No Afeganistão, empresário fatura com roupas usadas de instituições internacionais

Mujib Mashal

Em Cabul (Afeganistão)*

  • Andrew Quilty/The New York Times

    Funcionários de Ramazan carregam fardo de roupas para um varejista em Cabul

    Funcionários de Ramazan carregam fardo de roupas para um varejista em Cabul

Hajji Ramazan construiu um pequeno império com roupas usadas. Sua loja, que viu suas fortunas crescerem e se dissiparem juntamente com as de Cabul, foi fundada por seu pai há 40 anos no mercado Chindawul, um dos mais antigos da capital afegã. Os comerciantes no estreito beco com várias dezenas de lojas vendem de tudo, de carvão para aquecimento a televisores e "jalebi", frituras em espiral mergulhadas em calda de açúcar.

O mercado passava por um período relativamente tranquilo recentemente, depois da movimentação do final do outono, quando fardos de roupas de inverno usadas importadas --suéteres para crianças, blazers femininos e casacões para homens-- formavam altas pilhas nas lojas.

Em uma tarde fria, trabalhadores estavam agachados junto de uma parede à luz do sol, conversando enquanto bebiam chá, com seus carrinhos estacionados em fila. Ao fundo, as montanhas cobertas de neve brilhavam.

Os donos de lojas se mantinham ocupados separando as roupas diante de suas lojas e sobre as lajes. Ou cozinhavam o almoço, limpavam os pratos, acertavam contas com parceiros ao telefone e planejavam o trabalho na primavera, quando chegariam novos artigos. Vários clientes carregavam fardos em carrinhos ou na traseira de caminhonetes alugadas para transportar suas compras.

Quando Ramazan era menino, ele costumava passar as manhãs na escola e as tardes ajudando seu pai na loja.

"Naquele tempo, pobres e ricos vinham aqui comprar roupas usadas", lembrou com saudade o comerciante, hoje com 58 anos. "No centro de Cabul havia duas ou três lojas de roupas novas, mas que não tinham a mesma qualidade das roupas usadas daqui."

"Vinham ministros, generais do Exército", acrescentou ele. "Estacionavam seus carros na frente do mercado e andavam com seus filhos. Não havia guarda-costas naquele tempo."

A rebelião dos anos 1980 depois da invasão soviética deixou o mercado de roupas usadas em Chindawul em um impasse. Depois que uma delegacia próxima foi atacada e saqueada por rebeldes, o governo apoiado pelos soviéticos assediava os homens e meninos da área, incluindo lojistas, padeiros e até viajantes hospedados nos hotéis próximos.

A família de Ramazan fechou a loja e partiu para sua aldeia, no norte. O mercado, de propriedade de uma família que migrou para os EUA depois da invasão soviética, foi saqueado e incendiado na guerra civil que se seguiu nos anos 1990.

Quando Ramazan voltou para abrir a loja na época dos talibãs, a maior parte do mercado continuava em ruínas.

Logo depois que o novo governo apoiado pelos EUA foi instalado, em 2001, ele teve a ideia ambiciosa de comprar direto na fonte e viajou pela primeira vez a Karachi, cidade portuária do Paquistão onde os comerciantes compram roupas usadas de instituições de caridade e empresas dos EUA, Reino Unido, Alemanha e Coreia do Sul, os maiores exportadores. (A indústria mundial de roupas usadas fatura bilhões de dólares.)

Os comerciantes de Karachi fornecem às regiões norte do Paquistão, do Irã e do Afeganistão.

Depois de dois dias de viagem de ônibus, Ramazan foi muito bem recebido pelos comerciantes animados, que queriam aumentar as exportações para o Afeganistão novamente. Mesmo sem muita tradição de negócios com ele, deram-lhe 40 fardos a crédito.

"Você não vai roubar nosso dinheiro, temos confiança", Ramazan lembra que os comerciantes lhe disseram.

Desde então, ele faz duas viagens por ano a Karachi, cada uma durante duas ou três semanas. Os comerciantes de lá lhe deram até uma sala que usa para os negócios e mantém o ano todo. Ele se tornou um dos maiores comerciantes de roupas de segunda-mão do Afeganistão, importando mil fardos a cada inverno.

Ramazan vende para cerca de 50 varejistas em Cabul e outras províncias, e tem o que chama de "trabalhadores comissionados", que pegam roupas com ele a crédito de manhã e voltam à noite para acertar as contas, pagando-lhe 15% dos lucros.

A família Ramazan tem uma casa em Qalai Shadah, uma parte da cidade velha de Cabul, e um veículo 4x4, muito apreciado pelos ricos. Ele também conseguiu enviar um de seus cinco filhos à Austrália, pagando US$ 16 mil a contrabandistas para levá-lo.

Conforme envelhece e aos poucos transfere os negócios para seu filho mais velho, Ramazan prefere passar as manhãs em casa. Depois do almoço, caminha durante uma hora até a loja.

"A menos que eu realmente precise, não uso o carro", explicou. "Na minha idade, andar é bom para a saúde."

Servindo-se de várias xícaras de chá de uma garrafa térmica, ele passa a maior parte do tempo ao telefone com clientes das províncias e com a fonte em Karachi, fazendo encomendas menores, mais específicas. Com dois grandes anéis de turquesa e cornalina nos dedos, ele constantemente digita números em uma grande calculadora, fazendo o câmbio de moedas.

Quando um varejista que ele conhece compra um fardo --os preços variam de US$ 130 (cerca de R$ 520) por 100 kg de meias a US$ 700 (R$ 2.800) por cobertores coreanos--, as roupas passam por mais uma rodada de triagem, em que o valor de cada peça é definido de acordo com seu estado.

Alguns comerciantes se queixam de uma queda nos negócios, depois de um ano duro para a economia afegã.

"A população diminuiu", disse Ramazan, referindo-se ao êxodo da classe média para a Europa. "Eles não compram mais os artigos bons, só os mais baratos", afirmou.

E alguns temem que a qualidade das roupas importadas não seja mais tão boa quanto antes.

"Quando abrimos os fardos dos EUA e da Alemanha, encontramos muitas roupas chinesas", disse Sayed Ahmad, 40, um varejista. "O que sai do fardo é pura sorte."

Os comerciantes, acostumados a longos períodos de espera, esfregam as mãos para se aquecer, conversam com os vizinhos e bebem chá até que chegue um comprador. Às vezes a conversa --muita barganha sem uma venda-- acaba em frustração.

"Se você gostou, pode comprar e se não, deixe aí e vá embora", disse um comerciante --um ex-combatente da Resistência de 68 anos que afirma já ter comandado mil homens-- a um casal mais velho que pechinchava o preço de calças para esquiar.

"Por que você está bravo?", disse o idoso quando deixou as calças e se afastou com sua mulher.

Outras barganhas são fechadas rapidamente. Abdul Hamid, um estudante da quarta série que trabalha como aprendiz em um restaurante depois da escola, negociou um abrigo de malha azul-marinho de US$ 1,80 por US$ 1,10 na loja de Ahmad. Uma das mangas tinha buracos, ele afirmou, enquanto retirava a peça da pilha e a experimentava --duas vezes. Ele contou as notas, com as mãos jovens já grossas de trabalho, e se afastou sorrindo.

Na roupa, os dizeres: "Superlative Conspiracy" [conspiração superlativa].

*Zia ur-Rehman colaborou na reportagem, de Karachi (Paquistão) 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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