fossem água. Seu projeto foi integrado à lei Dodd-Frank sobre a regulação financeira, votada em 2010.

A agência americana de proteção dos consumidores (CFPB) surgiu em 2011, quando Warren fazia parte do gabinete executivo do presidente Barack Obama. Nesse cargo estratégico, ela se tornou uma espécie de fervorosa militante contra os excessos de Wall Street e alvo preferencial do campo republicano e dos grandes bancos.

A CFPB teve seu momento de glória em 2016, com o escândalo envolvendo o grupo Wells Fargo, condenado por ter criado contas falsas sem seus clientes saberem. Mas esse pode ter sido seu canto do cisne. A instituição está há meses na mira dos republicanos, que a acusam, entre outras coisas, de ter restringido de maneira abusiva o acesso dos consumidores ao crédito.

Trump adotou para si a crítica. Sua prioridade seria desregular de forma generalizada para permitir que os bancos façam empréstimos sem restrições, uma provocação para Elizabeth Warren. "Se Trump e o Partido Republicano tentarem soltar as rédeas dos bancos para que eles possam mais uma vez jogar com nossa economia e pôr tudo a perder, então vamos combatê-lo a cada etapa do caminho", ela avisa. A Pocahontas não está disposta a fumar o cachimbo da paz.

Tradutor: UOL

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