Comunidade se opõe a usina nuclear no litoral da Coreia do Sul

Em Yeongdeok (Coreia do Sul)

  • Tepco/Reuters

    Reator nuclear da usina de Fukushima, no Japão, atingida por tsunami em 2011

    Reator nuclear da usina de Fukushima, no Japão, atingida por tsunami em 2011

Visitantes deste trecho idílico do litoral da Coreia do Sul se maravilham com a vista do mar esmeralda batendo contra os costões íngremes e com as colinas onduladas cobertas de pinheiros verdes. Eles param nos restaurantes à beira-mar onde cartazes vermelhos anunciam alegremente a iguaria local, conhecida como caranguejo-bambu, e assistem aos barcos de arrastão voltarem para as pitorescas aldeias de pescadores.

No entanto, para muitas das pessoas que moram em Yeongdeok, a vida está cada vez mais deprimente e solitária. Os jovens vão embora para fazer carreira em cidades distantes, e anos de pesca predatória esvaziaram as redes.

Nos dias de semana, quando os turistas vão embora, a solidão abate.

Então, em 2010, os 399 habitantes, principalmente idosos, que compunham a população de três aldeias concordaram em desistir das terras e do seu modo de vida centenário para abrir caminho para uma coisa que poucos lugares queriam: uma usina nuclear.

Essa decisão mergulhou o Condado de Yeongdeok, ao qual pertence o vilarejo, num debate acirrado sobre se a usina seria uma salvação ou uma sentença de morte. O confronto também revelou o profundo desespero das comunidades rurais cada vez mais vazias da Coreia do Sul, bem como os receios crescentes sobre a forte dependência do país em relação à energia nuclear.

"Não temos nenhuma esperança, nenhuma alternativa a não ser a usina nuclear", disse Lee Wan-seop, 54.

Lee, nativo de Yeongdeok, acreditava que a usina traria "muita sorte", criando empregos e receitas, e interromperia o longo declínio do condado.

Do outro lado do debate estavam moradores como Shin Wang-ki, 56, que planta peras, maçãs e pêssegos e acreditava que a usina significaria o fim do modo de vida antigo que tanto apreciavam.

"De jeito nenhum! Quem vai comprar frutas ou caranguejos de uma área perto de uma usina nuclear?", disse. "Herdei uma terra limpa dos meus ancestrais e quero deixá-la assim para os meus filhos."

Yeongdeok, 250 km a sudeste de Seul, tem algumas das mais belas vistas da costa leste do país. Ondas explodem em campos de espuma branca no pé dos morros. Por séculos, os pescadores esculpiram suas casas nas falésias, como ninhos de aves, coletando abalones e saindo de barco em busca de caranguejos-bambu.

No entanto, a defesa da usina nuclear por parte do condado foi gerada pela mesma luta pela sobrevivência que aflige comunidades rurais da Coreia do Sul e de muitas outras partes do mundo. (Cheongsong, um condado a oeste de Yeongdeok, está fazendo campanha por uma nova prisão estadual.)

A população de Yeongdeok, que era de 113 mil em 1974, caiu para apenas 38 mil --e quase um terço das pessoas tem 65 anos ou mais-- e, como as mortes ultrapassam os nascimentos em quatro para um, espera-se que ela encolha ainda mais. O município só consegue fornecer 8,8% do seu orçamento por conta própria; o governo central provê o resto.

Então, em 2005, quando a Coreia do Sul procurou um local para depositar resíduos de baixa radioatividade provenientes de seus reatores e enfrentou protestos violentos de muitas comunidades, Yeongdeok se ofereceu.

Mas Yeongdeok perdeu para uma cidade rival ao sul, Gyeongju, onde uma porcentagem maior de moradores, 89,5%, concordou em instalar o depósito de lixo radioativo lá.

Cinco anos mais tarde, quando Yeongdeok ficou sabendo que o governo buscava lugares para novas usinas nucleares, não quis perder novamente. Desta vez, ela ganhou a aprovação de todos os moradores das três aldeias que ofereceram terreno, bem como de todos os sete membros do Conselho do Condado, antes de se candidatar.

Sem reservas de petróleo ou gás, a Coreia do Sul precisa importar quase todos os seus recursos energéticos e considera a energia nuclear a forma mais barata de continuar oferecendo energia para sua indústria. Seus 24 reatores nucleares geram um terço da eletricidade do país. Quatro reatores estão em construção, e outros seis devem ser construídos até 2027, dois deles em Yeongdeok.

Em 2012, a Coreia do Sul selecionou Yeongdeok e Samcheok, uma cidade litorânea ao norte, como os locais para os novos reatores.

No entanto, naquele momento, o ceticismo e a ansiedade já estavam se espalhando. Primeiro veio o desastre de Fukushima, em 2011, no Japão. Depois veio outro choque: relatórios que vieram à tona após uma série de escândalos revelaram que usinas nucleares de toda a Coreia do Sul estavam usando peças cujos testes de segurança haviam sido falsificados.

No ano passado, o novo prefeito de Samcheok convocou um referendo em que os moradores votaram contra a decisão tomada na gestão anterior. Quando o prefeito de Yeongdeok se recusou a fazer o mesmo, os moradores contrários à usina começaram a se organizar e ativistas de fora chegaram para ajudar. Eles convocaram um referendo por conta própria em novembro.

O governo e a Korea Hydro & Nuclear Power Company, que opera as usinas nucleares do país, pediu que os moradores não participassem do referendo, que consideraram ilegal uma vez que um projeto federal não está sujeito a um plebiscito do condado. Eles também acusaram os forasteiros de levarem o ativismo anti-nuclear para o local para impedir um importante projeto nacional.

Cerca de 11 mil moradores do condado participaram do referendo. Destes, quase 92% votaram contra a usina nuclear.

Ativistas anti-nucleares clamaram vitória, enquanto o governo rejeitou o resultado e reiterou seu plano de construir uma usina no local.

A desobediência civil em Yeongdeok representa apenas um dos muitos desafios que o setor de energia nuclear enfrenta na Coreia do Sul, problemas que nunca teve de enfrentar quando o primeiro reator entrou em operação em 1978 sob um governo autoritário. Em junho, uma comissão do governo advertiu que, a partir de 2019, as usinas antigas ficariam sem espaço de armazenamento para resíduos altamente radioativos. O país precisa construir um novo repositório central com urgência para esses resíduos, disse o relatório.

Mas o governo não conseguiu nem mesmo começar a procurar. Moradores de Miryang, uma vila no sudeste do país, realizaram inúmeros protestos recentemente, inclusive uma auto-imolação, para se opor contra um risco bem menor: torres de transmissão de alta tensão para distribuir eletricidade de uma usina nuclear distante.

Depois do referendo, Yeongdeok estava de volta à sua velha calmaria numa visita recente. Os preços das terras subiram e muitas casas novas surgiram nos morros. Mas as casas permanecem vazias, na maior parte, uma vez que os especuladores esperam que a companhia de energia elétrica as compre, de acordo com uma lei que exige o pagamento de indenizações para proprietários de imóveis perto de usinas nucleares.

Moradores de ambos os lados da questão nuclear estão esperando as eleições parlamentares de abril, quando os candidatos de Yeongdeok terão de tomar partido.

"Para as pessoas daqui, o que o governo dizia era visto como a lei e a verdade", disse Kim Eok-nam, 47, que acredita que seu sonho de vender produtos orgânicos evaporará com a chegada de uma usina nuclear. "Mas nesse projeto de energia nuclear, vamos mostrar que não somos fracos."

Tradutor: Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos