Apesar do medo, setor de turismo de Burkina Fasso mantém rotina após ataques

Dionne Searcey, Thibault Bluy e Hervé Takao

Em Uagadugu (Burkina Fasso)

  • Issouf Sanogo/AFP

    Soldado faz segurança no hotel Splendid, em Uagadugu, três dias depos do atentado

    Soldado faz segurança no hotel Splendid, em Uagadugu, três dias depos do atentado

Como recepcionista do enorme Laico Hotel, próximo ao centro desta cidade, Zacharia Bagagnan, 39, que não teve educação formal, ocupa um emprego que seus amigos invejam.

É uma luta encontrar trabalho remunerado em toda Burkina Fasso, onde o desemprego sobe em disparada. Mas o salário de Bagagnan lhe permite sustentar sua mulher e três filhos, e ele até comprou uma casa.

Mas, como outros homens e mulheres daqui que ficam atrás dos balcões de hotéis e restaurantes, recebendo calorosamente a clientela, principalmente de estrangeiros e membros da elite local, Bagagnan teme que seu trabalho possa de repente atirá-lo nas linhas de frente de uma guerra com militantes armados que podem atacar a qualquer momento.

"É claro que sinto medo", disse Bagagnan numa tarde recente, enquanto uma versão pasteurizada de "Strangers in the Night" tocava suavemente e hóspedes estrangeiros faziam fila para o bufê. "Mas não há muitos empregos aqui."

Não muito longe do Laico, atiradores invadiram o Splendid Hotel e o Cappuccino Cafe na noite de sexta-feira (15), provocando explosões e atirando nas pessoas que tomavam café ou passeavam pelo saguão do hotel. A afiliada da Al Qaeda no norte da África reivindicou a responsabilidade pela chacina, chamando o hotel, o café e arredores de "covis perigosos da espionagem global" e prometendo novos ataques.

Pizzas intocadas e garrafas de Sprite derrubadas continuam aqui, entre o vidro quebrado e as paredes chamuscadas do café, provas do horror repentino que se desencadeou. Do outro lado da rua, restos carbonizados de uma dúzia de veículos que derreteram, misturando-se ao chão.

Na tarde de segunda-feira (18), o presidente Roch Marc Christian Kaboré percorreu o local da carnificina, acompanhado pelo presidente do Benin, Thomas Yayi Boni, que veio oferecer condolências.

Ao todo, 29 pessoas morreram no ataque e dezenas ficaram feridas. Muitas eram estrangeiros que passavam pela capital em viagens de negócios ou missõesde voluntários. Mas pelo menos um empregado local teria sido morto. E não foi a primeira vez que a Al Qaeda visou estabelecimentos da região: três funcionários de hotéis estavam entre os abatidos quando a mesma filial da Al Qaeda atacou o Radisson Blu em Bamako, no Mali, em novembro.

Desde o ataque de sexta-feira, empregados em toda a cidade disseramque planejaram rotas de fuga caso surjam atiradores na porta de seus locais de trabalho. O medo do ataque é novo para a maioria deles, mas nenhum disse que pretende deixar o emprego, principalmente porque ninguém está contratando.

"Isto não vai mudar em nada nossa vida cotidiana", disse Isadore Tapsoba, um recepcionista no Relax Hotel, a curta distância de carro do Splendid. "O que vai mudar é a vida dos estrangeiros aqui."

Em estabelecimentos frequentados por expatriados, a conversa gira sobre equilibrar os riscos à segurança com comida familiar e os confortos de um hotel de quatro ou cinco estrelas. Um casal americano com uma atitude de "a vida é curta" chegou ao Laico em férias no domingo à noite, prosseguindo em sua viagem a Burkina Fasso depois de saber dos ataques durante uma escala em Paris.

Diante do Splendid na segunda-feira de manhã, Viraj Dhumatkar, um indiano especialista em tecnologia, tentava recuperar sua bagagem. Ela ficou presa lá dentro enquanto os investigadores vasculhavam o hotel.

Ele contou que estava com um colega burquinense, Lassane Kientega, em seu quarto no primeiro andar, preparando-se para sair à noite, quando começaram os ataques. Deitaram-se no chão e espiavam pela cortina de vez em quando, ouvindo os tiros que ecoaram durante horas. Finalmente, soldados franceses os resgataram.

Apenas uma hora antes do ataque, Dhumatkar dissera aos recepcionistas do Splendid que pretendia prolongar sua estada em Uagadugu. Agora ele quer pegar o próximo voo para a Índia.

Os trabalhadores locais disseramque não têmo luxo dessa opção. São obrigados a continuar em um ambiente que mudou de repente e onde reina a ansiedade.

Virando a esquina do Splendid, na manhã de segunda, Sali Nikiema, uma garçonete de 23 anos, confessou sentir-se nervosa ao abrir a Brasserie Tino, outro lugar muito frequentado por estrangeiros. Nikiema tinha ido encontrar sua irmã no Splendid quando o tiroteio começou, e elas correram para salvar suas vidas.

"Estou muito assustada!", afirmou Nikiema, que é estudante universitária e usa seu salário para sustentar a família. Agora quer mudar de profissão e ser secretária, mas duvida que consiga encontrar trabalho em um escritório.

Burkina Fasso é um dos países menos desenvolvidos do mundo, fortemente dependente da agricultura e cuja população vive sobretudo na área rural. A queda dos preços do algodão e do ouro e o surto de ebola em países próximos fizeram emperrar o crescimento econômico.

Para os habitantes, conseguir capital para abrir uma empresa é quase impossível, mesmo sem o labirinto de autorizações exigidas para se ter um negócio. A maioria das empresas é propriedade de estrangeiros. O ucraniano que é dono do Cappuccino Cafe perdeu três membros de sua família nos ataques, incluindo um filho jovem.

Para os burquinenses, a esperança de melhora econômica cresceu no último outono, quando Kaboré venceu as primeiras eleições livres e pacíficas em décadas. A população ficou especialmente animada com esse resultado, depois de um breve e mal-sucedido golpe nas semanas que antecederam a votação.

Agora Kaboré está em clima de crise e suas iniciativas econômicas provavelmente serão engavetadas. Mas alguns trabalhadores continuam otimistas.

"Isso não vai acontecer de novo", disse Aruna Sourou, um guia de safári com ar confiante, destinado a tranquilizar os clientes estrangeiros. "O governo está fazendo o que pode."

Mas outros estão em choque. Os jornais locais publicaram números de telefone para aconselhamento psicológico, e a direção de hospitais disse que está tratando dezenas de pessoas que têmdificuldade para processar os ataques em um país relativamente pacífico.

Perto da cidade, os parentes de Ahmed Sigué, um caixa no Cappuccino Cafe que continua desaparecido e supostamente morreu, estavam sentados em cadeiras plásticas em sua casa com paredes de barro, quase em silêncio, recebendo os amigos que vinham dar pêsames. Era um ritual de luto que eles decidiram realizar depois que longas conversas com os investigadores e buscas em hospitais e no necrotério deram em nada.

O emprego de Sigué lhe dava um salário que sustentava sua mulher e um bebê que chorava dentro da casa. As autoridades não o citaram como vítima, porém uma lista oficial de mortos descreve um corpo não identificado apenas como um indivíduo negro, seguido das palavras "empregado, Cappuccino".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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