Fuga de cérebros para a China se transforma em um símbolo da crise econômica de Taiwan

Austin Ramzy

Em Taipei (Taiwan)

  • Pichi Chuang/Reuters

    Tsai Ing-wen, líder do DPP em Taiwan

    Tsai Ing-wen, líder do DPP em Taiwan

Jason Lee passou a maior parte da última década construindo um negócio num ramo pelo qual Taiwan é famoso. Com mais três amigos, ele fundou um estúdio de animação em Taiwan, produzindo programas de TV e efeitos especiais para jogos e filmes.

Mas os custos subiram e os trabalhos diminuíram, e eles fecharam a empresa em 2011. Alguns anos mais tarde, Lee se mudou de Taiwan para a China continental, onde foi contratado para coordenar um estúdio de animação na cidade de Qingdao. Cinco meses atrás, ele abriu seu próprio estúdio lá. Ele tem 20 funcionários, um número que ele espera dobrar após o Ano Novo chinês, no mês que vem --um crescimento que ele não poderia ter imaginado em Taiwan.

"Pessoalmente, vejo isso como uma coisa boa", disse Lee, de 38 anos.

Mas o que é bom para Lee, e para muitos entre as centenas de milhares de taiwaneses que trabalham no exterior, pode não ser tão bom para Taiwan. As pessoas estão cada vez mais preocupadas com o fato de que o crescimento do comércio e do investimento através do Estreito e o grande número de taiwaneses que trabalham no continente estejam deixando Taiwan dependente demais da China, que reivindica a ilha como parte de seu território e tentou usar seu poder econômico para comprar influência.

Essas preocupações ajudaram a desencadear amplos protestos em 2014 contra o partido no poder, o Kuomintang, que enfrenta a possibilidade de uma grande derrota nas eleições presidenciais e legislativas neste fim de semana.

Como em eleições passadas, a questão política fundamental é a China, e se o futuro de Taiwan está numa relação mais próxima com sua vizinha gigante ou em uma identidade autônoma. Mas depois de oito anos de estreitamento dos laços comerciais, a questão tem assumido um tom profundamente econômico, enquanto os candidatos do Kuomintang e de seu principal rival, o Partido Democrático Progressista (DPP), debatem os riscos e a recompensas da aproximação com a China.

Tsai Ing-wen, candidata presidencial do DPP, tem uma ampla vantagem nas pesquisas de opinião. As pesquisas também indicam que seu partido tem grande chance de assumir o controle do legislativo pela primeira vez, o que pode dar a ele um poder sem precedentes para implementar suas políticas.

Durante a campanha, Tsai criticou o Kuomintang por causa do enfraquecimento da economia de Taiwan, dizendo que o partido não protegeu as empresas nacionais da concorrência chinesa subsidiada pelo Estado.

"O ambiente para a inovação e o empreendedorismo em Taiwan está cada vez pior", disse ela no mês passado. "Os trabalhadores estão indo para o exterior, e um número muito grande está sendo levado pelas empresas chinesas. Muitos dos nossos jovens no exterior não conseguem encontrar um jeito de voltar para casa."

O candidato presidencial nomeado pelo Kuomintang, Eric Chu, argumentou que a China continua sendo importante para o futuro econômico de Taiwan. Mas, como o crescimento econômico de Taiwan chegou a um impasse, os eleitores parecem temer continuar nesse caminho. As perspectivas eleitorais de Chu também foram prejudicadas por um candidato de um terceiro partido, James Soong, que deixou o Kuomintang em 2000.

A fuga de cérebros se transformou num símbolo da crise econômica de Taiwan. A questão, dizem analistas e economistas do país, é que a falta de bons empregos e os salários baixos levam muitos a procurar oportunidades melhores no exterior.

A China é de longe o maior ímã para esses talentos. Um estudo dos registros de imigração constatou que, em 2013, 600 mil pessoas, dos 23 milhões de habitantes de Taiwan, passaram mais de metade do ano no exterior. Três em cada quatro foram para a China. Outras estimativas dizem que um milhão ou mais de taiwaneses trabalha no exterior.

No passado, muitas pessoas foram para a China para administrar fábricas taiwanesas. Mas agora, os empregos que as levam para lá são principalmente os do setor criativo, como a animação, ou de alta tecnologia, como arquitetura de circuitos integrados, no qual Taiwan tem uma tecnologia mais avançada.

