Evangélicos veem Trump como um homem de convicção, mas não religioso

Maggie Haberman e Thomas Kaplan

Buford Arning, um executivo de materiais de construção aposentado de Statesville, Carolina do Norte, ia à igreja toda semana até que ficou difícil sair de casa por causa de um nervo prensado. Ele acredita em viver uma guiada pela fé. Mas não exige que eu candidato preferido, Donald Trump, seja religioso.

"Eu sou alguém que sai por aí com a Bíblia na mão, pregando nas calçadas e tentando convencer todo mundo? Não", disse Arning, 62, que se autodenomina um eleitor evangélico. Ele diz acreditar que Trump é "um homem cristão", e que isso basta.

Trump pode não ser tão religioso quanto o ex-governador de Arkansas Mike Huckabee, que era ministro batista, "mas acho que seus valores são muito parecidos", disse Arning.

"A vida pessoal dele é quase a de um santo comparada à de Bill Clinton", acrescentou.

Impetuoso, casado três vezes, paparicado num arranha-céu dourado na Quinta Avenida e dado a xingar no palanque em seus comícios, Trump, que passou sua carreira buscando e louvando a riqueza, poderia parecer uma escolha estranha para os eleitores que dão mais valor à fé, a esperança e à caridade.

No entanto, cada vez mais as pesquisas mostram Trump bem na frente do disputado campo republicano entre os eleitores evangélicos brancos, apesar da concorrência que inclui o senador Ted Cruz, do Texas, cujo pai é pastor evangélico; Huckabee, vencedor da convenção de Iowa em 2008; o ex-senador Rick Santorum, da Pensilvânia, um católico cujo histórico de criar uma filha com deficiência tocou os eleitores e o ajudou a conquistar a vitória na convenção de 2012; e Ben Carson, um neurocirurgião adventista do sétimo dia que levou a oração à sala de cirurgia e candidato que tem falado com frequência sobre suas crenças cristãs. Uma pesquisa New York Times/CBS News feita na semana passada mostrou Trump, que é presbiteriano, dominando o campo com 42% dos eleitores evangélicos; Cruz ficou em segundo com 25%.

Em dezenas de entrevistas com eleitores evangélicos de 16 Estados, de todas as regiões do país exceto o Nordeste, aqueles que apoiam Trump repetiram um refrão familiar: que ele tem o coração no lugar certo, que suas intenções para o país são puras, que só ele é capaz de salvar o país conturbado neste momento.

"Ele é o único que pode nos tirar do fundo do poço", disse John Juvenal, 67, republicano de longa data e policial aposentado em Oklahoma City.

Esses eleitores vivem fora do primeiro Estado a votar, Iowa, onde eles têm acompanhado a disputa e analisado suas opções. Mas um forte apoio dos cristãos conservadores poderia ajudar Trump a recuperar sua liderança em Iowa, onde Cruz tomou a frente nas pesquisas. E ele está fazendo um esforço para convertê-los. Na segunda-feira, Trump falou na Liberty University, em Lynchburg, Virgínia, uma instituição fundada pelo reverendo Jerry Falwell, que morreu em 2007. Trump vem buscando o apoio de Jerry Falwell Jr. Para atrair os eleitores evangélicos, e Falwell elogiou o candidato antes de sua palestra, comparando-o a Jesus Cristo e ao Rev. Martin Luther King Jr. por expressar ideias impopulares. E Trump já tem uma aparição marcada para o mês que vem com Pat Robertson, o apresentador conservador cristão.

Larry Ryman, um pastor de 74 anos de idade, que vive perto de Findlay, Ohio, disse que não sabe se Trump era um homem religioso. "Eu vou te dizer uma coisa. Se ele não for, está falando como um", disse Rayman, forte defensor de Trump.

Para muitos outros, Trump fala a verdade e reflete o que eles estão se sentindo: uma raiva febril contra o presidente Barack Obama, ansiedade por causa da economia e o medo de que terroristas possam se passar por refugiados sírios para se infiltrar no coração dos EUA. Ao invés de rechaçar a linguagem dura de Trump em relação aos imigrantes e os insultos contra pessoas de que ele não gosta, esses eleitores dizem que Trump está apenas sendo honesto.

"A espiritualidade é uma questão importante, mas precisamos de alguém que seja forte", disse Charles E. Henderson, 61, um veterano deficiente de Lexington, Kentucky, que cresceu frequentando uma igreja Nazarena. Ele considera Trump franco e decisivo, e acrescentou: "muitas vezes os pregadores têm a tendência de ser um pouco fracos".

Apesar de muito religiosos, vários eleitores entrevistados se esquivaram de julgar a fé de Trump.

Craig Wright, 69, de Goldthwaite, Texas, disse que escreveu para Trump para que ele se candidatasse. Ele descreveu a si mesmo como "cansado e farto dos políticos" e falou que Trump passa por um crivo importante: ele não nega a existência de Deus. "Nenhum de nós sabe se realmente existe um Deus, só esperamos que ele exista", disse Wright, que é metodista. "Se ele fosse um ateu declarado, então eu saberia que é louco."

Os eleitores evangélicos não têm uma visão política única, e muitos disseram estar desconfiados de Trump.

Margaret Chapman, 83, enfermeira aposentada de Sierra Vista, Arizona, que frequenta uma igreja cristã sem denominação, disse que apoia Cruz, a quem considera "um homem de fé" e um "pai de família dedicado". Ela citou o passado de Trump, dizendo: "só pelo seu passado, ele não parece muito religioso. Eu acho que ele não mudou de verdade, mas talvez tenha mudado."

Deryck Mullady, 34, de Cincinnati, disse que Trump nunca poderia ser seu candidato. As coisas que ele diz são "totalmente contra o que Jesus ensinou e o que lemos na Bíblia", disse Mullady. Ele disse que desaprova alguns de seus amigos cristãos que, em eleições anteriores, enfatizaram a convicção religiosa dos candidatos nos quais votaram mas "dizem que agora isso não importa" e estão apoiando Trump.

Mullady, um fiel sem denominação, disse que estava particularmente irritado com a sugestão de deportar 11 milhões de pessoas e de barrar os refugiados sírios. "Ele não tem religião", disse ele. "Isso não faz parte da vida dele. Por isso ele diz o que diz."

E Sherrie Haussecker, 55, que frequenta uma igreja sem denominação toda semana em Indianápolis, disse que acha a mensagem de Trump muito negativa. "Nem todos os cristãos que dizem ser cristãos o são", disse ela. 

 

Tradutor: Eloise De Vylder

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos