Incerteza e estranheza antecedem negociações na ONU pela paz na Síria

Somini Sengupta

Em Genebra (Suíça)*

  • AP - 22.mar.2013

    Staffan de Mistura, emissário da ONU que tenta reunir os diferentes lados para conversar

    Staffan de Mistura, emissário da ONU que tenta reunir os diferentes lados para conversar

Você já recebeu um convite e pensou: "Quem será que vai? Será que devo ir?" Na terça-feira, um grupo diverso de políticos e senhores da guerra sírios rivais recebeu um convite semelhante –para chá, café e conversações em Genebra. Ele foi feito por Staffan de Mistura, o emissário das Organização das Nações Unidas (ONU) responsável por reuni-los visando buscar um fim para os cinco anos de guerra que estão travando contra seu próprio povo. 

De Mistura disse que os detalhes da lista de convidados eram "sensíveis" demais para serem divulgados. Ele deixou claro que espera respostas formais e espera que os convidados compareçam a tempo para o início das negociações na manhã de sexta-feira. Afinal, esta é a Suíça. 

Como em quaisquer negociações de paz, as conversações sobre como realizar as negociações são sempre delicadas e intensamente discutidas, mas esta dança diplomática é particularmente estranha. Não apenas não está claro quem virá, como também não se sabe se estarão mesmo próximos de prontos a fazer as concessões necessárias para redução do sofrimento dos civis sírios, mesmo que um pouco. O plano de De Mistura de manter as pessoas em salas separadas e ficar em trânsito entre elas é outro indício de quão complexa é a situação. 

O sigilo também oferece ampla oportunidade para propaganda por várias facções, algumas das quais rapidamente alegaram ter sido convidadas –ou que ouviram que seus rivais foram convidados. 

Por ora, não há clareza sobre quem está vindo –nem quem não está– muito menos se considerarão até mesmo as metas modestas que a ONU articulou para as negociações: em primeiro lugar a suspensão dos cercos, principalmente pelas forças do governo, a permissão para que alimentos e medicamentos cheguem às pessoas presas atrás das linhas de frente. 

Por semanas, as partes têm brigado por meio de representantes sobre quem responderia pela oposição ao governo do presidente sírio Bashar al-Assad. A Arábia Saudita deu sua bênção a uma coalizão, composta de uma série de dissidentes políticos e rebeldes armados –e disse que esse grupo, conhecido como Alto Comitê de Negociações, deve permanecer sozinho no seu lado. 

Isso não é aceito pela Rússia, que apoia as forças de Assad em solo. Ela faz lobby pela presença de outros representantes nas negociações, inclusive aqueles que o bloco saudita considera próximos demais do governo Assad –e grupos curdos que a Turquia considera terroristas. 

Na terça-feira, o ministro das Relações Exteriores turco chegou a dizer que se o grupo curdo, chamado Partido da União Democrática, fosse convidado às negociações, a Turquia retiraria seu apoio. Há relatos conflitantes sobre se o chefe do partido foi de fato convidado. 

Também na terça-feira, Haitham Manaa, um dissidente que evitou o levante armado e que está entre aqueles que a Rússia apoia, confirmou que recebeu um convite, mas sugeriu que não participaria como parte da delegação confusa ditada por Moscou. "A lista de nomes é como uma sopa russa e é inaceitável", disse Manaa por telefone na noite de terça-feira. "Se vai ser assim, não participarei." 

Na noite de terça-feira, o Alto Comitê de Negociações emitiu uma declaração dizendo que recebeu o convite, mas não confirmaria sua presença antes dos cercos e dos bombardeios aéreos pelas forças do governo serem suspensos. 

"Os membros do comitê destacaram a importância do alívio da situação humanitária antes que as negociações possam começar", disse a declaração. Ela acrescentou que o comitê enviou uma carta ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon "pedindo esclarecimento". 

A incerteza não deteve o trem das negociações de paz já em movimento nos gramados verdejantes do Palais des Nations. Um conjunto de câmeras de televisão começou a ser montado para o grande dia. Uma equipe da agência de notícias estatal síria "Sana" chegou. Sua presença sinalizou que a delegação do governo estava a caminho. Ela seria liderada pelo seu embaixador nas Nações Unidas, Bashar al-Jaafari. Com quanta autoridade –ou disposição– ele conta para negociar até mesmo uma suspensão dos cercos não está clara. 

Diante do que está acontecendo dentro da Síria, é difícil acreditar que alguém esteja realmente pronto para negociar a paz, ou mesmo um cessar-fogo de curto prazo. Duas bombas foram detonadas em uma área de maioria xiita pró-governo em Homs, na terça-feira, matando 19, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos, um grupo de monitoramento no Reino Unido. 

Neste mês, ataques aéreos danificaram duas escolas em Aleppo, que o Conselho Norueguês de Refugiados disse ter reparado recentemente. O governo não permitiu que a Organização Mundial da Saúde entrasse na cidade mantida pelos rebeldes para tratar das crianças desnutridas. 

Altos funcionários de ajuda humanitária da ONU pediram na terça-feira para que as partes em guerra, e seus apoiadores no exterior, façam o que deveriam estar fazendo desde o início: seguir as leis de guerra. 

"Parem de atacar escolas, parem de atacar hospitais, parem de atacar pessoal médico", disse a mais alta autoridade humanitária da ONU na Síria, Yacoub  El Hillo, em uma coletiva de imprensa em Genebra. 

"Se não conseguem chegar a um acordo em coisas tão básicas, então não sei no que mais poderão concordar", ele acrescentou. "Se as negociações continuarem e as mortes continuarem, qual o sentido?" 

O Alto Comitê de Negociações se reuniu em Riad, Arábia Saudita, na terça-feira para considerar quem enviaria, se é que alguém irá. Pelo Twitter, foi dado um cutucão por um dos apoiadores mais poderosos do bloco, o Reino Unido. 

Gareth Bayley, o emissário do governo britânico para a Síria, postou: "Uma discussão séria e considerada está em andamento. Sem dúvida a Oposição entende suas responsabilidades". 

De Mistura prometeu buscar a orientação de grupos femininos e de representantes da sociedade civil. Mas nenhum recebeu os misteriosos convites na terça-feira, disseram os diplomatas, o que irritou Mouna Ghanem, uma política síria que não faz parte nem do bloco apoiado pela Rússia e nem do bloco apoiado pelos sauditas. 

"Às portas de Genebra 3ª, uma maioria de homens está correndo para negociar o futuro sírio", disse Ghanem, coordenadora do Fórum das Mulheres Sírias pela Paz, em uma declaração. Ela chamou a participação das mulheres de "rasa e insignificante". 

De qualquer forma, as delegações do governo e da oposição, seja ela uma ou mais de uma, não deverão se reunir em torno de uma mesma mesa. Várias salas foram preparadas no prédio da ONU para que as várias delegações conversem com De Mistura e sua equipe. O governo suíço deverá pagar a conta dos quartos de hotel. Há pelo menos três hotéis para pelo menos três delegações. 

Haverá café e chá nas salas. Se houver alguma vista pelas janelas, as cortinas provavelmente estarão fechadas, por razões de segurança. Não há planos de servir sopa russa. 

*Nick Cumming-Bruce, em Genebra, e Hwaida Saad, em Beirute (Líbano), contribuíram com reportagem adicional

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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