"Uma coisa que nos preocupa é que, à medida que a China cresce, ela quer recrutar mais pessoas desses setores-chave de Taiwan", disse Kao Shien-quey, vice-ministro do Conselho Nacional de Desenvolvimento da ilha. "Para desenvolver telas planas, LEDs, LCDs e energia solar, eles chegaram e levaram pessoas de Taiwan. Agora tememos que eles queiram desenvolver circuitos integrados, e para desenvolver isso eles levarão muita gente daqui."

A economia de Taiwan tem experimentado alguns benefícios com os trabalhadores que vão para estrangeiro, como quando os taiwaneses que foram trabalhar no Vale do Silício voltaram para ajudar a desenvolver as empresas de tecnologia. Mas cada vez mais, esses profissionais estão ajudando a China a desenvolver sua própria indústria nacional, em vez de trazer novas habilidades para Taiwan.

"Não podemos culpar os outros por tentar atrair os profissionais de Taiwan", disse Lu Jiun-wei, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica de Taiwan, responsável pelo estudo sobre a força de trabalho taiwanesa no exterior. "Temos que nos certificar de que nossas políticas são suficientes para mantê-los aqui. Se as nossas políticas forem boas e mais pessoas ficarem aqui, então o futuro de Taiwan será melhor."

Durante a eleição de 2012, o Kuomintang se retratou como melhor partido para administrar a economia e as relações com a China continental. Durante o governo do presidente Ma Ying-jeou, Taiwan chegou a mais de 20 acordos com a China, e o comércio entre os dois lados aumentou mais de 50% durante seus oito anos no governo.

Mas os benefícios não foram sentidos amplamente em Taiwan, onde os salários estagnaram nos últimos anos. E, à medida que o crescimento da China desacelerou, a economia de Taiwan caiu, contraindo em relação ao último trimestre. O crescimento do PIB de 2015 deve ser de apenas 1%.

O Kuomintang, que trocou os candidatos presidenciais em outubro depois que o primeiro nomeado tropeçou feio no início da campanha, continua defendendo a importância dos laços com a China para desenvolver a economia de Taiwan.

Ma Ying-jeou teve um encontro histórico com o presidente da China, Xi Jinping, em Cingapura, em novembro, e Chu citou a reunião e os acordos anteriores entre os dois lados como prova de que o trabalho do Kuomintang tem produzido resultados.

O DPP questionou se o encontro com Xi foi um esforço para influenciar a eleição deste mês. No entanto, ele teve pouco efeito sobre as pesquisas e a liderança de Tsai manteve-se estável nas últimas semanas.

"O Kuomintang não tem cuidado de nós da classe média", disse Ling Shih-how, 30, que vende materiais de construção em Taipei. "Ele só cuida das corporações, e eles querem ficar dependentes da China. A verdade é: para as exportações, deveríamos procurar a Europa e os EUA. Precisamos ter algum equilíbrio."

Ling disse que pretende votar em Tsai, na primeira vez que ele apoia um candidato do DPP para presidente.

Ambos os candidatos, do DPP e do Kuomintang, têm falado sobre a necessidade de reavivar a capacidade de inovação de Taiwan. Mas Tsai colocou mais ênfase nos benefícios sociais, como habitação a preços acessíveis para as pessoas que sofreram com a crise.

Todos os candidatos dizem que o comércio continuará sendo fundamental para a economia. Mas enquanto Chu diz que a China, maior parceira comercial de Taiwan, deve continuar tendo prioridade, Tsai defendeu uma estratégia de desenvolver o comércio com um conjunto maior de parceiros, inclusive os Estados Unidos.

Se ela assumir o poder, a capacidade do DPP de perseguir esse objetivo será limitada pela China, que tem poder de veto sobre a participação de Taiwan em acordos internacionais, disse Jonathan Sullivan, professor associado da Escola de Estudos Chineses Contemporâneos na Universidade de Nottingham.

"Durante a campanha, o foco econômico tem estado mais voltado a temas sócio-econômicos, como aumento da oferta de habitação social acessível e o aumento dos salários para trabalhadores de nível superior", disse ele. "Estas políticas capturam o espírito do tempo, mas eu não acredito que o DPP seja capaz de promover uma reforma radical na economia."

Tradutor: Eloise De Vylder

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